Viver em Ílhavo

 

Andreia Ribeiro da Silva*

 

 

Nunca gostei muito de Ílhavo. Até vir viver para cá e descobrir que há muito para descobrir nesta terra de água e pescadores.

 

Há principalmente uma calma forma de viver para descobrir.

 

Em Ílhavo há cheiro a maresia. Todos os dias. E mesmo sabendo que está considerado um dos concelhos do país com pior qualidade do ar, continuo a não acreditar em tudo o que leio, porque para mim este odor a sal é terapêutico e não acredito que me faça mal.

 

Em Ílhavo, é possível viver-se apenas a pé. Ter tudo ali, a 5 minutos, sem confusão, nem stress, nem hipermercados, e melhor ainda, sem shoppings. Odeio hipermercados e shoppings e espero que nunca contaminem o ar de Ílhavo com isso, isso sim. Gosto de ir à mercearia, à frutaria, ao talho, à farmácia… e conhecer os rostos que conhecem o meu e me recebem com um bom dia e boa tarde sorridente.

 

E gosto de poder ir ao café depois de jantar, a pé, com os meus rapazes, enquanto chutamos uma bola pelo caminho. Dois pés de futebol no jardim, um café na esplanada a seguir, e se o cansaço permitir, ficamos um pouquinho mais para “sair à noite” e parar no bar do Chico a ouvir uma musiquinha.

 

O miúdo delira com os campos para todos os tipos de bola, e a piscina para exercitar o corpo e animar convívios em família ao fim de semana. Há caminhadas à escolha: há a beira-ria e pores do sol incríveis quase todos os dias, há becos e ruelas que falam connosco por entre o silêncio dos nossos passos na calçada – com banquitos pelo caminho para os mais preguiçosos e mesas estendidas para jantar em dias de festa.

 

Há parques com patinhos e água a correr, campos cobertos de tremoço amarelo primavera, e há a Vista Alegre. Uma cidadezinha mágica em miniatura, toda vestida de amarelo e branco. Tenho que confessar que me choca um pouco a nova Vista Alegre, mas parece que não conseguimos recuperar coisas antigas sem termos que levar com a modernização excessiva e o dinheiro de privados que acabam sempre a usurpar o que nunca devia deixar de ser de todos. Pois é, o arco da Vista Alegre agora não é público e a vista sobre a ria já não é para qualquer um. A menos que o atravessemos em cima de bicicletas velozes que ainda conduzem almas rebeldes, e pedalemos tão depressa que regressemos ao passado e à coragem de atravessar a assustadora ponte de pau, que mesmo que agora segura, mantém a magia do cruzamento da ria sobre tábuas soltas.

 

Ílhavo é lanche com piquenique à beirinha da água, ao lado dos barquinhos por ali pousados, vaidosos das suas origens e cores, mesmo que já velhos se confundam com a água de prata. É chá ali também só para saborear o nada, abraços de grupo e mãos dadas em noites de luas grandes e cheias.

 

Ílhavo é o lugar perfeito para a vida no bairro, a vida em família e a contemplação numa vida a sós. É cidade de arte e artistas,  que honram e se inspiram nas tradições, que criam e vivem lado a lado com as marias e as padeiras. São trilhos, rotas e museus recheados de bacalhaus, são festivais cheios de música, marionetas e é a rádio faneca. São as praias logo ali a umas pedaladas, e das mais mágicas que já vi: fechadas sobre si com dunas que afastam o turbilhão e o barulho, casas riscadas de cores e o mais belo de todos o mares.

 

Em Ílhavo, a vontade é de ficar para sempre.

 

O que eu palmeei os seus cantitos em busca de um para mim, que me permitisse ficar para sempre! Infelizmente, não consegui um que me coubesse no bolso, e terei, um dia, que partir. Mas tenho que levar a garantia de que aqui continuarei a passar: continuarei a abrir os olhos ensonados ao volante com o despertar da ria, e a consolar a cabeça cansada na queda do laranja-sol ou o azul-lua sobre as suas águas.

 

Deixo assim em Ílhavo a promessa de sucessivos regressos. Só assim conseguirei ir embora.

 

E levo no peito um obrigada, porque há uma espécie de reencontro connosco quando vivemos a vida em lugares assim. Ílhavo foi e é para mim lugar de (re) descoberta do melhor do mundo de antigamente, e do melhor que cada um carrega cá dentro.

 

 

*Autora e blogger (To Me or Not To Me)

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Mónica Bastião
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Mónica Bastião

Nasci, cresci, estudei, casei, fui mãe e lancei fundações eternas em Ílhavo. Nunca equacionei sair daqui…viver aqui é um aconchego!