Vasco Sacramento: “Falta escala a Aveiro” e Ílhavo pode dar uma ajuda

 

 

Cresceu no meio de escritores, músicos e políticos, vivência que muito terá contribuído para o levar a fazer carreira na área cultural. Mas o verdadeiro “bichinho”, confessa, pode ter começado a desenvolver-se quando teve acesso aos bastidores de alguns espetáculos. “A minha mãe fazia, ocasionalmente, espetáculos e essas experiências deixaram qualquer coisa em mim”, testemunha o produtor cultural Vasco Sacramento. Em entrevista à Aveiro Mag, o responsável pela produtora “Sons em Trânsito” diz que quer continuar a estar e a viver na sua cidade de sempre, não obstante esse grande senão: “Falta escala a Aveiro”, lamenta. Sem embaraço, admite uma fusão dos municípios de Aveiro e Ílhavo.

 

Atualmente com 41 anos, Vasco Sacramento foi, desde sempre, um apaixonado pela música. Teve aulas de piano, durante seis anos, e volta e meia ainda se habilita a lançar os dedos para cima de um teclado. “Costumo dizer, na brincadeira, que o meu piano podia queixar-se de violência doméstica porque é muito mal tratado”, conta.

 

Na altura em que estava a frequentar a universidade, começa a encarar “os espetáculos como uma forma de ganhar um dinheiro extra”. “Foi assim que comecei e, durante os primeiros dois a três anos, dizia sempre que era uma coisa passageira, para me entreter”, prossegue. Estava a estudar Direito, determinado em ser advogado, mas o mundo dos espetáculos acabou por levar a melhor. “Faltam-me duas cadeiras para acabar o curso e todos os natais prometo à minha mãe que as vou fazer”, desvenda o produtor aveirense.

 

 

Do Sons em Trânsito para o Rock in Rio

 

 

A sua verdadeira afirmação como produtor de espetáculos aconteceu em 2003, quando foi convidado para programar a Tenda Raízes do Rock in Rio de 2004. “A partir daí as coisas tornaram-se muito mais sérias e exigentes; esse foi o momento decisivo”, recorda. Antes disso, já tinha brindado os aveirenses com as primeiras edições de um festival de referência: o Sons em Trânsito.

 

“Começou em 2002 e foi sempre um projeto que me apaixonou”, realça Vasco Sacramento, notando, ainda, a importância que o Sons em Trânsito teve para a cidade e para a região. “Foi uma pedrada no charco, colocou Aveiro no mapa”, vinca, a propósito do festival que acabou por dar nome à sua empresa. Após um interregno de nove anos, o evento acabou por regressar em 2016, “muito por iniciativa e força do José Pina (programador cultural do município de Aveiro)”, justifica.

 

Realizadas as edições 2016 e 2017, Vasco Sacramento entendeu que “era preciso repensar o modelo”. “Estávamos a replicar o que tínhamos feito na primeira vida do festival e eu senti que era preciso procurar um outro caminho”, confessa. Ou seja, optou-se por não realizara a edição de 2018 e ganhar tempo para “repensar o modelo”. E poderá o Sons em Trânsito regressar já em 2019? “Provavelmente sim”, declara.

 

 

Vasco Sacramento mantém a sede da sua empresa em Aveiro

 

Apesar do forte crescimento que a sua produtora tem vindo a registar, Vasco Sacramento optou por a manter sediada em Aveiro – ainda que com um escritório na capital. Estando a produzir entre 500 a 600 espetáculos por ano e a agenciar um total de 14 artistas portugueses, não seria de estranhar a sua transferência para Lisboa.

 

“Era muito mais fácil, pois a indústria musical e do entretenimento está toda em Lisboa. Por outro lado, o facto de estarmos em Aveiro permite-nos ter um maior contacto com o país real”, argumenta, sem esconder que a decisão tem, também, uma dose de egoísmo. “Gosto de estar em Aveiro, tenho uma ligação familiar-histórica a esta cidade, tenho aqui ruas com os nomes dos meus antepassados, e a minha mulher e a minha mãe estão aqui”, argumenta.

 

Em defesa de uma “fusão a nível político”

 

E é esta a cidade Aveiro que gostava de ter? “Às vezes, falta escala e algum cosmopolitismo, mas não podemos querer ter sol na eira e chuva no nabal. Se eu quero que os meus vizinhos saibam o meu nome e me avisem quando a minha mulher deixa as luzes do carro ligados, não posso querer ter a sofisticação que uma grande cidade traz”, aponta.

 

Ainda assim, seria importante dar escala à cidade, ajudando-a a crescer, argumenta. Como? “É um desafio que se levanta para as próximas décadas”, repara, colocando em cima da mesa a discussão em torno de uma união Aveiro-Ílhavo e, possivelmente, até com outros municípios. “Estou à vontade para falar sobre isso: sou aveirense, vivi 14 anos no concelho de Ílhavo, sou filho e neto de ilhavenses e, portanto, para mim, Aveiro e Ílhavo são a mesma coisa”, alega, defendendo, desta forma, “uma fusão a nível político”.

 

Perante o tema, e visto que a ligação à política lhe corre nas veias (é neto de Mário Sacramento ), a pergunta torna-se inevitável: a vida política ativa é uma possibilidade? “Claro que já pensei nisso. Mas, ao contrário do que se possa pensar, com o passar dos anos, essa parece-me uma realidade cada vez mais longínqua”, declara.

 

 

 

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