Partir para Ficar: relatos de uma viagem pela estrada fora até Timor-Leste

 

 

 

Joana Nogueira e Tiago Pinho, naturais de Sever do Vouga, partiram para Budapeste em maio de 2018 com a vontade de explorar e desmistificar preconceitos aninhada entre escassas peças de roupa e uma tenda. Percorreram vários quilómetros por terra, da Hungria a Timor-Leste, passando por vilas e aldeias improváveis de países como a Ucrânia, a Geórgia, o Irão, o Paquistão, a Índia, o Myanmar, Singapura e a Indonésia. No total, colocaram mãos, pés, braços e, sobretudo, o espírito de viajantes em 21 países (ela em 20), movendo-se à boleia com pessoas que iam acrescentando autenticidade à expedição. Partiram após um ano e meio de terem decidido querer fazê-lo, com a certeza de que iriam ao encontro de histórias ainda por contar e de que fariam parte do itinerário lugares onde poderiam ter “um contacto mais estreito com as pessoas”.

 

Joana, com 31 anos, enfermeira, conseguiu uma licença sem vencimento enquanto Tiago, com 30, que trabalhava na área de gestão, teve de se despedir para se fazer à estrada. No ninho, a ideia gerou alguma agitação. “Porque é que precisam de um ano para viajar? Porque é que não vão de avião? Porque é que tem de ser com uma mochila às costas?”, foram algumas das questões que assolaram as pessoas em seu redor. Afinal, o que planeavam fazer fugia ao conceito de viagem de muitos.

 

Hoje, nas redes sociais Partir para Ficar, são várias as pessoas que se revelam inspiradas pela viagem que nem sempre foi retratada como “bonita ou penteada”. “Nós mostramos a viagem como ela é”, contam.

 

Assim, no dia 29 de maio, com duas mochilas e uma tenda, partiram para Budapeste rumo aos “melhores meses” das suas vidas, em que confirmaram que a felicidade está nas pequenas coisas – em comer no chão, num convite para mais um chá, no olá vindo de um desconhecido, em dormir ao relento numa qualquer aldeia remota.

 

O começo de tudo

 

Estudaram na mesma escola, mas foi já depois de terminada a faculdade – ela em Oliveira de Azeméis, ele em Coimbra – que se foram aproximando em encontros em Sever do Vouga. O bichinho da viagem, comum aos dois, depressa se fez sentir e não tardaram a viajar juntos. Começaram por pequenas fugas de fim de semana, partindo depois para aventuras mais longas e preenchidas.

 

Em 2014, foram, em carris, de Milão a Istambul, colecionando testemunhos de como se vivia o Mundial de Futebol nos 13 países que percorreram. Fizeram uma roadtrip de Lisboa a Itália em três semanas e juntos exploraram Marrocos de cima a baixo. Sozinho, Tiago percorreu vários países africanos durante três meses. Hoje, explicam que todas estas viagens acabaram por ser um processo que lhes permitiu perceber como é que gostam de viajar – “com uma ligação mais próxima à cultura local” – e que o conseguem fazer de forma económica. Pouco a pouco, foi crescendo a ideia de partir por um período mais longo – 10 meses para Joana, 11 meses para Tiago –, sempre por terra, com cartazes e braços estendidos em jeito de pedir boleia, e com uma tenda que garantia a “liberdade total”.

 

Partir para desmistificar

 

Foi no dia 29 de maio de 2018 que apanharam o avião que seria o único até à viagem de regresso a casa. Partiram para ficar com um “interesse genuíno” em conhecer os países e os seus locais mais remotos e improváveis, mas partiram também para desmistificar. “Se fores a guiar-te pelo que as pessoas dizem ou o que lês, não sais de casa”, diz Tiago. São muitos os “preconceitos infundados” sobre países como o Irão, o Paquistão e o Bangladesh, lugares que visitaram e onde garantem ter encontrado uma bondade genuína, que até estranharam. “As pessoas viam-nos na rua e davam-nos fruta, convidavam-nos para tomar chá”.

 

Percorreram as ruas de Chernobyl, acompanhados por um guia – já que não poderia ser de outra forma –, estiveram na Transnístria, território situado na Moldávia que declarou unilateralmente a sua independência em 1990, e foram escoltados 24 horas por dia na província do Bolchistão, conhecida pelo tráfico de armas e drogas. “Foi um processo tranquilo”, garantem, acrescentando que “nestes países menos turísticos, há um interesse genuíno. As pessoas querem muito conhecer a nossa cultura e é muito fácil chegar à deles. Fizemos muitas amizades por isso. As pessoas estavam extremamente recetivas e não tinham segundas intenções”.

