Dez livros para passar um excelente verão em Aveiro

 

Jorge Pires Ferreira

Jornalista do Correio do Vouga e gestor da livraria Ror de Livros

 

 

 

 

1

A Capital

Eça de Queirós

Europa-América e outras editoras

 

 

“Eça é sempre Eça” – seja lá o que isso quiser dizer. E se Eça é autor universal, fica sempre bem nas férias, seja na cidade ou nas serras, na aldeia ou na capital.

De um autor que cresceu em Aradas, na casa do avô (o Conselheiro Queirós), e passava temporadas no palheiro de José Estevão, na Costa Nova, sugerimos “A Capital”.

Romance publicado em 1925, mais de duas décadas após a morte de Eça de Queirós, roda à volta de Artur Corvelo, que sonha com a fama enquanto escritor, vai para Lisboa e deixa que os amigos lhe desbaratem uma fortuna. Sempre escreve dois livros, mas a fama não chega… E acaba como farmacêutico em Oliveira de Azeméis, gozando e ficcionando as aventuras de Lisboa.

O livro começa na estação de Ovar. O jovem Artur espera o comboio que vem do Porto, para cumprimentar o seu padrinho, e já sonha com a “civilização superior” que a capital representa.

 

 

2

Histórias da Terra e do Mar

Sophia de Mello Breyner Andresen

Texto Editora

 

 

Estamos no ano de Sophia. A poetisa (sim, ainda se escreve “a poetisa”, apesar do cada vez mais comum “a poeta”) morreu há 15 anos (1 de julho de 2004) e nasceu há cem (6 de novembro de 1919). Pela efeméride e porque a temática do mar está muito presente na sua obra, Aveiro escolheu “Sophia e o mar” para tema geral da recente Feira do Livro.

Dela escolhemos “Histórias da Terra e do Mar”, um livro de cinco contos. Dois deles, “A Casa do Mar” e “Saga”, são de temática marítima. “Saga”, diz-se, é inspirado nos antepassados nórdicos da autora de “A Menina do Mar”. As cinco narrativas foram pensadas para os mais novos e fazem parte do Plano Nacional de Leitura. Porém, levando todos eles a pensar no sentido da existência, na procura da verdadeira identidade, qualquer idade pode ser interpelada por estes contos.

 

 

3

Chegámos à Lua!

John Noble Wilford

Livros do Brasil

 

Chegámos à Lua há 50 anos e por isso muito se tem falado nestes dias do “pequeno passo para o homem e salto gigantesco para a humanidade”. Mas o que faz um livro sobre a Lua num conjunto de livros para férias em Aveiro? Bom, a Lua vê-se de Aveiro. E, refletida nas águas calmas da Ria, dá um espetáculo admirável nestas noites quentes. Mas há um outro motivo bem mais concreto. A bandeira que Armstrong cravou na dura superfície lunar – por baixo da camada de pó, que parecia “pó de grafite”, como se lê neste livro, o solo lunar é duro – foi feita pela costureira Maria Isilda Ribeiro, natural de Sosa, concelho de Vagos, então emigrante nos EUA. Este livro aborda sumariamente a questão da bandeira, mas não refere a sua costureira, tal como a NASA nunca confirmou o nome da costureira. Mas se mais ninguém reivindica a autoria da bandeira para além da empresa onde trabalhava a costureira de Sosa, podemos continuar a pensar que também a nossa região contribuiu para o momento histórico de 20 de julho de 1969.

 

 

4

Fernão de Oliveira, humanista notável

João Gonçalves Gaspar

Tempo Novo Editora

 

 

A vida de Fernão de Oliveira (1507-1582) dava um grande romance de aventuras. Há vários livros de ensaios que estudam a sua vida e obra da figura aveirense. Parece dado como certo que nasceu circunstancialmente em Couto do Mosteiro, Santa Comba Dão, mas as origens eram de Aveiro e ao longo da vida apresenta-se como “de Aveiro”. Haja alguém que tente a ficção, depois do grosso volume de estudos publicado pela Universidade de Aveiro (“Fernando Oliveira, um humanista genial” coordenado por Carlos Morais, em 2009) e deste livro de João Gonçalves Gaspar, que é padre e membro da Academia Portuguesa da História.

