Os ovos moles de Aveiro

 

Ricardo Ferreira de Mascarenhas

 

 

Os de Aveiro dizem que comem um ovo mole por dia. Será, na maioria dos casos, acredito eu, o bairrismo e o orgulho a falarem. E isto nada tem de mal, bem pelo contrário.

 

Devemos pugnar pelo que é nosso e divulgar as muitas e boas iguarias que temos dentro de fronteiras. Dizer que há uma que é mais conhecida que as outras será um facto. Dizer que uma é a melhor entre todas uma incoerência.

 

Ou por falta de inspiração ou de assunto a RTP dedicou-se a uma competição com muito açúcar mas extremamente amarga. Escolher, com votos por telefonemas de chamadas de valor acrescentado, qual o melhor doce nacional. Terão noção da dimensão do despropósito?!

 

Quando vi o programa pensei: “arranjem mas é uma mesinha com todas essas especialidades para provarmos demoradamente. Todas têm um aspecto delicioso e ter que escolher só uma é, para mim, um guloso praticante, sacrilégio.”

 

Além do mais, ao podermos degustar várias gulodices portuguesas vamos ter saudades do paladar e do prazer que os ovos moles, ou as brisas, ou os pastéis de Tentúgal, ou as queijadas da vila, ou qualquer outro nos proporcionam e iremos querer repetir. Talvez se em vez da melhor do país fosse feita a volta em Portugal à sobremesa conheceríamos ainda mais profundamente o nosso país e a sua gastronomia e, pelo pecado da gula, teríamos a tentação de ir à fonte de cada um dos doces prazeres regionais, provar o que de melhor cada terra tem. A comida encerra em si muita história, saberes, tradições e costumes. Um doce é muito mais que um punhado de ingredientes juntos!

 

Se estou a menorizar os ovos moles ou Aveiro? Não, nada disso. São muito bons e recomendam-se, têm uma história fantástica, são o resultado de um processo bonito e fazem mais pela região que muitos dos que, pela sua função ou cargo, têm o dever de o fazer. São uns embaixadores que conquistam novos mundos e mercados pois pela boca “morre” mais que só o peixe e que levante a mão quem nunca os levou consigo para missões profissionais ou particulares…

 

Levemos assim os ovos moles ao país e ao mundo e tragamos para cá outras jóias culinárias para adoçarem os dias da ria.

 

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