O Café Assombrado

Aveiro por um canudo

 

 

Ivar Corceiro*

 

 

Do que me lembro é de ter que dar dois passos por cada um do meu pai. Ele andava, eu corria. Disso e de conversarmos sobre tudo menos da escola, o que me fazia esperar com ânsia pela hora em que, depois do jantar, ele me perguntava se eu queria ir tomar café. Tratava-me pelo diminutivo, a mim e ao café, correspondendo sem contemplações à minha condição de criança. Claro que com cinco ou seis anos de idade não se bebe tal coisa, mas pode-se perfeitamente fingir que sim. Um garoto, pedia eu.

 

É sempre assim. Tudo aquilo que vejo lembra-me algo do meu passado e da minha cidade. Numa rua qualquer de Liverpool acabam de passar por mim, tal e qual, pai e filho. O pai caminhava, o filho corria. Não sei do que falavam, mas sei que daqui a quarenta anos o mais novo ainda se vai lembrar disso mesmo.

 

Eu, do que me lembro é da noite densa e húmida da cidade e da Lua a espreitar-nos curiosa e em silêncio, ouvindo as minhas perguntas e ainda mais atentamente as respostas do meu pai. Pai, a Lua é muito longe? Os americanos já lá foram, não deve ser assim tão longe. Pai, podemos ir à loja onde se põe a mão na montra e dá música? Hoje não, talvez amanhã. Pai, o café onde vamos tem mesmo fantasmas? Claro que tem, mas não fazem mal a ninguém.

 

A Lua ainda é a mesma. Certifico-me que sim enquanto caminho pela cidade inglesa à procura de um pub onde me apeteça entrar para beber uma pint de Guiness. É a mesma e assemelha-se muito às pessoas, penso. Talvez precisamente porque as observa desde sempre, tão atentamente como o fazia a mim e ao meu pai na minha meninice. Só lhe vemos um dos lados. O outro é uma surpresa.

 

O pai e o filho foram engolidos pela noite. As ruas de Liverpool estão desertas, mas ouço alguns sons musicais na direção da zona do porto, que atualmente é praticamente apenas um grande centro comercial a céu aberto. Estou sozinho, por isso caminho nessa direção conversando com a minha memória.

 

Lembro-me que a loja de música ficava no meio da Avenida, onde todas as ruas de Aveiro iam dar como se fossem rios a correr tristes para o mar. Era numa esquina e havia quase sempre um grupo pequeno de pessoas solitárias a ouvir discos de quarenta e cinco rotações, cujas capas estavam numa das montras e nas quais bastava colocar a palma da mão durante dois ou três segundos para se ouvir a respetiva canção. Não era pelo som nem pelo milagre da tecnologia que se juntavam ali aquelas almas raras. Era pela solidão.

 

O café assombrado era o Trianon, cujos grandes e pesados candelabros se moviam sozinhos e sem razão aparente por cima das cabeças dos muitos que o frequentavam, no que parecia ser uma dança fantasmagórica das almas daqueles que já tinham, noutra vida, sido clientes habituais do mesmo espaço. Pai, os fantasmas estão cá agora? O meu pai olhava para cima durante alguns segundos. Olha, filho, pois estão. Depois voltava ao jornal que lia sempre de trás para a frente.

 

Do que me lembro é dos fantasmas e dos outros. Grupos de soldados a afogarem saudades serôdias em garrafas de cerveja, alguns reformados hipnotizados por um televisor barulhento, a fina flor a cumprimentar de lado a prostituta que, por sua vez, devolvia os mesmos cumprimentos de frente e em alto e bom som. Também aqueles que tinham sempre que cravar uma moeda antes de se sentarem para tomar café e finalmente os empregados. Todos eles respondiam pelo estranho nome de Psssssst!

 

Encontrei um pub apetecível. Chama-se Estrela Branca. Vou entrar com os meus fantasmas e beber uma cerveja. Eles existem, mas não fazem mal a ninguém. Além disso, hoje já conversámos bastante.

 

* O Ivar Corceiro é um entre muitos aveirenses que vive fora do país. Escreve regularmente sobre esta experiência de ver “Aveiro por um canudo”

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