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Estela Ribeiro de Melo: a artista que dá forma às criações da Ovelha Mãe

Artes Ler mais tarde

O que pode ter a cidade de Aveiro a ver com ovelhas e peças artesanais em lã? Tudo, por mais incrível que possa parecer. Foi no município aveirense que Estela Ribeira de Melo nasceu (há 58 anos) e cresceu. É também neste concelho, mais concretamente na vila de Eixo, que dá largas à sua criatividade usando como principal matéria-prima a lã. Tapetes, candeeiros, casacos, echarpes, mochilas, são algumas das peças que vai lançando com a etiqueta Ovelha Mãe. Uma marca que tem tudo a ver consigo: é mãe e adora ovelhas. Não é difícil ver as suas criações expostas em certames têxteis internacionais. Ainda recentemente teve uma criação sua em destaque na “TextilFest”, festival de criação têxtil contemporânea em Igualada, Barcelona.

A Aveiro Mag foi conhecer o seu percurso e as suas criações no atelier onde tudo acontece. Um espaço onde a criatividade e o amor à arte encontram espaço para florescer, amparadas pela tranquilidade e a pacatez de Eixo.

 

A Estela é mesmo de Aveiro?

Sou daqui de Eixo mesmo. Vivi em Aveiro até ir para a universidade. Fui para Coimbra e vinha sempre ao fim de semana. Ou quase sempre.

 

Portanto, estudou em Coimbra. O que é que estudou?

Engenharia Civil.

 

E exerce?

Não. Fiquei a seis cadeiras e três filhos de acabar o curso, sendo que já entrei no curso com uma filha.

 

E já pensou ir terminar?

Engenharia Civil, não. Já pensei em ir fazer design. Ainda andei a ter explicações e tudo mais para fazer o exame de Português. Porque, claro que o Português mudou, não é? Mas meteu-se a Covid e depois não fui.

Era bom para ter método, que é uma coisa que eu não tenho. E para concursos do Estado. Fica sempre bem ter uma licenciatura.

 

E como é que surge esta a sua ligação às ovelhas?

O meu avô teve ovelhas, mas as recordações que eu tenho de pequenina, com as ovelhas, é só das fotografias. Mas já da tecelagem, lembro-me bem da primeira vez que vi um tear. Fui com o meu pai levar trapos para fazer tapetes e olhei para o tear, que era enorme. Ou então era eu que eu pequenina. E pronto, achei piada àquilo. E a coisa foi ficando.

No liceu, aqui em Aveiro, ainda enfiei um tear. Tudinho, tudinho. Chegou ao final do ano e não cheguei a trabalhar. A professora foi de férias, ia-se reformar e não teve tempo para me deixar lá ir. E aquilo ficou ali também atravessado. E quando eu já tinha a minha quarta filha, e já estava em idade de ela ir para a creche e eu começar a pensar na minha pré-reforma, vi um anúncio num jornal de Coimbra de um curso de artesão têxtil. E foi aí que eu comecei a sério.

 

E o que é que começou a fazer?

Aqueles tapetes de trapo. Depois muito algodão e muito linho, a fazer toalhinhas, sacos de guardanapos. Isto foi há 25 anos. E depois houve um dia que enfiámos um tear com lã e eu decidi que era a lã que queria trabalhar. A lã é elástica. A lã tem outro toque.

Na altura, quando acabei a formação, ainda comecei a trabalhar com fibras. Depois as fibras foram todas para o lado. Por norma, mesmo quando uso fibras, tenho que ter uma grande percentagem de lã, por norma superior a 60, 70%. E mesmo aí, é para tirar proveito do facto de não ter o mesmo encolhimento que tem a lã.

 

Portanto, começou a ligar-se cada vez mais à lã.

Sim. Depois aprendi a fiar, porque não havia os fios que eu queria. Também não foi fácil. Estamos a falar de há uns bons anos atrás. Teria que ir para uma serrinha qualquer, convencer alguma senhora idosa que eu era boa pessoa e que valia a pena ensinar-me. De repente, o meu marido tem que ir a Londres, em trabalho, num fim de semana, e eu procurei e descobri que ia haver lá um curso de fiação durante três dias.

 

Em Londres?

Aprendi a fiar em inglês (risos) O que é certo é que fiei de tudo. Era uma loja que tinha toda a espécie de fibras. Desde seda a crina de cavalo, passando por todas as fibras de plástico que estavam no início.

 

A marca Ovelha Mãe nasce quando?

Nasce à mesa, aqui em casa. As grandes discussões eram sempre à mesa (risos). Deve ter uns doze anos.

 

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Como é que vai tendo as ideias para criar as peças?

Quando eu durmo bem é à noite. Depois, é por todo lado. De repente, há uma imagem, há uma coisa, há um cheiro, há um não sei o quê, que faz ali tudo ligar.

 

O que é que gosta mais de fazer? Mantas, echarpes?

Tem fases. Tal como nas cores. Há alturas em que é tudo branco, ou claro, e de repente é tudo arco-íris. E há alturas em que só me apetece estar no tear. Há alturas em que só me apetece fazer filtro. Há alturas em que volto para a máquina da costura. Acho que não me consigo focar.

 

O português reconhece este trabalho artesanal na hora de comprar?

Dá-lhe muito valor. As pessoas entendem que o que eu faço há pouca gente a fazer. Fazer o processo todo até ao produto final. Mas, depois, há ali uma grande falta de... muitas vezes nem sequer é de dinheiro, é de cultura mesmo.

Se eu usasse umas fibras manhosas, se eu usasse umas fibras baratas, se calhar podia baixar o preço. Mas não. Até porque essas fibras depois não vão ter a mesma qualidade. Eu tenho muitas peças que fiz quando comecei há 25 anos e que continuam em pleno.

 

Para fazer uma echarpe, por exemplo, leva quantas horas?

Então é assim. Quando eu monto o tear monto para fazer três peças. Que depois nunca são iguais. Porque depois vou mudando ou a pedalagem ou as cores ou qualquer coisa. Para montar o tear normalmente é à volta de um dia.

 

Diz-se que os estrangeiros reconhecem mais o preço e o valor destas coisas artesanais...

Sim. Os japoneses adoram isto. Os nórdicos também. E não têm problemas se lã pica, se não pica, porque para eles a lã nunca pica. E claro que os nossos preços para eles são ótimos. E têm outra maneira de ver de ver a tecelagem, o feltro, tudo mais.

 

 

 

 

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