Cris Lopes: a experiência de partir, regressar e tornar a sair

 

 

 

Prefere que a tratem por Cris, tem 30 anos, é natural da Gafanha da Nazaré e estudou Gestão na Universidade de Aveiro. Aos 22 anos, agarrou a oportunidade de ir fazer um estágio profissional na Cidade do México, destino que acabou por ser a sua casa durante cinco anos.

 

Voltou para Portugal, casou-se com um mexicano e, um ano e meio depois, tornou a emigrar. Instalou-se em Espanha, mais concretamente em Madrid, onde trabalha como gestora de contas numa empresa de estudos de mercado. Lida com diferentes nacionalidades e culturas todos os dias – tem clientes em todas as partes do mundo e o escritório onde trabalha tem vinte empregados de dez nacionalidades diferentes.

 

Cristiana Lopes (ou Cris Lopes, conforme prefere) confessa-se uma apaixonada por livros, cinema e desporto, mas neste momento dedica todo o seu tempo livre à sua filha, de cinco meses.

 

Acaba de lançar um livro que acaba por ser o retrato de muitos jovens portugueses, os chamados “millennials”. Uma obra na qual junta sua história pessoal à de outros quatro jovens, com curso superior, que saíram do país. Editado pela Sana Editora, o livro Millennials – Cidadãos do Mundo” visa encorajar outros jovens portugueses a saírem da zona de conforto, conforme reconheceu a autora em entrevista à Aveiro Mag.

 

 

Como surgiu a ideia de escrever “Millennials – Cidadãos do Mundo”?

 

Quando voltei do México, senti que tinha uma perspetiva da realidade e do país muito distinta dos meus amigos que ficaram em Portugal. Eu tinha mudado e já não encaixava tão bem nas conversas com amigos. Parecia que as únicas pessoas que me compreendiam e com quem eu tinha mais química eram aquelas que também tinham vivido fora de Portugal uns tempos.

 

Ao mesmo tempo, apercebi-me que muitos tinham uma ideia equivocada sobre a minha vida no México: a das redes sociais. Eu estava sempre em festas ou em viagens. Mas isso não era propriamente verdade. Eu tinha uma vida normal lá como teria em Portugal, com uma rotina, com idas ao ginásio, com marmita e momentos de solidão. Só que o entorno era bastante diferente: uma cidade de vinte milhões de habitantes. Senti a vontade de escrever sobre muito do que tinha vivido para explicar que sim, é uma aventura partir para um país desconhecido, mas ao mesmo tempo esse país é a nossa casa. Queria partilhar por que razão me sinto mais mexicana que portuguesa, porque é que tenho mais química com os mexicanos que com os portugueses, e ao mesmo tempo encorajar os jovens do nosso país a apanhar o avião, a não ter medo de sair da sua zona de conforto e viver uma experiência enriquecedora como esta.

 

 

Por que razão decidiu juntar à sua história a de quatro jovens portugueses?

 

A minha história é só mais uma, há imensos “millennials” portugueses emigrados e com outras perspetivas, outras vivências. Um livro só sobre mim seria um livro incompleto. Como trabalhei na AIESEC, uma associação de estudantes universitários que promove oportunidades de liderança e estágios internacionais, tenho muitos amigos portugueses que escolheram o mesmo caminho que eu: sair do país com um curso superior, viver num ambiente internacional, apaixonar-se e ficar. Ou voltar. As vivências da Cláudia, da Constança, do Daniel e do Francisco enriquecem o livro, trazem novas realidades, novas ideias do que é pertencer à geração Y e ser emigrante. Se algum leitor não se identificar comigo, pode gostar mais da Cláudia, por exemplo. Somos cinco jovens muito diferentes, com opiniões e estilos de vida completamente distintos, mas também com muito em comum.

 

O que espera que os leitores retenham deste livro?

 

Escrevi este livro para várias pessoas. Para todos os jovens portugueses emigrantes: para que se sintam identificados nestas histórias, para que saibam que não são os únicos e que é importante falar destas coisas.

 

Para os pais e familiares destes jovens emigrantes: para que percebam porque tomamos a decisão de viver longe do nosso país, muitas vezes sem estar relacionada com o salário, motivo principal de emigração das gerações anteriores. Porque chamamos “casa” a um lugar longínquo e o dilema pessoal com que nos debatemos diariamente: como sentir saudades, mas ao mesmo tempo distanciar-nos e levar uma vida normal.

 

Para os jovens que ficaram: para que conheçam mais sobre a vida dos que se aventuraram em terras estrangeiras, para que compreendam que, ao voltar, somos pessoas diferentes, madurámos e ganhámos uma visão das coisas talvez diferente das deles.

 

Para os que um dia querem sair do país: ajudá-los a tomar a sua decisão, seja qual for, ir ou ficar, para que leiam sobre como é viver noutro país, o que se ganha e o que se perde. Para que percebam que não é preciso ser-se um génio para emigrar e ter uma boa vida, um emprego de sonho e um salário três ou quatro vezes superior ao que se teria em Portugal.

