Cristina Felizardo: “Acredito que podemos ser sempre felizes”

 

 

Chama-se Cristina Felizardo e tem abraçado uma missão muito especial. Conselheira do luto por profissão – melhor dizendo, “por paixão” –, esta aveirense não tem pruridos quanto a partilhar o seu exemplo de vida para fazer passar a mensagem de que podemos sempre ser felizes.

 

Mãe de um menino com necessidades especiais, gosta de se desafiar a si própria – aos quarenta anda a correr “trails”. Há alguns anos, abriu um centro, o CFeliz, para apoiar pessoas em luto. É comentadora residente num programa de televisão e tem um blogue onde convida “o mundo a olhar para fora do plano original”. Tem lidado com muitas histórias de vida. A do Tiago e da sua mãe, Ana, deixou marcas profundas.

 

Em entrevista à Aveiro Mag, Cristina Felizardo, a mulher que já traz o Cfeliz no nome, deixa um testemunho digno de, no mínimo, uma reflexão. Do que estamos à espera para sermos felizes?

 

Quem é a Cristina Felizardo? 

Sou a miúda com o CFeliz! Sou a mãe do garoto mais feliz de sempre, que nasceu no Dia Internacional da Felicidade. Coincidências… Diz-se, por aí, que afinal tenho uma genética tramada. Sou a portadora da malformação genética responsável pelo síndrome do meu filho. Alteração do gene UPF3B, no cromossoma x. Bom… isso explica mesmo muita coisa!

Sou companheira feliz, filha dedicada, irmã presente, tia babada, sobrinha atenta e a prima estranha mas tolerável. Amiga dos meus amigos, cuidadora de quem amo. Defensora aguerrida da equidade social. Desde menina, em que já apregoava a igualdade de género, até adulta, onde arregaçava as mangas para combater as injustiças sociais. Assistente social “forever”! E, depois, no meio das inúmeras perdas profissionais, eis que descubro um novo caminho, no meio daquela ensarilhada de caminhos. Conselheira do luto por paixão. Não é uma profissão, é uma forma de estar.

Não me perguntes nem como, nem quando, mas acabei por ser a comentadora residente no programa da TVI, “A Tarde é Sua”, conduzido pela Fátima Lopes. E queres ver que, aos vinte anos, eu dizia que a pior coisa que me podiam fazer era obrigarem-me a correr? E olha para mim agora! Praticante de “trails” aos quarenta… Fã de desporto como forma de manter mente a alma sãs em corpo são. A harmonia perfeita.

Posto isto: sou feliz, tramada, afetuosa, guerreira, proativa, perseverante, otimista, cuidadora e dinâmica. Ufa! Até eu me canso a mim mesma!

 

Como e quando iniciaste o teu percurso como conselheira do luto?

Esta caminhada começou há 11 anos, quando o meu filho nasceu. Até então, eu estava a viver o sonho da felicidade prometida: curso, carreira, marido e casa nova. Desviei-me do caminho quando fui mãe. É que um bebé com necessidades especiais não cabia no plano original. E se ele não estava lá, então também eu não queria lá ficar. Esta perda, a perda do filho sonhado custou-me outros sonhos: a carreira, o marido e a casa nova.

Tive de recomeçar a vida, não do zero, pois não era mais só eu, agora tinha um menino especial nos braços. Ele devia ter uns dois, três anos quando retomei os estudos e fiz o mestrado na área da deficiência infanto juvenil. Foi aí que percebi que o que estava a viver era um luto. O luto pelo filho sonhado. Precisava de o fazer para encontrar felicidade junto do filho que me acompanhava.

Continuei a minha formação nesta nova área e fiz uma especialização em Aconselhamento no Luto. Comecei a trabalhar como conselheira do luto numa associação local. Estava no caminho. Finalmente tinha voltado a sentir paixão pelo que fazia. Não havia cansaço, não havia olhar para o relógio para ver se o tempo passava, não havia contagem decrescente para as férias. Foi quando me apercebi: não era uma profissão, era uma forma de estar.

 

Uma das tuas grandes apostas foi a abertura do CFeliz. Este centro já presta apoio a quantas pessoas?

