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Maria Inês Santos, uma voz que ouve mais do que fala

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Bastam dois dedos de conversa com Maria Inês Santos para perceber o porquê de ser sua a voz que dá corpo (e alma) ao Festival Rádio Faneca. Há algo na forma como fala que, depressa, denuncia o carinho que nutre pelas palavras e torna palpável o bichinho da rádio que nela habita.

 

Nascida em terra de capitães do bacalhau, Maria Inês cresceu a explorar as infinitas possibilidades dos pequenos rádios da altura. A elaborar comentários às músicas que gravava e a escrever notícias sobre caras recortadas de jornais. Fazia-o porque via fazer, é certo, mas, mais tarde, com a certeza de que pertencia ao universo das letras e de que a rádio era um mundo a explorar, começaram outros a vê-la fazer.

 

Estudou Comunicação Social em Coimbra, onde estagiou depois na Rádio Clube Português. Mais tarde, veio trabalhar para a cidade de Aveiro, também na RCP, e na Aveiro FM, rádio hoje extinta. Na altura, exercia a função de jornalista, recolhendo sons, escrevendo notícias e, numa fase mais avançada, fazendo locução. Não se imaginava, por isso, no papel de animadora quando, em 2015, ano em que tinha uma empresa de produção de conteúdos, foi convidada, primeiro, para ser a voz do Festival Rádio Faneca e, depois, para fazer as manhãs da Terra Nova. Descobriu, uma vez aceites os desafios, que gostava era daquilo – de fazer parte de uma rádio mais próxima das pessoas, que, muito menos informativa, faz companhia a quem está do outro lado.

 

Hoje, com 31 anos, Maria Inês é Produtora de Conteúdos e Gestora de Redes Sociais no 23 Milhas, um projeto de transformação cultural da Câmara Municipal de Ílhavo que nos diz ser responsável por ativar pontos há muito adormecidos na sua cidade-casa. Projeto responsável, entre muitas outras coisas, pelo Rádio Faneca, festival que, durante três dias por ano, se propõe a “transmitir alegria” a todos os que nele se aventuram. Maria Inês é, hoje, a voz-identidade deste festival que, curiosamente, celebra uma rádio à qual o seu pai, com um programa entre amigos, tinha já pertencido.

 

Uma rádio para ver, ouvir e tocar

 

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“A Rádio Faneca é diferente de todas as rádios que tive a oportunidade de conhecer”, conta-nos Maria Inês. “É uma rádio de proximidade”, com muita generosidade e verdade na sua essência. Durante três dias, entre passeios pelos becos, jantares com desconhecidos e bailaricos no jardim, as pessoas estão atentas. Escutam. Falam. Preocupam-se. À Maria Inês trazem-lhe comida enquanto garante as 36 horas de emissão do festival. Ela traz-lhes voz e, muito importante, um espaço de partilha, em que todos falam e todos ouvem. Histórias de mágoa, desamores, morte, mas também de superação e altruísmo. Como a de uma criança que, no ano passado, se aproximou  de Maria Inês com um disco pedido e uma história em tanto triste mas que, ali, deu lugar a algo bonito. Uma criança que teve a coragem de partilhar um passado difícil e a alegria presente de ter uma avó em tudo merecedora de uma canção. “Foi um momento que me marcou muito. Ela chegou com a história mais trágica que já lá passou e terminou, a brilhar, a entrevistar comigo a banda e a chamar a avó ao palco”, recorda a voz do festival, sobre um momento de um retorno mágico de ternura, feito em público, no jardim.

 

O Festival Rádio Faneca em junho

 

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“Há sempre espectáculos e lugares confortáveis para todos”, é com esta premissa de que a cultura é um bem comum – e necessário – que Maria Inês estende o convite para que, nos dias 7, 8 e 9 de junho, se juntem a ela num festival cuja rádio é “para ver, ouvir e tocar”. “Há a possibilidade de chegar e fazer discos pedidos”, relembra, e de escolher, entre um vasto leque de opções, o que fazer nesses dias.

