Onde fica Aveiro

Aveiro por um canudo

 

 

 

Ivar Corceiro *

 

 

Não sei muito bem onde fica Aveiro. É a única cidade deste planeta que vai mudando de sítio consoante os dias. Às vezes está-me no coração, outras apenas na minha memória. Também já a localizei em algumas lágrimas e sorrisos. Depende. Não sei bem de quê, mas depende.

 

Estou num pequeno pub inglês duma cidade ainda mais pequena. É estranho. Dou-me conta agora de que está cheio de gente e ainda mais cheio de música. Quando entrei aqui estava vazio, mas agora que um homem me tocou no ombro e me perguntou se estou bem, percebo que não dei pelo tempo a passar. Ainda nem sequer bebi a minha pint Guiness, que repousa pacientemente em cima do velho balcão de madeira escura. A mulher que ma serviu também me pergunta se estou bem. Que sim, respondo.

 

É óbvio que o meu corpo está aqui sentado há algum tempo, mas a minha mente não. Eles aperceberam-se disso. Tenho formigueiro na mão direita, aquela que segurava a minha cabeça como se eu fosse uma escultura do Rodin. Procuro localizar-me no espaço e no tempo como se acordasse agora dum sonho vivo. Já sei, estava preso na teia que o meu próprio passado teceu. É também óbvio que Aveiro desta vez me está no coração e na memória.

 

É difícil quando é assim. Dá-me para chorar sem lágrimas. Talvez seja do que mais gosto por estes lados. Não se fazem amigos para sempre, é verdade, mas fazem-se amigos instantâneos. Aqueles que nos tocam no ombro e nos perguntam “Are you okay, mate?”. Depois fala-se de futebol. Os ingleses são assim, amigos de desgaste rápido que se gastam tão depressa quanto as cervejas que bebemos.

 

E eu que estava em Aveiro sem lá estar, na terra onde as amizades duram sempre. “I am okay, thanks”, respondo. Passeava-me num bairro desenhado pela Susana Nobre ao som da voz do Rui Oliveira, sem destino certo. Por sorte ou azar tinha ido dar a um bar onde se cozinham bifanas com cerveja e se bebem minis pela garrafa. Estava feliz, apaixonado por uma mulher que havia de desaparecer num dia de chuva mas ainda não o tinha feito. Era a minha cidade.

 

Começa a conversa de futebol. A Taça das Nações de Portugal e a Liga dos Campeões do Liverpool. Sim, sim. Peço outra Guiness. Desde que visitei a fábrica em Dublin que sei que leva algum tempo a servir uma em condições. Primeiro enche-se dois terços do copo na vertical e depois deixa-se em repouso alguns minutos até a espuma nivelar. Finalmente tira-se o resto, sempre com o copo inclinado. A mulher segue o procedimento à risca e percebe que a estou a observar nesse desígnio importante que é servir uma cerveja a alguém que está mergulhado na saudade. O meu amigo instantâneo continua a falar de futebol.

 

E era a minha cidade, Aveiro, uma mulher bonita escondida pelo nevoeiro e pelo vento. Nunca lhe disse verdadeiramente o quanto a amo, mas quando me lembro dela assim, de cores desbotadas e tão serena, apetece-me abraçá-la e segredar-lhe que nunca me esqueci dela apesar de a ter deixado.

 

A minha segunda Guiness já está pronta. Dou o primeiro gole enquanto aceno com um cartão de débito para mostrar o método de pagamento que pretendo utilizar. De certa forma, volto à normalidade. As saudades são sempre como uma bomba. Explodem e depois acalmam lentamente. Não sei bem se algum dia vou voltar definitivamente à cidade que me viu nascer, mas sei que os meus amigos de sempre estão por lá, fique ela onde ficar.

 

 

* O Ivar Corceiro é um entre muitos aveirenses que vive fora do país. Escreve regularmente sobre esta experiência de ver “Aveiro por um canudo”

 

 

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