Duarte Grilo, um ator com versatilidade e verdade dentro

 

 

 

Abriu os olhos para o mundo na capital, mas é em Aveiro que tem as suas raízes, enquanto pessoa de pessoas e ator. Duarte Grilo percebeu muito cedo que nele vivia a certeza de querer vestir outras peles que não a sua. Hoje, com 34 anos, move-se entre o teatro, o cinema e a televisão, é apresentador e MC (Master of Ceremonies) e faz locuções e dobragens.

 

A sua interpretação no filme Boy (2014), do realizador Bruno Gascon, valeu-lhe o prémio internacional de Melhor Ator em Curta-Metragem no Macabre Fair Film Festival, um dos mais prestigiados festivais de cinema de terror do mundo realizado em Nova Iorque. Em 2018, foi nomeado pela Academia de Cinema Portuguesa para Melhor Ator Secundário pela participação enquanto Zé na longa-metragem Al Berto. Os prémios mais verdadeiros, porém, residem nas pequenas coisas – nos “abraços dos colegas e sorrisos” com que é recebido nos diferentes platôs que vai pisando.

 

Tem percorrido os palcos do mundo com o espetáculo Macbeth, como parte integrante da Companhia Chapitô, e pertence aos elencos de três séries portuguesas com estreia este ano – Sul, do realizador Ivo M. Ferreira, Luz Vermelha, baseada no caso das “Mães de Brangança” e Conta-me como Foi, já com uma vasta audiência, agora passada nos anos 80.

 

Este ano, tornará a Aveiro como apresentador do National Geographic Exodus Aveiro Fest, um festival internacional de fotografia e vídeo que celebra a viagem e a aventura. Com ele, trará a bagagem e as experiências que o tornam um ator e contador de histórias com verdade dentro.

 

Um ator é feito de bagagem

 

Uma tragédia familiar de Natal e um vil comendador em palco – eis o que fez brotar em Duarte a certeza de qual o caminho a seguir. Movido a vontade, deu os primeiros passos no vasto universo do teatro com “a mítica personagem aveirense Teresa Grancho” e, em 2007, já em Lisboa, formou-se como ator pela Act – Escola de Atores. Com sede de colecionar saberes – sem pressa, com tempo –, foi armazenando ferramentas, explorando métodos e abordagens, fazendo formações pontuais fora e hoje, confessa, apesar de ter uma carreira de quase 15 anos, não sabe ou é absolutamente nada. Duarte quer “aprender até fechar os olhos” porque um ator, conta, “é feito da bagagem que traz e das experiências que tem – boas, más, estranhas, caricatas –, senão não pode contar as histórias com verdade”.

 

 

Fotografia: Ukbar Produções (Zé, Al Berto)

 

Nessa bagagem, traz a sua primeira participação numa novela –Vingança – e a peça Happy Birthday, que produziu com colegas de turma e fez encher o Centro de Congressos de Aveiro. Traz a sua estreia no cinema, em A Bela e o Paparazzo, e a curiosidade com que tudo observava no ecossistema dos estúdios. Traz o advogado ambicioso e sem escrúpulos da série Idiotas, que protagonizou ao lado de Salvador Sobral e André Nunes. E muitas outras personagens. Vividas. Trabalhadas.

 

 

Fotografia: Frederico Monteiro (João, Idiotas)

 

O crescendo de Duarte Grilo tem sido variado e feliz, tendo vindo a trabalhar em vários projetos teatrais, televisivos e cinematográficos, mas a preferência, revela o ator, pertence ao grande ecrã. “O teatro é absolutamente incrível porque dá uma reação na hora. A televisão é uma máquina que exercita o cérebro de uma maneira absolutamente incrível”, mas “o cinema é o cinema”, diz. “É onde me sinto bem”.

