Fechar os olhos para ver melhor

Aveiro por um canudo

 

 

 

 

Ivar Corceiro*

 

 

É a terceira ou quarta vez que passo por um grupo de crianças que jogam futebol num campo improvisado num parque de Stoke-On-Trent e sou chamado a intervir. A bola sobra para mim e devolvo-a com um pontapé calculado ao milímetro.

 

Essas crianças não sabem, mas nesse preciso momento fecho os olhos e volto a ser o miúdo que disputava grandes finais em Aveiro quase todos os fins de tarde, depois da escola, com balizas feitas de camisolas amontoadas ou as mochilas cheias de livros e cadernos.

 

E então a bola sobrou para mim, parei-a com a ponta do meu sapato e rematei em arco à procura duma desmarção para o golo. Uma multidão aplaudiu entusiasmada. Quando voltei a mim tive que abrir os olhos, um rapaz agradeceu-me num inglês apressado apesar da bola ter, na realidade, ficado ainda bem distante deles. Pedi desculpa e continuei a minha caminhada para me sentar um pouco mais à frente, num banco de jardim amparado pela sombra duma árvore.

 

Fechar os olhos é, assim, um processo para ver melhor. De certa forma, acredito até que todos o fazemos de vez em quando. É como se o facto de estarmos a visualizar alguma coisa nos impedisse de procurar imagens do nosso próprio passado, aquelas que estão dentro de nós guardadas numa gaveta qualquer das muitas que vamos criando durante a vida. Percebo então que esse nosso próprio passado se encontra melhor no escuro do que na claridade.

 

É na transparência dessa escuridão que vejo, por exemplo, as primeiras grandes viagens que fiz na minha infância, coisa para mais de um quilómetro e que me levavam de um apartamento escondido no Bairro do Liceu ao Parque do Coreto, onde o meu avô passava as tardes a fazer cócegas ao planeta com a ponta duma bengala esguia e a falar com o silêncio das árvores.

 

O meu avô era homem de poucas falas, de facto, e mesmo aos outros idosos que costumavam passar por ali, ainda que eu tentasse às vezes estabelecer uma comunicação mais profícua, pouco mais dizia do que um obrigatório “boa tarde” sem parar, matando as conversas à nascença  Eu aproveitava essa liberdade que vinha do seu silêncio para observar os peixes coloridos do lago, brincar com carrinhos que costumava trazer sempre nos bolsos das calças, andar de baloiço ou dar uns pontapés numa bola que perdia o ar nos primeiros cinco minutos de actividade.

 

Percebo agora que, sem o saber, foi nesse tempo que aprendi o que é a solidão, ou seja, muito mais do que estar só é fazer essa viagem por nós próprios, uma viagem que só podemos fazer sozinhos e, quer queiramos quer não, de olhos fechados. O que temos para dizer acaba por ser o mesmo que temos para guardar e o silêncio das árvores torna-se o nosso maior segredo.

 

Estou sozinho e o vento sopra-me qualquer coisa imperceptível ao ouvido. A alguns metros de distância os miúdos continuam a jogar e há um golo. Metade deles festeja e a outra metade discute. Eu entendo. É sempre assim nas grandes finais depois de um dia de escola. Dá-me para sorrir.

 

Ali não muito longe um homem idoso passeia com uma criança que pela aparência é a neta, uma miúda  sorridente com uma flor na cabeça e outra na mão. Ela cumprimenta-me e eu retribuo-o com um “Hi! Are you okay?”. O avô dá-lhe a mão e apaga a conversa com um monossílabo qualquer.

 

Vou com quase cinquenta anos de idade. Podia dizer agora que as viagens que faço hoje por diversos países da Europa são tão grandes quanto essas que fazia com o meu avô, mas não o digo. Guardo tudo para mim, até porque o vento sabe-o.

 

 

 

* O Ivar Corceiro é um entre muitos aveirenses que vive fora do país. Escreve regularmente sobre esta experiência de ver “Aveiro por um canudo”

 

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