vitor silva

Vítor Silva, um engenheiro civil com um pé em Aveiro e outro no mundo

vitor silva

 

 

 

Não sabia, até se deparar com um livro e o anseio de um colega na escola, que Engenharia Civil era o curso que queria seguir. Hoje, Vítor Silva, com 32 anos, tem um Doutoramento na área e é Coordenador da Secção de Risco Sísmico da Fundação Global Earthquake Model (GEM), uma parceira público-privada sem fins lucrativos criada para o desenvolvimento de recursos científicos de avaliação de risco sísmico em todo o planeta.

 

Natural da Gafanha da Encarnação, o investigador, que participou em vários projetos internacionais e trabalhou com instituições de relevo na área de Engenharia Sísmica, como a Eucentre Foundation, vive agora em Aveiro, por entre visitas periódicas a Itália e viagens em trabalho a países de todo o mundo.

 

“Sempre com um pé em Aveiro e um pé no resto do mundo”, é como Vítor diz estar desde que iniciou o seu percurso académico na Universidade poisada à beira-ria.

 

Um percurso feito de felizes acasos

 

Foi na Escola Secundária da Gafanha da Nazaré que, numa visita à psicóloga – para testar aptidões e conversar sobre sonhos –, Vítor Silva descobriu o curso que o iria levar a percorrer o mundo em busca de reduzir o risco sísmico. “O interesse por Engenharia Civil surgiu quase por acaso”, conta, recordando ter entrado para o gabinete da psicóloga com um colega que queria seguir o curso e tinha levado, por isso, um livro da área. Vítor folheou-o com curiosidade e depressa decidiu. “Quando a psicóloga me perguntou o que é que gostava de ser, eu respondi Engenheiro Civil”.

 

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Assim, com a certeza do que concluíra entre as paredes desse gabinete, Vítor ingressou, em 2004, no curso de Engenharia Civil na Universidade de Aveiro, com a média de entrada mais alta entre os alunos, e não tardou a fazer-se a outros voos. Ainda na licenciatura, abraçou os livros na Califórnia, onde diz ter sido surpreendido por um sismo durante um exame de Hidráulica. “O edifício abanou imenso e eu achei curioso como é que a estrutura conseguiu resistir”. Foi o suficiente para que, movido já pelo bichinho da investigação, começasse a ler por si sobre sismos e decidisse seguir o ramo ligado à Engenharia Sísmica. Completou, em 2009, um Mestrado, parte em Aveiro, parte em Génova, e em 2013 um Doutoramento Europeu em Engenharia Civil, com a tese Desenvolvimento de ferramentas e modelos para a avaliação do risco sísmico: Aplicação a Portugal. “Na verdade, foi outro acaso”, reflete Vítor. Houve, por acaso, um sismo na Califórnia, mas quem sabe se, tendo havido uma tempestade, o jovem investigador não teria optado por outra área.

 

O risco sísmico no mundo e em Portugal

 

Vítor Silva pertence à equipa da Global Earthquake Model desde 2009, ano em que a fundação nasceu com sede em Itália. “Quando temos um fenómeno natural capaz de afetar dez ou quinze países ao mesmo tempo, o que faz sentido não é termos apenas um país a estudar os seus efeitos, mas sim uma cooperação entre países para estudar e mitigar o risco sísmico”, diz Vítor, esclarecendo o porquê de ser tão importante a parceria que une vários países, como Itália, Japão e Reino Unido, e empresas privadas, como a Zurich e a FM Global.

 

Enquanto Coordenador da Secção de Risco Sísmico da GEM, Vítor Silva gere uma equipa de 12 pessoas a partir de Aveiro, tendo visitas periódicas a Pavia e várias viagens por ano a países dispersos pelo globo para reunir com colaboradores da fundação.

 

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Croácia, Alemanha, Grécia, Escócia, Sérvia, Eslovénia, China, Índia, Japão, Quirguistão, Malásia, Canadá, Costa Rica, República Dominicana, México, Estados Unidos, Chile, Colômbia, Peru, Etiópia. São alguns dos países onde Vítor desenvolveu atividades diversas relacionadas com risco sísmico, como eventos de consciencialização, cálculo da perigosidade sísmica, revisão das regulamentações existentes nos países, análise do parque edificado, identificação de medidas de reforço e capacity-building, envolvendo não só a população em geral mas também membros da proteção civil, membros dos laboratórios nacionais, engenheiros, professores universitários e instituições como a ONU e o Banco Mundial.

 

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São viagens que chocam, por vezes, conta Vítor, como é o caso do Nepal, que visitou antes e depois do sismo de 2015. “Passados quatro ou cinco anos, os templos continuam destruídos”, conta, explicando que está a ser elaborada uma proposta, para a National Reconstruction Authority do país, que explora o tipo de construção a evitar, qual o que deve ser adotado e o tipo de reforço a ser usado.

 

Ou como o caso da Indonésia, que provocou algum espanto positivo no investigador. “É uma lição para os países desenvolvidos. Tinham tudo, desde ferramentas a apps”, diz, mostrando-se confiante de que poderá ser agora a Indonésia a partilhar recursos com os países em seu redor.

 

Em Portugal, infelizmente, a trajetória não é particularmente positiva. “Repetir cenários com as características de sismos do passado” é algo em que Vítor tem vindo a trabalhar, de forma a entender se há uma diminuição ou um aumento do risco sísmico. “Para um sismo com as características do de 1755, continuamos à espera de fatalidades acima dos 10.000” e perdas económicas que rondam os 25% do PIB, explica, valores que diz não serem justificáveis para um país europeu.

 

Um pé em Aveiro, outro no Mundo

 

Ainda que com um pé noutras geografias, Vítor vive agora com a família na cidade de marnotos e salineiras, não muito longe da Universidade onde ampliou sonhos e saberes.  “Diziam-me, muitas vezes, que só sentimos falta da água quando a fonte seca e, na altura, não percebia.” Porém, anos mais tarde, diz, a frase começou a fazer sentido. “Em Aveiro, temos uma combinação única de tudo – estamos junto ao mar, chegamos facilmente às montanhas, temos um clima ótimo e, ao mesmo tempo, existem excelentes condições para fazer investigação”, aponta. “Há uma Universidade jovem, virada para a investigação e para a inovação, ligada a inúmeros projetos internacionais, com bons laboratórios e profissionais”, diz, acrescentando que a relação próxima entre professores e alunos dentro da UA e a existência de vários protocolos que permitem estudar no estrangeiro são os principais fatores que o fizeram chegar onde está hoje. Esta carreira que se estende de Aveiro ao mundo inteiro, feito não só de números e conhecimento técnico, mas de empatia e momentos de partilha.

 

“Quando entrei no gabinete da psicóloga, provavelmente não sabia o que era fazer um doutoramento. Nunca tinha pensado seguir investigação ou dar aulas”, mas tudo aconteceu de forma orgânica, por vezes com o empurrão de felizes acasos, sempre com muito trabalho e, garante Vítor, “também muita sorte”.

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