Nunca sabemos do que são feitos os outros

Aveiro por um canudo

 

 

Ivar Corceiro*

 

 

Em New Castle Under Lyme há um pub que está praticamente igual há quase trezentos anos. Chama-se A Cabeça do Touro Velho e frequento-o por me permitir manter uma vida social com ingleses que não são meus amigos. Sento-me ao balcão sozinho, peço uma pint de Guiness e é raro o dia em que não termino a falar com alguém. Quase sempre sobre temas triviais como futebol, vinho, países diferentes ou política suave.

 

Não tenho, de facto, muitos amigos ingleses, apesar de viver em Inglaterra há quase dois anos. Foi assim, ao balcão de um bar, que descobri que isso é normal. Os ingleses também não têm muitos amigos ingleses apesar de viverem em Inglaterra desde que nasceram. Parece uma piada e talvez até seja, mas foi-me contada por um cliente habitual que faz o mesmo que eu, apesar de ter nascido e crescido a poucos metros do pub. Quando lhe apetece dar dois dedos de conversa vai ali.

 

Um pedinte entrou no estabelecimento e interrompeu-nos. Queria beber uma cerveja igual à nossa. O meu interlocutor recusou-se prontamente a pagar-lhe fosse o que fosse, eu ofereci-lhe duas libras, que era a única moeda que tinha no bolso. Ele atirou-a para o chão e cuspiu. Depois saiu deixando no pub um silêncio momentâneo opaco.

 

  • É louco! – opinou finalmente alguém.

 

Mas eu contestei essa loucura. Dei mais um gole na minha cerveja e recuei à minha origem, àquilo que eu sou e de que não consigo fugir. Aveirense. Os outros ouviam-me.

 

Era Aveiro, sim. Era também o homem mais só numa cidade solitária. Caminhava sempre como se tivesse para onde ir e estivesse cheio de pressa, com uma bóina suja que já tinha visto mais moedas pretas de esmola do que cabelos e um olhar incapaz de se fixar num ponto que fosse. Chamavam-lhe louco, mas de louco não tinha nada. Apenas se fartou de pessoas, disse-me um dia. Eu acreditei.

 

Não sei para onde foi viver quando lhe destruíram o contentor metálico ferrugento a que chamava casa, ali para os lados do que mais tarde veio a ser o Bairro do Liceu, que nessa altura era apenas um baldio onde eu e outros rapazes jogávamos futebol e sonhávamos com futuros impossíveis. Sei que chorou nesse momento porque a vizinhança o comentou. Coitadinho, ouvi.

 

Depois cresci e percebi que ele continuou a existir na cidade, passando pelas pessoas como se passa pelos intervalos da chuva, ou seja, molhando-se. Para além de mim, para além dos outros, para além do coitadinho. Tirava a bóina num gesto elegante, como se fosse servir taças de espumante caro numa travessa de prata aos transeuntes, mas a bóina estava apenas vazia e à espera de boa vontade. Pedia moedas assim, com a dignidade do mundo. Sempre.

 

Cresci a vê-lo nesse gesto treinado de quem pede a quem passa mais algum tempo de vida e para quem as moedas são como a areia que cai numa ampulheta apressada. Podia acontecer numa rua qualquer, mas também nos cafés onde a malta se juntava para misturar palavras com cerveja ou vinho durante a noite. Era o Palácio, o antigo Convívio ou o antigo Ramona. E lá vinha ele, servir pedidos a quem já estava servido. Depois saía sem agradecer.

 

Foi no Palácio. Ele nunca o soube, mas ensinou-me como as feridas exteriores podem ser mais fáceis de curar do que as outras, aquelas que crescem dentro de nós e estão sempre abertas e sangrentas. Fê-lo da forma mais simples e cruel que podia, depois de eu e a Maria lhe termos dado uma moeda cada um sem reparar no seu gesto magistral. Devolveu-nos as moedas, a da Maria a mim e a minha à Maria. Quando confusos olhámos para ele despediu-se com uma continência militar. Não cuspiu.

 

  • Eu não sou louco. Apenas me fartei de pessoas.

 

Vim a saber mais tarde, quando contei esta história a um amigo, que o Narro foi torturado várias vezes pela polícia política do antigo regime e que por isso a vida dele terminou em muitos aspectos antes de acabar de facto. Não que tenha ficado louco, apenas se fartou de pessoas.

 

A minha pint chegou ao fim. Uma mulher de aspecto franzino apanhara a moeda de duas libras e colocara-a em cima do balcão, perto de mim, durante o meu monólogo. Agradeci-lhe, coloquei-a no bolso e despedi-me. Alguns retribuíram o gesto, outros não.

 

Nunca sabemos do que são feitos os outros.

 

* O Ivar Corceiro é um entre muitos aveirenses que vive fora do país. Escreve regularmente sobre esta experiência de ver “Aveiro por um canudo”

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