Não deixa Beira!

Aveiro por um canudo

 

 

 

 

Ivar Corceiro *

 

Neste momento não sei bem como é que vim aqui parar. Olho pela janela do Uber e a cidade de Stoke desfila desarranjada do outro lado, mas não é a ela que vejo. Primeiro o reflexo da minha face no vidro sujo do automóvel a dizer-me que estou nitidamente mais velho, depois toda a minha a vida, desde uma rua secundária num bairo de Aveiro até um bairro periférico em Stoke-On-Trent. Por onde é que já andei? O que é que já fiz para sobreviver a mim mesmo? Nem sei bem.

 

Sei que as mãos da condutora são aparentemente demasiado brancas e finas para o tamanho do automóvel que me leva até ao estádio de futebol onde o Stoke FC vai enfrentar o Rotherham dentro de alguns minutos e movem-se no volante tão agilmente como uma serpente que se enrola no ramo duma árvore. O veículo pára para deixar passar um grupo de adeptos que abranda o passo para tirar uma fotografia com os cachecóis esticados com se fossem acordeões abertos. Ela pergunta-me de onde sou. É sempre assim, o meu sotaque trai-me no primeiro momento que peço uma cerveja ao balcão de um bar ou indico uma direcção a um motorista de táxi.

 

O que me trai também é a minha vida, que desfilo novamente em sentido inverso para tentar descobrir a resposta. De onde é que eu sou? Stoke na Inglaterra, Sófia na Bulgária, Barcelona na Catalunha e mais uma quantidade incontável de cidades onde deixei um bocadinho de mim. Não sei bem. No entanto, os rios vão sempre dar ao mar.

 

– Aveiro, em Portugal! – digo.

 

O automóvel recomeça a marcha. Os adeptos do Stoke vão ficando para trás, cada vez mais pequeninos, e a distância já engoliu os seus gritos mais ou menos tribais. Um deles ainda toca o acordeão silencioso em cima da sua cabeça, aos saltos pela rua que atravessa numa ponte um dos canais da cidade onde os barcos esguios se passeiam numa preguiça invejável.

 

– De que clube é esse cachecol? – pergunta ela.

 

Creio apenas que reparou na diferença cromática entre mim e o grupo que acabou de passar por nós. Olho para baixo e fito o meu cachecol do Beira-Mar como se o visse pela primeira vez na vida. Depois novamente para a janela mágica do automóvel, capaz de me transportar no tempo e no espaço apenas num momento.

 

O Beira-Mar estava para descer de divisão e tinha que vencer em casa o Marítimo na última jornada, o que conseguiu com um golo do Fary no início da segunda parte. Comprei este cachecol nesse mesmo dia, creio que há uns quinze anos. O Mário Duarte cheio como um ovo e um homem a passear um burro pintado de amarelo pelo estádio. Era preciso proteger esse golo e ouvia-se a frase “Não deixa Beira!” a pulular de adepto em adepto como uma borboleta num voo tonto.

 

Antes disso, muito antes, a minha mãe tinha-me feito um outro cachecol que também ainda tenho comigo. Uma sequência alternada de quadrados pretos e amarelos, numa altura em que o marketing ainda era uma palavra deconhecida do léxico português. Estreei-o num empate a dois golos com o Recreio de Águeda com um golo no último minuto, já eu ia a sair do Estádio. Ouvi o grito explosivo daqueles que ficavam sempre até ao último segundo e virei-me para trás surpreendido. Depois uma senhora que vendia sacos de pevides na porta das Pombas atirou-me um como oferta. Sorri-lhe.

 

– Toma menino! – disse.

 

De certa forma, cada vez que vou a um jogo de futebol onde quer que seja, o clube que estou a ver é sempre o mesmo. Sabem?! Os gestos de alegria e de desilusão repetem-se por esse mundo fora, no desporto como na vida, com vitórias e derrotas que acabam por ficar guardadas dentro de cada um de nós como se fossem barras de ouro num cofre, mas nada apaga a inegável sensação de que por um momento, numa fracção de segundo que seja, todos partilhamos o mesmo.

 

O Uber encosta junto à rotunda do Estádio do Stoke FC. Torno a reparar nas mãos finas da mulher que me conduziu até aqui numa condução ágil e delicada mas, desta vez, também no seu sorriso através do espelho retrovisor central.

 

– Beira-Mar! . Respondo.

 

 

* O Ivar Corceiro é um entre muitos aveirenses que vive fora do país. Escreve regularmente sobre esta experiência de ver “Aveiro por um canudo”

 

Artigo escrito ao abrigo do antigo Acordo Ortográfico

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