A vontade de querer saber mais, de querer fazer melhor, foi o que me catapultou para o novo projeto: o Cfeliz. É, na verdade, um projeto pessoal, que pretende apoiar pessoas em luto, capacitar outros para prestarem apoio e consciencializar para a importância do agora na criação de doces memórias (#fazmelhorjá). Realiza serviços de sessões de aconselhamento em perdas pessoais e desenvolvimento pessoal, formação em luto e conflito, dinâmicas de grupo e “team building” (#TheMemoryMakers).
Tem sede em Aveiro, com delegações em Lisboa, Porto e Leiria. Conta com uma equipa de quatro profissionais: conselheiras do luto e psicóloga. Pelos nossos ouvidos e nos nossos corações já passaram centenas de histórias de amores perdidos e vidas (re)construídas.

 

 

Cristina Felizardo gosta de se superar a si própria

 

 

É possível ser feliz depois de uma grande perda ou luto?

Quero acreditar que sim! Senão, o que raio ando aqui a fazer?! Acredito que podemos ser sempre felizes. Mesmo quando perdemos, mesmo quando sofremos, mesmo quando doi como o raio. Acredito que é preciso doer. Explodes de alegria quando amas. Inundas em tristeza quando perdes esse amor. E algures entre o início de tudo e o fim de tudo, encontras sempre um agora para ser feliz. É no equilíbrio interior que encontras a Felicidade!

 

Algum caso que mais tenha marcado ao longo da tua vida profissional?

Sim! O “Tiago das Tecnologias”. O Tiago morreu antes de eu ter o privilégio de o conhecer pessoalmente. Digo pessoalmente, pois sinto que o conheço através do coração da sua mãe. Acompanhei a Ana em várias sessões de aconselhamento, as suficientes para criar um espaço no meu coração para o Tiago. Acho que é assim: dou de mim e trago um bocadinho comigo. Por isso não é uma profissão é uma forma de estar. A Ana e o Tiago irão ficar em mim para sempre pois foi com eles que testemunhei quão poderoso pode ser este apoio.

Houve uma noite em que ajudámos o Tiago a terminar uma tarefa que ficou incompleta em vida. Ele estava a escrever um episódio da “Mixórdia de Temáticas”. Era o fã número um do Ricardo Araújo Pereira. A doença foi mais forte e o Tiago partiu. A Mixórdia ficou por terminar. Convidámos o Ricardo a terminar a história do Tiago e no segundo domingo de dezembro de 2017, o Ricardo Araújo Pereira apresenta à Ana a Mixórdia escrita em conjunto com o Tiago das Tecnologias. Foi mágico. Naquela noite, o tempo criou um portal e pudemos ficar a conhecer o Tiago. Nós, os outros. Para a sua mãe, a sua família, foi mais um agora para uma nova doce memória.

 

Permite-me a ousadia, mas, volta e meia, nas redes sociais vemos a Cristina Felizardo a lançar-se em aventuras ou actividades mais radicais. Sentes necessidade de te superares a si própria?
Sim, é verdade! Eu acho que, no antigamente, só corria se tivesse alguém atrás de mim. Recentemente, fiz um “trail” quase sem querer, um desafio de momento. Bem! Simplesmente adorei! Agora, não quero outra coisa. Ainda não estou a participar em tantos quanto gostaria, mas neste momento são os suficientes para me fazerem sentir bem em mim e comigo. Qualquer dia convido-te a vires treinar comigo!

 

Ao partilhares aquilo que vais vivendo com o teu filho Rodrigo no blogue “Hora de Cer Feliz” sentes que estás a inspirar outras pessoas?

A nossa história, minha e do Rodrigo, foi a hora de mudança. Não seria quem sou hoje se ele não tivesse cruzado o meu caminho. Sinto que a nossa relação, muitas vezes, vai além dos limites mãe e filho. Não sei bem pôr por palavras o tipo de relacionamento que criamos. Pelo menos, em palavras que caibam numa frase. Daí ter criado o blogue “Hora de Cer Feliz”. Aqui, ao relatar um bocadinho das nossas vidas, peripécias, sonhos, desilusões, enfim, ao relatar aquilo que é a nossa vida, convido o mundo a olhar para fora do plano original. A vida aconteceu-me. Mas a verdade, é que pode acontecer a qualquer um de nós, a qualquer uma de vocês.

Saber que outras já passaram por isso pode dar esperança para dias melhores no futuro. Saber que a possibilidade de perda é real permite exercitar o músculo da empatia. Para mim, saber que a nossa história pode ajudar a tirar um pouco de sofrimento que seja a uma outra alma perdida, ajuda-me a transformar o que foi a minha dor, em puro valor humano. Não há tesouro maior do que restaurar a humanidade em mim, desta forma. Eu procurei a minha felicidade. E tu? Do que estás à espera para “Cer feliz”?

 

 

 

 

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