 

E, pelo que estou a perceber agora com a promoção do livro, está a gerar interesse na comunidade mexicana que vive em Portugal, pois podem ler a perspetiva que um estrangeiro tem sobre o seu país e sentirem-se identificados, uma vez que também têm acesso às duas realidades: a mexicana e a portuguesa.

 

 

Há outras publicações na calha?

 

Para já, não. Este livro foi um projeto a longo prazo: demorou cerca de dois anos a sair. Entre viagens, família e amigos, lá ia escrevendo e fazendo entrevistas pouco a pouco. Tenho algumas ideias para eventuais próximos livros, mas ainda nada em processo. Mas sei que não gosto de estar parada e que um dia retomarei a escrita.

 

 

 

 

Como foi viver no México?

 

Confesso que quando decidi ir sozinha com 22 anos para uma cidade de 20 milhões de habitantes e sem dominar o espanhol, não tinha noção da magnitude do risco. Tanta coisa podia correr mal. Mas nunca me lembrei de ter medo. E penso que isso foi o que me fez viver o ano mais intenso da minha vida, que foi o primeiro ano na Cidade do México. Fazia amigos com uma facilidade enorme e estava aberta a todo o tipo de experiências: provava todas as comidas mexicanas, ia a todas as festas, falava com pessoas de qualquer nacionalidade e aceitava qualquer desafio no trabalho. Penso que nós, portugueses, temos facilidade em adaptar-nos a qualquer ambiente e cultura, portanto, seis meses depois da minha chegada, já falava espanhol com pouco sotaque e já me sentia mexicana.

 

A Cidade do México é ótima para os estrangeiros: tem imensa coisa a acontecer ao mesmo tempo, é enorme, dá para todos os gostos e é um lugar onde, numa noite, podem-se fazer amigos para a vida toda. Também tive momentos menos bons, onde vi amigos serem assaltados com uma pistola, fui expulsa de casa, quase que ia presa por não querer subornar a polícia e senti-me infeliz no trabalho. Mas o facto de ter amigos que eram como família e de ter um namorado que me apoiava fizeram com que me sentisse em casa.

 

E regressar cinco anos depois?

 

O regresso foi planeado durante meio ano. O meu namorado e eu falávamos muito sobre a ilusão de viver em Portugal. Já tínhamos vindo de férias duas vezes e, no México, ganhei uma visão romântica do nosso país: aquela visão que o turista tem, onde tudo é perfeito, o céu é sempre azul e todos parecem ser felizes. Lia também muito sobre as mudanças a nível empresarial que Lisboa, mais propriamente, estava a ter: as novas startups, o clima empreendedor que se vivia, a retoma da economia e o fim da crise.

 

Em Maio de 2016, pediu-me em casamento e decidimos que, quando nos casássemos em Portugal, ficaríamos já a viver por lá. Além de estar longe da minha família, o México tinha lacunas em três coisas que considerava básicas: a segurança, onde tinha que estar sempre preocupada por onde andava e a que horas andava; a educação, que era privada e cara (a pública era muito deficiente); e a saúde, também privada e dispendiosa. Voltámos então em Fevereiro de 2017, três meses antes do casamento, e tive a flexibilidade de trabalhar desde casa para a empresa onde estava no México, durante os primeiros meses.

 

Quando comecei a procurar trabalho em Lisboa, pensei que o meu currículo fosse impressionar os recrutadores: com cinco anos de experiência internacional em duas empresas, onde liderei uma equipa de várias nacionalidades e fluente em três idiomas. Sentia-me muito enriquecida pelas minhas experiências, mas percebi que era só mais uma. Ninguém via ali um elemento diferenciador e eu não percebia porquê.

 

Acabei por aceitar trabalhar em duas empresas com um salário de estagiária, mas apercebi-me que não me conseguia (ou não queria) adaptar à cultura empresarial portuguesa e decidi mais tarde aceitar uma proposta para voltar para o meu emprego anterior (para o qual ainda trabalhei uns meses desde casa, em Lisboa), mas desta vez no escritório de Madrid.

 

As coisas acabaram por não correr conforme esperado…

 

O meu regresso a Portugal parecia ter fracassado, mas tinha que viver essa experiência para perceber que a minha personalidade e maneira de trabalhar não se encaixam perfeitamente com a portuguesa. Tentei, falhei e tirei da minha mente a pergunta “e se um dia voltar a Portugal?”. Precisava de voltar para compreender que eu tinha mudado, que já não era a mesma Cris que partira para o México cinco anos antes. Comecei a ver Portugal e os portugueses com outros olhos e a sentir-me estrangeira no meu próprio país.

 

Sei que há muitos emigrantes que, tal como eu, desejam voltar, mas deparam-se com barreiras que os fazem pensar duas vezes, tais como o salário, a flexibilidade, os benefícios extra e o tipo de trabalho. É sempre uma decisão difícil de tomar, ganham-se umas coisas e perdem-se outras. Mas acho muito importante que Portugal acolha estes jovens que trazem novas maneiras de trabalhar, novas visões e nova energia às nossas empresas.

 

 

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