Vejamos os motivos para ficção, segundo o resumo de Henriques Lopes de Mendonça num estudo de 1898: “Filólogo como João de Barros, aventureiro como Fernando Mendes Pinto, perseguido pela Inquisição como Damião de Góis, navegador como D. João de Castro, porventura o único dos escritores de arquitetura naval do seu tempo e do seu país, ele tem, além disso, para recomendá-lo à consideração da posteridade, uma vida tão cortada de peripécias, que constitui um verdadeiro romance. Foi clérigo e foi soldado, foi marinheiro e diploma, esteve prisioneiro em mãos de ingleses e em mãos de turcos, gemeu nos cárceres do Santo Ofício, teve relações com homens eminentes do seu século…”

“Fernando de Oliveira, humanista notável” está amarrado a documentos, como é próprio dos bons livros de história. Mas deixa muitas pontas e assuntos para a imaginação vaguear na época das grandes viagens marítimas.

 

 

5

Uma aventura na terra e no mar

Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada

Caminho

 

 

A coleção “Uma aventura” vai no n.º 61. É um sucesso sem precedentes nas letras portuguesas infantojuvenis. Já há uma segunda geração a iniciar-se na leitura extraescolar com os livros de Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada. E há muitos motivos para tal. Há dias, numa livraria, uma mãe pedia livros para o seu filho pré-adolescente, que “não gosta nada de ler”. Puseram diante do jovem vários livros “Uma aventura” e ele acabou por escolher “Uma aventura no Algarve”. Tinha regressado há pouco das férias no sul do país. Dentro de dias saber-se-á se nasceu um novo leitor.

Como há aventuras em quase todas as regiões do país e em diversas situações (na praia, no teatro, na biblioteca, na noite das bruxas…), há imensos pretextos para prender a atenção dos jovens leitores. Ora, também há “uma aventura” na região de Aveiro: “Uma aventura… na ria e no mar”, número 11 da coleção. Numa volta à ria em bicicleta, participam muitas escolas secundárias, incluindo as de Esgueira e da Gafanha da Nazaré. Mas o inesperado acontece quando uns protagonistas embarcam para o alto mar.

 

6

Aveiro, apontamentos históricos

José Reinaldo Rangel de Quadros Oudinot

Câmara Municipal de Aveiro

 

 

Em 2009, quando se assinalavam os 250 anos da criação da cidade de Aveiro, fez-se uma nova edição de “Aveiro, apontamentos históricos”. É uma espécie de Bíblia do Aveiro antigo – até pelo formato: mais de 600 páginas de letra miudinha.

José Reinaldo Rangel de Quadros Oudinot (1842-1918) será o maior aveirógrafo, pelo que quase não é possível falar do Aveiro antigo e/ou desaparecido, das suas ruas, igrejas, personalidades, etc. sem beber “no Rangel de Quadros”.

Um dos primeiros apontamentos fala das antigas muralhas de Aveio (assunto que é abordado com mais pormenor no meio do livro). Elas foram demolidas em 1806 sem que “um curioso tirasse um único apontamento das inscrições”. A pedra da muralha foi para a construção da nova barra. Estava a ser aberta sob a direção do brigadeiro Oudinot – avô do autor.

 

 

7

Trabalhos e Paixões de Benito Prada

Fernando Assis Pacheco

Círculo de Leitores

 

 

Fernando Assis Pacheco (1937-1995), jornalista em maior grau, e poeta e romancista em doses mais pequenas, mas de grande qualidade, nasceu e cresceu em Coimbra, trabalhou e morreu em Lisboa. Mas passava férias em Pardilhó, Estarreja, numa casa de família (era casado com Maria Ruella Ramos), onde gostava especialmente de escrever.

“Trabalhos e Paixões de Benito Prada”, se não gerado, decerto escrito em Pardilhó, romanceia a vida de um galego que vem para Portugal no tempo da I República: o seu avô.

É dos romances relevantes das últimas décadas que passa maioritariamente na região de Aveiro. Nele são referidas terras como Requeixo, Oliveira do Bairro, Buçaco… Fiquemos com o início do capítulo 13: “No ano em que mataram o rei de Portugal andava Benito Prada Dorribo entre Aveiro e Anadia vendendo panos com uma carroça. Era alvo, louro e de olhos azuis e namoriscava duas raparigas, uma em Sarrazola e a outra em Avelãs do Caminho, que era o que elas mais queriam, mesmo com um galego”.

