A vida é um origami

Aveiro por um canudo

 

 

 

Ivar Corceiro *

 

Tens de sentir que tens uma vida normal. Aprender a fingir que tudo não passa de mais um dia. Estás sentado num café no meio de muitas pessoas que falam entre elas uma língua que desconheces completamente. Acabaste de te dar conta disso um pouco antes, quando pediste pela primeira vez uma cerveja e não conseguiste dizer nada porque nem o alfabeto te é familiar. Apontaste para a garrafa com o dedo indicador da mão direita e disseste um “please” envegonhado. Naquela cidade és quase mudo, quase surdo. Do outro lado do balcão uma mulher sorriu-te e esse sorriso teve uma importância maior do que todos os outros. Do que o da tua mãe quando te ofereceu um jogo num Natal da tua meninice, do que o da tua primeira namorada quando disse que te amava, do que o do teu melhor amigo quando te pagou um uísque no teu aniversário de há alguns anos.

 

Tens de sentir que tens uma vida normal. Percebes então que os sorrisos são uma questão de sobrevivência. São água. Dantes tinhas muitos e sabiam-te bem, agora não tens nenhum e por isso aquele sabe-te ainda melhor. Precisas dele para viver. Mais um dia, talvez. E bebe-lo como se estivesses no deserto.

 

Quando emigras aprendes a transformar a tristeza dos dias na tristeza de um momento. E dás o primeiro gole. Vem-te à memória o primeiro avião de papel que fizeste na escola primária, com a ajuda generosa da tua professora. Não voou e choraste. Ela sorriu e disse-te para fazeres outro. Não sabes porque é que raio te estás a lembrar disso agora, acabado de chegar à Bulgária para refazer uma vida que já não te chegava a nada. Talvez porque tenha que ser assim. A tristeza não se pode esticar. É para encolher. Se um avião não voa, fazes outro; se alguém não te sorri, tentas outra vez. A vida passa a ser um origami.

 

Tens de usar uma máscara que te petrifique a face, que te proteja de cada memória que te possa quebrar enquanto caminhas numa cidade cujos edifícios te ignoram. E então lembras-te da tua. Chamava-se Aveiro e talvez ainda exista. Às vezes cumprimentavam-te quando caminhavas assim. Diziam-te olá, perguntavam-te como estavas e como ias, sorriam-te. Pensavas que isso era normal. Não é. Já não há.

 

Tiras a máscara à noite, quando lês repetidamente as poesias do único livro em português que tens contigo, num chão de madeira suja e à luz do passado, numa casa vazia de tudo e de todos. Foi uma amiga que to deu mesmo antes de partires. Isso mais um abraço, mas o abraço já se desfez em nada. Foi-se espalhando pelo tempo como tudo o resto.

 

E tornas a acordar ali, tornas a ser ninguém, tornas a perguntar-te pela tua cidade enquanto caminhas noutra. Um homem embriagado cai no meio da rua e tu corres para o ajudar. És o único. Todos os outros passam a ruminar a própria vida. Levas o bêbado até um muro e ele diz-te qualquer coisa. Não sabes se te pergunta as horas, se te pede dinheiro, se te agradece, se te declama um poema. Não faz mal. Já sabes transformar dias tristes em momentos tristes, não já?

 

Sabes pois. E procuras o mesmo café, aquele onde alguém te sorriu e fizeste origami com a tua memória. Está lá a mesma mulher que não te deixa sequer apontar para a garrafa de cerveja cujo nome não sabes. É ela própria quem o faz e te mostra o que queres. Lembra-se de ti no dia anterior. Desta vez não se limita a sorrir. Soletra a palavra em sons doces enquanto os seus dedos caminham pelo rótulo. Sorri outra vez.

 

A voz dela é música. Estás sentado num café no meio de muitas pessoas que falam entre elas uma língua que desconheces quase completamente. Já sabes uma palavra. A vida é um origami. Constrói-se assim, a regra e esquadro, devagar e sem ânsia. Quando um avião de papel não voa faz-se outro. Quando uma vida não se vive emigra-se.

 

* O Ivar Corceiro é um entre muitos aveirenses que vive fora do país. Escreverá regularmente sobre esta experiência de ver “Aveiro por um canudo”

 

 

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