 

Cinema com Carga social

 

Quando à capacidade de ser e viver determinada pessoa em determinado momento se alia uma mensagem social – de alerta –, o resultado é poderoso. Com a curta-metragem Boy, do realizador Bruno Gascon, Duarte Grilo protagonizou a história – sem espaço ou tempo – de uma pessoa encerrada entre quatro paredes que se vê obrigada a lidar com as várias entidades que nela habitam. Nas semanas que antecederam a rodagem, para se apropriar do “universo esquizofrénico” da personagem, Duarte fechou-se em casa, sem tomar banho, sujeito a uma dieta por si imposta que o levou a perder perto de 15 quilos e a testar os seus limites. “Foi talvez o primeiro trabalho em que eu tive a história e a personagem suficientemente compactas”, conta. A experiência, que define como “catártica”, resultou num prémio internacional concedido por um júri de renome num aclamado festival de cinema de terror em Nova Iorque. Um “prémio que não é meu”, mas de toda a equipa, garante.

 

Mais tarde, integrou o elenco de Carga, longa-metragem centrada no tráfico de seres humanos que conseguiu ser o quinto filme português mais visto de 2018, também do realizador Bruno Gascon e com a produção de Joana Domingues. “Foi muito duro”, conta, “nós, em Portugal, não temos noção absolutamente nenhuma da quantidade enorme de casos de tráfico de seres humanos que temos no nosso país. Não temos noção nenhuma de que está em todo o lado, ao nosso lado”. Para construir a personagem de Ian Gard, membro de uma rede de tráfico (ainda que com um twist), inteirou-se, através de intérpretes e pessoas envolvidas no resgate, de histórias reais – “inarráveis” – e hoje diz sentir uma grande diferença nas pequenas coisas. “Olho e penso: o que estará por trás disto?”.

 

 

Fotografia: Luís Sustelo (Ian Gard, Carga)

 

Vendido para os Estados Unidos, Canadá, França, Brasil, China, Japão e tantos outros cantos do mundo, o filme foi rodado no antigo Colégio de São Fiel, outrora também um reformatório, em Louriçal do Campo, que foi destruído por um incêndio não muito tempo depois. “Tinha um peso muito grande”,  partilha Duarte, “o ar não era o mesmo, não se respirava da mesma maneira”. O ambiente tornava palpável uma realidade muito pouco humana e os gritos dos atores, recorda, “ecoavam por todo o lado”, de forma verdadeiramente cortante. “Um ambiente absolutamente propício a que o filme tivesse o peso e o poder que tem”, explica.

 

Filmes que, juntamente com Vazio (2015), “pretendem ser alertas, sem sombra de dúvida”, reflete o ator.

 

O barómetro do sucesso

 

Com o apoio da família e resistente ao ceticismo de alguns, Duarte Grilo seguiu o caminho que descobriu ser seu numa festa de Natal, quando tinha oito ou nove anos. Pisou os palcos de vários países, com a Companhia do Chapitô e o seu teatro físico de desconstrução de clássicos, elencou inúmeros filmes e projetos televisivos e assume também funções na área da direção de atores e realização de cinema e publicidade. Decidiu não se cingir a uma única forma de ser, viver ou fazer e hoje considera-se uma pessoa feliz.

 

Quando era criança, conta, “não imaginava ter tão pouco aos 34 anos, mas, se calhar, também não sabia que o tão pouco me seria tanto”. “Não tenho carro ou casa própria, mas tenho experiências, tenho pessoas ao meu lado. Claro que gosto de ter o meu conforto. Mas eu posso tomar um banho quente por dia, posso fazer duas, três, quatro refeições por dia, posso ir dar um mergulho no mar quando me apetecer, tenho pessoas à minha volta que gostam de mim, pessoas à minha volta de quem eu gosto muito. Para que é que eu quero um Ferrari ou uma mansão em Hollywood?”.

 

 

Fotografia: Arquipélago Filmes (Valério, Sul)

 

O sucesso, que veste o significado que cada um constrói para si, é, para Duarte, sinónimo de felicidade. De chegar a um platô e ser recebido com um abraço por técnicos e colegas. De ser respeitado pela seriedade com que abraça um projeto e respeitar quem participa na sua concretização. Da cumplicidade no meio. Das reações que mostram um público diferente antes e depois de uma atuação. Sinónimo de fazer aquilo que gosta.

 

Quem poderia adivinhar que a desumanidade de um comendador serviria para mapear a felicidade?

 

* Créditos da foto de capa: Catarina Fernandes – Casa de Luz Fotografia

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