 

No programa, constam atividades como os Jogos do Hélder, feitos de materiais simples como corda e madeira, as Histórias nos Becos, trabalhadas por Cláudia Gaiolas e que prometem celebrar as histórias de Portugueses inolvidáveis, e a Casa Aberta, projeto que convida os habitantes do centro de Ílhavo a abrirem as suas portas a amigos e desconhecidos para um convívio à volta da mesa. Este ano, é Marina Palácio a artista responsável por desafiar os anfitriões de cada casa a trabalhar a fauna e a flora dos seus ninhos e a expôr aos convidados o porquê de estes serem habitats raros.

 

Maria Inês sublinha que uma das novidades de 2019 são as Oficinas Bida Airada, dinamizadas pela ondamarela. Em vez de um concerto da Orquestra com o mesmo nome, que, durante cinco primaveras, juntou pessoas de todas as idades e backgrounds, há, este ano, três oficinas – a de voz, conduzida por Rita Campos, a instrumental, por António Serginho, e a de construção de Estranhofone.

 

Na música, Conan Osíris, Diabo na Cruz, Moonshiners, Bruno Pernadas e Joana Espadinha são alguns dos nomes que prometem trazer alguma irreverência por entre acordes e passos de dança.

 

Maria Inês confessa-se expectante em relação a três momentos em particular, ainda que, como diz, tudo é fonte de entusiasmo no programa deste ano. Entre nós e as palavras há metal fundente é um deles. A acontecer no último dia do festival, no Palco Rádio, este será o culminar do desafio feito a Guilherme Gomes, ator, encenador e diretor artístico do projeto Creta, de juntar, em palco, poetas lusitanos e poetas naturais de Ílhavo. “Vamos dar uma atenção à poesia ilhavense que nunca demos antes”, garante Maria Inês.

 

Outro momento curioso será o de Hugo van der Ding, também no Palco Rádio, no dia 8 de junho. Ele, que tem por hábito anunciar, na Antena 3, que “vamos todos morrer”, virá a Ílhavo com obituários em braços, com o “Olha, já lá está”.

 

No que diz respeito aos concertos, a voz do festival diz-se curiosa em relação à atuação de Conan Osíris, no dia 8. Convidado a participar no ano passado mas sem agenda, o artista Tiago Miranda chegará em 2019 ao Palco do Jardim Henriqueta Maia depois de um percurso na Eurovisão que fez dele uma personagem controversa. Dono de uma “atitude provocadora e libertadora”, será, sem dúvida, protagonista de um dos momentos de maior irreverência no Festival Rádio Faneca – por si só, já irreverente. “Estou curiosa para perceber como vai ser a reacção das pessoas”, confessa Maria Inês.

 

Um livro com gente dentro

 

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Fotografia: Centro Comunitário da Gafanha do Carmo

 

E porque a escrita sempre a moveu, há um livro prestes a ser lançado – em Junho – com a sua assinatura. Em 2018, Maria Inês Santos foi desafiada a escrever sobre o Centro Comunitário da Gafanha do Carmo, espaço que veio revolucionar a forma como imaginamos o apoio prestado a pessoas idosas. Com a missão de multiplicar a felicidade – dividindo-a e utlilizando como principal terapia o amor –, o Centro, que é hoje um sucesso nas redes sociais, é palco de histórias de vida de valor incalculável que merecem ser partilhadas. Maria Inês encarregou-se disso. O livro, que é parte ficcional, parte documentário, aborda temas comuns a todas as instituições – a morte, o suicídio, o amor, a homossexualidade, o abandono – e fá-lo ao contar histórias que, ainda que não todas reais, representam algo verdadeiro e comum a todos.

 

Uma revolução cultural, lenta mas necessária

 

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Hoje, Maria Inês, mais próxima da escrita do que da rádio no seu quotidiano, garante estar no sítio certo, como parte integrante de um projeto multidisciplinar e eclético que contribui para uma revolução cultural – lenta, como o são todas as revoluções – em Ílhavo.  “Eu sinto-me melhor a consumir cultura. Seria bom que as pessoas quisessem também experimentar”, diz.

 

O seu contributo para uma cultura não elitista mas de todos, dizemo-lo nós, é gigante. Resta-nos abraçar o desafio e tornarmo-nos ávidos consumidores de uma cultura feita à nossa medida, começando pelo Festival Rádio Faneca.

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