 

 

8

Vouga arriba… ou o drama de um povo

Daniel Rodrigues

Edição do autor

 

 

Com capa de Zé Penicheiro, “Vouga arriba…” é um livro raro. Raro no seu estilo de livro-reportagem e raro por ser difícil de encontrar. A inclusão nesta lista tem, no entanto, três objetivos: notar que o comboio é dos melhores meios de locomoção em férias; sugerir o passeio na parte da linha do Vouga ainda ativa que a CP proporciona todos os sábados de verão, entre Aveiro (saída às 13h30, chegada às 19h00) e Macinhata do Vouga, onde há um museu ferroviário; e lembrar o interior do distrito Aveiro, que, entre praias fluviais, passeios de bicicleta na antiga linha do Vouga e gastronomia, também proporciona boas férias.

Este livro foi publicado em 1974, já depois do 25 de Abril, com entrevistas de “elementos ligados ao regime fascista” e testemunhos de populares de Albergaria, Águeda, Sever do Vouga… O pretexto é o encerramento de Linha do Vouga entre Sernada do Vouga e Viseu, levado a cabo no dia 26 de agosto de 1972. Os 114 quilómetros entre Aveiro e Viseu demoravam cerca de 5 horas de comboio. Já então havia quem sonhasse com uma autoestrada entre Aveiro e Viseu. Faltavam 32 anos para a concretização do sonho.

 

 

9

Singular vida de Homem Cristo Filho

Maria Alice Oliveira Lusitano Gonçalves e António Augusto Gonçalves

Edição dos autores

 

 

“Singular vida de Homem Cristo Filho” parece um panegírico, um exagerado louvor, em frases como estas: “Jamais houve em Portugal um indivíduo que, sem ter sido investido em funções públicas, fosse tão discutido e apreciado no estrangeiro como Homem Cristo Filho”; “Ele é, sem dúvida, o português mais aventuroso e mais brilhante, cheio de audácia e de inteligência, do século XX”.

O que fez, afinal, o Homem Cristo que era filho do outro Homem Cristo que dá nome a uma escola secundária na cidade? “Jamais um português exerceu o seu poder de sedução pessoa que meu filho exercia em toda a parte”, escreveu o pai depois da morte do filho. Francisco Manuel Homem Cristo Filho (1892-1928) nasceu em Lisboa, viveu em Paris e morreu em Macchia della Madonna, em Itália, quando se dirigia de carro para Roma. Esperava-o Mussolini, que há seis anos era primeiro-ministro de Itália, para “conferenciarem”. Homem Cristo Filho era um fascista convicto. Escrevia em jornais, dava conferências, agitava multidões.

Uma curiosidade: na viagem fatídica, Homem Cristo Filho ia com um motorista (que não conduzia no momento) e com o seu filho Guy, que foi cuspido quando o carro caiu pela ribanceira de 15 a 20 metros e sobreviveu. Guy Homem Cristo é avô do Draft Punk Guy-Manuel de Homem-Christo. “Get lucky” pode bem fazer parte da banda sonora destas férias.

 

 

10

Aveiro, Rota do Bairro da Beira-Mar

Suzana Caldeira (textos) e Suzana Nobre (ilustrações)

Edição das autoras

 

 

 

Para terminar estas sugestões, um livro sobre Aveiro, sobre a parte mais típica de Aveiro, o Bairro da Beira-Mar. O livro já tem versões em papel em francês, espanhol e inglês (nesta última língua, também está disponível em e-book).

Ideal para descobrir a cidade a pé, mesmo para quem nela mora. Há capelas, esquinas, ruas, azulejos, árvores, fachadas, brasões em que raramente reparamos. As palavras de Suzana Caldeira e as aguarelas de Suzana Nobre fazem-nos olhar para Aveiro com novidade – o que é o melhor que um guia pode oferecer.

Sendo o primeiro número da coleção “Descobrir Aveiro”, só desejo que nas próximas sugestões de leituras de verão haja outros bairros para percorrer com livros desta série.

 

 

 

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