 

 

No Irão, o país que mais vezes revisitam em memória, ficaram um mês, tendo passado 29 das 30 noites em casas de famílias que os acolhiam como parte de si mesmas. Joana recorda-se de um senhor em particular, que, dando-lhes boleia, os levou a conhecer a sua horta e a dormir em sua casa. “Acordámos e ele estava de fato. Disse-nos: ‘Eu estava a trabalhar, mas pedi ao meu chefe um dia de férias para estar convosco’”. No Paquistão, houve um outro homem que fez 300 quilómetros para os levar a Islamabad e uma família, com a qual estavam a fazer couchsurfing, que sugeriu que a acompanhassem a um casamento. Com roupas típicas emprestadas, aceitaram e, no final, garante Tiago, deram até “um pezinho de dança”.

 

 

Relativizar, por entre “sovas de humildade”

 

Dizem que encontraram “uma porta aberta” em sítios rotulados perigosos e que, na verdade, são feitos de pessoas boas. Pessoas que dão sem esperar algo em troca. Dormiram em casas sem móveis, portas ou janelas, em chão de cimento, com famílias que acreditavam verdadeiramente que uma boa ação não deve ser paga com dinheiro, mas, de alguma forma, retribuída com momentos de partilha. Joana e Tiago (re)aprenderam a relativizar. “Aprendemos a ver as coisas de forma diferente”, dizem.

 

Já depois de se ter despedido de Joana, cuja licença sem vencimento exigia o regresso, Tiago ficou retido quando tentava sair da Indonésia rumo a Timor-Leste. Foi preso por se recusar a pagar o que pensava ser um valor não real pelos dias de overstay. Passou três noites na prisão – as duas primeiras porque não conseguia levantar dinheiro para pagar a multa e a última porque, estando já encerrada a fronteira quando tudo estava tratado para se mover livremente, pediu para ficar, o que gerou algumas gargalhadas entre os guardas.

 

Em Timor-Leste, teve de caminhar durante dez dias, com solas desfeitas, por aldeias onde não havia sequer estradas. No caminho, passou por um miúdo a jogar à bola. Pode ler-se na página da viagem: “É cego de um olho, não tem sapatos, e mesmo assim tem o sorriso mais feliz que vi nesta viagem: fds Tiago, como assim, tiveste sempre o que calçar, abres a torneira e sai água quente, abres o armário e tens sempre comida, pudeste estudar, viajas há meses, e estás-te a queixar porque, coitadinho, tens que caminhar. E um pouco de noção, meu?”. Uma sova de humildade, como muitas que levaram, e não esquecem.

 

 

“Esta coisa de relativizar não é só na viagem, trazes isto contigo”, garante Joana, ao que Tiago acrescenta que, para Portugal, trouxeram “duas pessoas bastante melhores”. Mais humildes e certas de que tudo é relativo. Até o conceito de felicidade. Na estrada, “felicidade foi comer no chão”, conta Joana. Foi comer pão e feijão numa garagem, com três primos iranianos, numa aldeia onde nada havia para ver ou fazer. “Se calhar foram os dias mais felizes da minha vida”, partilha Tiago.

 

Não há uma só receita, é certo, e o que poderia ser uma fórmula de felicidade lá fora não pode ser trazida para cá. Mas traz-se uma maior abertura ao mundo, acreditam, e mais perspetivas. “Trouxemos muita coisa, mas só vamos saber a quantidade de coisas que trouxemos daqui a algum tempo”, conta Joana, que sente já que algumas coisas mudaram, no seu quotidiano e na relação com os outros. É um processo gradual, porém, e algo difícil, uma vez que, na correria de todos os dias, as pessoas se tendem a fechar em círculos.

 

É, por isso, sempre urgente partir. Viajar. Conhecer. É essa urgência que partilham nas páginas do Partir para Ficar e que, aos poucos, vai inspirando outros.

 

Portugal – e Sever do Vouga – pela estrada fora

 

 

“Algumas pessoas conheciam Portugal”, contam. “No Irão, por exemplo, conheciam Fernando Pessoa”, mas, por vezes, “não conheciam nada e faziam-nos muitas questões”. Não consideram ter sido embaixadores de Portugal lá fora, mas sim “um veículo, uma forma de chegar mais facilmente à nossa cultura, ao nosso país”, dizem. Joana ia mais longe. “Na Indonésia, numa vila remota no meio das montanhas, dizia que era de Sever do Vouga”, conta Tiago com um sorriso.

 

Hoje, por cá, garantem que só é necessária vontade para partir. Com um orçamento reduzido – de cerca de 3.000 euros cada um –, provaram que sim: é possível viajar de forma lenta e próxima das pessoas, com a autenticidade como palavra-chave e a liberdade como uma constante.

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