Era uma vez a minha cidade…

 

Andreia Silva*

 

 

A minha cidade cheira a maresia. Por todo o lado se inspira o ar fresco e salgado, com aroma a mar e a ria.

 

Dantes, a minha cidade cheirava mal. Quando eu era pequena cheirava a… cocó, sim, acho que era a cocó. Mas já gostava dela assim.

 

Quando eu era pequena nadava-se na ria – mesmo malcheirosa – um pouco por todo o lado, em cada braço seu. E provava-se o sal das marinhas, por onde se caminhava livremente. Os montes de sal estavam em toda a parte e pareciam gigantes sentados à entrada, a guardar a cidade.

 

No parque havia animais e aos domingos o roteiro preferido era sempre a ida ao parque: faziam-se piscinas entre os patos e a macaca e no final parava-se para voar até ao céu no balancé, como um pássaro. Não podíamos ir ao parque sozinhas, não! Porque era escuro e escondidinho, bom para os ladrões e malfeitores fazerem mal a meninas pequenas. Mas isso enchia-o de mistério. Para mim, era o suficiente para me fazer arriscar, atravessá-lo, às vezes, à pressa, e poupar uns bons e largos passos até à escola.

 

No parque também havia amor, um pouco por todo o lado. No tempo em que os namorados (sortudos) tinham que vir para a rua, porque dentro de casa era atrevimento a mais, o cinema era caro e não havia Netflix, nem chat onde conversar… E havia histórias de namoros de ainda mais antigamente, do pai e da mãe, e do seu cantito, onde se descobriram e sonharam comigo.

 

A avenida era passerelle, e para cima e para baixo, era um tal passear. A pé, claro está, porque não se veem montras de carro. E havia sempre algo para ver, nem que fosse outra vez. O carro parava-se no início, no parque de areia. Não havia tanto barulho nem fumo, nem nada. Mas havia muito mais gente na calçada… principalmente ao domingo. Comiam-se croissants no Oita, e até o Riaplano merecia o desvio. Afinal, eram mais montras para ver! E até havia discoteca por lá. E bem concorrida por sinal.

 

No final do dia, antes de regressar a casa, um pouco de adrenalina: subia-se até lá acima as escadas do Pão de Açúcar, para comprar (ou só ver) as novidades do supermercado. Para a minha irmã mais nova, domingo que era domingo, acabava no “Cuca Pão”.

 

À medida que fui crescendo, o cheiro a cocó foi desaparecendo. Mas as marinhas também ficaram velhas e abandonadas, e os montes de sal deixaram de nos guardar a todos. Ninguém queria mais atirar-se para os braços da ria – ou queria, mas já não deixavam. Até o parque perdeu a piada: a macaca partiu e depois partiram-lhe a casa. E levaram todos os pássaros. O que se calhar até foi bom para eles, coitados, que aquilo era uma vida triste – ou será que gostavam de nós, tanto como nós deles, e afinal morreram foi de saudade dos gritos das crianças ao domingo? Os patos também ficaram mais tristes e habituaram-se a restos de pão velho, dados por velhos, e tarados, enquanto chafurdavam na lama.

 

A avenida… qual avenida? Agora, eram várias avenidas, todas para os carros, nenhuma para as pessoas. Já não se podia ir ver as montras, porque o ponto de partida era o sítio onde se deixava o carro. E o carro já não podia ficar ali, porque ali plantaram um Forum – não daqueles para conversar, mas principalmente para comprar.

 

Sinto que houve uma fase em que ninguém quis saber da minha cidade, a não ser os da minha cidade. E gostávamos dela assim, mesmo um pouco abandonada.

 

Mas depois chegaram os outros. A cidade deixou o cocó de vez, e ficou toda pipi para os espanhóis, os franceses, alemães e… até os chineses.

 

Foi uma azáfama, fazer renascer das cinzas aquilo que já ninguém queria. Os barcos velhos, as salinas, as calçadas, e até o parque. Todo aberto à cidade agora, cheio de vaidade… Mas perdeu o mistério, deixem que vos diga! Sem as canas de bambu altas a perder de vista e todos os recantos para o amor…

 

A ria encheu-se de cores, e os moliceiros têm condutores poliglotas e coloridos, cantores e bailarinos, com ar às vezes um pouco idiota, até. Não me lembro é deles na minha infância, ali no centro daquela Aveiro dos que são da minha cidade. Se calhar andavam ao moliço? Ou será que nunca viram moliço? Os que o conheceram cantam é de saudade da apanha, e os que nunca o viram… cantam uma tolice tamanha por mais uma moeda do turista que visita esta nossa pequena amostra de Veneza.

 

Há escritos em inglês por todo o lado e temos que pedir licença para passar, de preferência em língua estrangeira também.

 

As pastelarias estão sempre cheias, há cafés e restaurantes novos todas as semanas… diferentes dos que me lembro de ver na infância, mas com aquele aspeto pseudo-rústico – tradicional que todo o turista gosta. Abrem e fecham e muitos nem os chegamos a conhecer!

 

Mas voltaram os guardas salgados. E ficam bem bonitos, por ali na entrada sentados… Mas já não se pode lá ir, não. E provar só em saquinhos ou frascos muito bonitos. Agora, é preciso pagar e pedir para abrir a cancela para seguir. Mas os estrangeiros não se incomodam com isso, têm dinheiro a jorros! E todos gostam que aqui despejem os bolsos.

 

Está tudo catita e bonito… mas nunca lá vejo os marnotos. Onde estarão eles escondidos? Aqueles da minha infância que trabalhavam descalços? Os verdadeiros, de carne e osso?

 

Tenho que admitir que gosto das casas todas restauradas – mas não me parece justo que agora sejam tão, tão caras que os aveirenses deixem de poder ocupá-las.

 

E a ria? Sempre em obras, com muros tão fortes, que já não deixam a água fugir. Que falta fazia preservar a cidade assim!

 

Já há os croissants em roulottes, e tripas por todo o lado, parece que é sempre festa, ou dia de folga em Aveiro. Até se imita Paris, com fitas a jurar amor – o que sucedeu às palavras e aos olhares? Aos abraços e às flores?

 

Está linda Aveiro. Mas sinto que lhe falta o ar, o vento da minha infância. E o que era mesmo dos aveirenses, tão dos aveirenses, até se manda cortar, porque o que interessa é o espaço para o turista passear – e estacionar. As árvores do Rossio… as que cresceram connosco… coitadas, tão rentes foram cortadas! Tiveram que se render, elas e nós.

 

Continuo a gostar da minha cidade. Mesmo. Muito. Mas sinto-lhe falta da calma, das paredes velhas, e até do cheiro a cocó na rua, de quando ela era mais nossa, ou só nossa, daqueles que sempre a chamaram de sua.

 

  * Autora e blogger (To Me or Not To Me)

 

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