O senhor Amadeu

Aveiro por um canudo

 

 

Ivar Corceiro*

 

 

Não sei se já vos aconteceu ter na memória uma espécie de quarto onde vive alguém de quem sabem que nunca se vão esquecer. Provavelmente sim. No meu caso, lembrar-me do senhor Amadeu é um misto de saudade e de homenagem. Uma homenagem minha, claro, a um homem que sem saber marcou a minha vida.

 

Eram os tempos da minha juventude. Eram os meus primeiros Amores, grandes amizades e discussões políticas. Eram as primeiras cervejas derramadas em bebedeiras de esperança vã em futuros incertos e era o Palácio, o café central da cidade onde o senhor Amadeu passava os dias e as noites a tornar esse tempo possível como empregado de mesa e como psicólogo improvável. Um homem certo, tão distante e próximo de cada cliente quanto o necessário, sem se imiscuir nem se ausentar demasiado desse tempo tão meu.

 

E agora já chegou, esse meu futuro incerto. Foram três décadas, mais coisa menos coisa. Estou num pub em Londres e há um homem que ri sem rir na mesa ao meu lado. É estranho. Diria eu que em intervalos de tempo muito parecidos ou mesmo iguais debita algumas gargalhadas mecânicas que mais parecem sons de um mecanismo qualquer avariado. O riso não lhe sai de dentro. É formado na boca e cuspido como se fosse uma obrigação.

 

Talvez até seja. Olho-o pelo canto do olho e percebo que está a falar com uma mulher bonita que não deve conhecer há muito tempo. Talvez até seja o primeiro encontro entre os dois. Como é que eu sei? Pela timidez cravada no rosto de ambos. Ela quase não fala e quando o faz é apenas para fazer perguntas simples e curtas. Ele é quem mantém a conversa em andamento e, com toda a certeza, será por isso que ri desta maneira.

 

O riso forçado pode ser um fácil substituto dos silêncios e quando duas pessoas se conhecem pela primeira vez, os silêncios podem ser uma perturbação. Significam falta de assunto ou, ainda pior, falta de interesse. É óbvio que ele sabe isso e tenta manter a conversa animada. Não é muito bom a rir, mas pelo menos esforça-se.

 

Ele bebe um uísque, ela bebe o que me parece ser um gin tónico. Não tenho a certeza. Nunca fui muito bom a reconhecer bebidas que ultrapassam o campo da cerveja ou do vinho, mas a forma suave como ela beija a bebida para molhar apenas os lábios com algumas gotas leva-me a crer que sim.

 

Volto ao Palácio e ao senhor Amadeu. Deve fazer uns trinta anos que eu tinha acabado de conhecer um dos primeiros Amores da minha vida. Dividíamos horas de estudo e silêncios cúmplices numa mesa envergonhada do café. Os dois tímidos também, eu com gargalhadas mecânicas também, ela tímida também. Num dos nossos primeiros encontros, com mais fome no corpo do que dinheiro no bolso, lá veio ele com dois galões e duas tostas mistas numa bandeja cheia de boa vontade.

 

– Hoje é por conta da casa! – disse.

 

Ele nunca soube, ou talvez sim, mas o seu gesto não se limitou a encher-nos o estômago. Mais do que isso, fez da esperança qualquer coisa de melhor. Não é sempre assim quando nos cruzamos com alguém bom? É. E o senhor Amadeu foi isso mesmo.

 

– Boa sorte para os dois! – terminou.

 

E agora percebo que eu próprio estou em silêncio há algum tempo. Não sei bem quanto, se dez minutos ou meia hora, por exemplo. Retiro o olhar da mesa do casal das gargalhadas mecânicas e fixo-o na minha companheira, o meu Amor deste tempo. É óbvio que ela percebeu que eu estava presente apenas fisicamente e que o meu pensamento estava em outro lugar qualquer. Sorri. Olha-me doce.

 

Eu também sorrio. Ainda bem que não nos conhecemos apenas hoje e que os silêncios entre nós já deixaram de ser uma perturbação para passarem a ser uma espécie de cumplicidade. É búlgara, por norma falamos em inglês com algumas palavras de português ou búlgaro pelo meio, como se estivéssemos a salpicar com especiarias raras um prato qualquer desenxabido.

 

A primeira vez que a vi foi exactamente assim, com ela a molhar os lábios numa bebida qualquer e e eu a beber cerveja e a fazer todos os esforços para me rir durante a conversa que às vezes não queria sair.

 

É giro perceber que normalmente os homens encaram um primeiro encontro como uma espécie de desafio enquanto as mulheres preferem ser observadoras passivas. Não sei se é sempre assim, claro. Algumas vezes, no entanto, é. É isso que faz os homens rirem como patetas. Estão em esforço, quer queiram quer não.

 

Talvez o Amor não seja muito mais do que chegar a este estado, em que se pode estar num pub qualquer a olhar para o casal do lado e a alternar silêncios com conversas tão tolas como tentar perceber quem lambe as tampas dos iogurtes acabados de abrir ou quantas vezes já andámos à boleia pelo mundo.

 

– Em que é que estás a pensar? – Pergunta

 

E então conto-lhe a história do senhor Amadeu. Digo-lhe que talvez a minha cidade esteja repleta de pessoas com memórias como a minha. Talvez até o mundo, sei lá. É assim que as cidades se formam, é assim que as cidades são importantes, connosco a fazer parte delas para sempre, nem que seja numa conversa de café a milhares de quilómetros de distância.

 

Sem sabermos, cruzamo-nos no espaço e no tempo. Foi o senhor Amadeu que me ensinou.

 

 

* O Ivar Corceiro é um entre muitos aveirenses que vive fora do país. Escreverá regularmente sobre esta experiência de ver “Aveiro por um canudo”

 

 

 

 

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