Carlos Sá, o espírito humanitário de um aveirense em Moçambique

 

 

 

Nele, moram uma ligação imensa ao mar e um bichinho de infância pelo trabalho humano e humanizante dos Bombeiros Voluntários que o fez tornar-se um há 18 anos. Também nadador-salvador e instrutor de mergulho, Carlos Sá Seabra move-se alimentando o “espírito humanitário” e acedendo à vontade de prestar auxílio a quem mais precisa e em Moçambique, garante, eram – e são – precisas mãos, muitas mãos, e, ainda assim, “é sempre pouco”.

 

Em março, depois do ciclone Idai ter transformado a cidade da Beira num vasto lago povoado por destroços, o bombeiro aveirense reuniu uma equipa de voluntários da região para partir naquela que seria a sua primeira missão em contexto de emergência.

 

O chinelo que não vai para o lixo numa terra onde há sempre um sorriso

 

Em março, a cidade da Beira, capital da província de Sofala, em Moçambique, foi devastada pelo ciclone Idai, que fez submergir as casas, os quotidianos, os sonhos de milhares de pessoas. “É transversal a toda a população – quando começámos a ver as imagens, toda a gente queria, de alguma forma, ser interventivo, colaborar”, relembra Carlos. O instrutor de mergulho, que dá formação a corporações de bombeiros através da escola e associação sem fins lucrativos Trilhos d’Água, diz que a ideia surgiu “de forma espontânea”. Contactou Teresa Maia, amiga e presidente da Estímulo, ONGD do concelho de Oeiras já com programas para o desenvolvimento comunitário em Moçambique, e fez o convite a vários colegas. Não tardaram a surgir voluntários. “Houve um boom de pessoas interessadas”, conta, tendo acabado por ser formada uma equipa de oito bombeiros da região de Aveiro capazes de auxiliar na recuperação subaquática na Beira.

 

Um pouco por todo o distrito, foram-se tornando palpáveis a empatia e o suporte. Em Pessegueiro do Vouga, recorda o coordenador da equipa, o padre fez um apelo na missa que resultou em contribuições genuínas e a Costa Verde, empresa de porcelanas vaguense, criou até uma ação intermédia do projeto “Costa Verde Solidária”, em exclusivo para auxiliar as populações afetadas pelo ciclone.

 

 

Entre a angariação de fundos, bens alimentares e material de mergulho, passaram-se quinze dias até que os oito elementos aterrassem em Moçambique e dessem início a uma missão que os faria regressar “claramente um pouco diferentes”. Com as valências técnicas necessárias, prestaram cuidados de emergência pré-hospitalar às populações e, em articulação com Vítor Leal, responsável da empresa First Things First Mozambique, participaram na distribuição de alimentos e bens essenciais.

 

 

“É sempre muito pouco”, dada a dimensão do desastre, mas “é altamente enriquecedor” poder atuar num contexto de necessidade gritante, reflete Carlos. “O povo moçambicano é bom” e, mesmo ali, onde a ordem das coisas poderia ter sido arrastada pelas águas, “vê-se sempre um sorriso”. Durante a missão, que durou 11 dias, jantavam na casa de Rúben, o dono da bomba de gasolina onde ficavam a dormir. Durante o dia, moviam-se de população em população, confirmando a noção de que tudo é uma questão de perspetiva. Em Moçambique, a um chinelo ou pneu que em Portugal seriam entregues ao “cemitério das coisas” são dadas segundas, terceiras, outras tantas vidas. É um país de uma pobreza extrema, diz Carlos, mas uma terra onde se consegue “ser feliz com muito pouco”. “O meu filho tem uma perspetiva das necessidades dele muito mais ampla do que aqueles miúdos têm. Miúdos que não têm nada e são felizes”.

 

Mãos à obra – literalmente – num reerguer de vidas

 

No dia 31 de maio, uma nova equipa, desta vez de nove elementos, rumou a Moçambique e lá se moveu, durante 16 dias, para prestar auxílio às populações afetadas pelo ciclone. Três desses dias, conta Carlos, foram passados a reconstruir a casa de José Augusto, um homem que auxiliou uma repórter que se encontrava a filmar a tempestade e que, em março, viu voar para longe o telhado de sua casa. Com algum dinheiro recolhido entre os membros da equipa, compraram blocos, cimento e construíram um espaço com três divisões para Augusto, a sua mulher e as suas cinco filhas. Por entre as peripécias de uma parede torta e uma queda aparatosa, a equipa de Carlos Sá reergueu a pequena casa e os amanheceres daquela família. E não só.

 

 

Nas duas missões realizadas com as cores da Estímulo, as equipas que Carlos integrou colocaram telhado numa maternidade, ajudaram a Assistência Médica Internacional (AMI) a erguer o primeiro hospital de campanha de controlo da cólera, distribuíram alimentos que tornaram os dias de muitos menos longos e fizeram curativos que sararam diferentes tipos de dor.

 

Com eles, é certo, trouxeram muitas outras coisas, entre elas, aprendizagens várias para uma próxima missão. Carlos regressou com a vontade de voltar a partir, desta vez para o Senegal em finais de novembro. “Conhecemos pessoas extraordinárias” conta, “entre elas, o Fernando Nobre, da AMI, organização com a qual colaborámos. É minha vontade continuar a acompanhá-los”.

 

Fotografias: Estímulo ONGD

Partilhar
avatar
  Notificações  
Notificação de