Moliço e dragagens na Ria de Aveiro

 

José Figueiredo da Silva *

 

 

 

Decorre neste outono de 2019 uma nova dragagem de vários canais da Ria de Aveiro, retomando a intervenção que decorreu em 1996 nos canais da Murtosa, Torreira e Carregal. A dragagem realizada em 1996 marcou o decaimento das áreas submersas cobertas por moliço, com grande expressão na Ria até meados da década de 1980 antes da expansão do Porto de Aveiro, que envolveu grandes dragagens nos canais da zona portuária. Em resposta à alteração das condições hidrodinâmicas a Ria evoluiu de um sistema costeiro com uma ligação ao mar restrita (sistema lagunar) para um sistema mais aberto com elevada salinidade. Naturalmente esta mudança teve reflexo sobre a composição e a abundancia das ervas marinhas na Ria de Aveiro.

 

Fui testemunha do desaparecimento das ervas de água salobra, tolerantes à água marinha, que observei pela última vez em 1997 no Largo da Coroa do canal de Ovar. Uma década antes o canal de Ovar a norte da Torreira estava coberto por enorme massa de moliço que incluía plantas de água salobra (Ruppia e Potamogeton), uma espécie típica de água salgada (Zostera) e várias macroalgas. Estas plantas formavam densas pradarias submersas, ao ponto de causarem dificuldade à navegação motorizada. Após 1997 as pradarias submersas desapareceram e a Zostera ficou restrita a algumas áreas na zona entre-marés.

 

A importância das áreas cobertas pela erva marinha Zostera foi muito recentemente posta em destaque num artigo de Ana Sousa e outros investigadores do CESAM, publicado em Scientific Repports (2019). O estudo incidiu nas alterações observadas no período de 10 anos entre 2004 e 2014, tendo-se observado um aumento das áreas cobertas por Zostera continuando restritas à zona entre-marés. É provável que este período, posterior à dragagem realizada em 1996, represente a recuperação de um equilíbrio natural fortemente perturbado pelas intervenções realizadas na década anterior.

 

Passadas perto de três décadas, está em curso uma nova intervenção na Ria em que são removidos sedimentos ao longo dos canais interiores que vão ser depositados nas margens, procurando protege-las dos efeitos de marés que alcançam com maior amplitude marinhas, juncais e campos nas margens desses mesmos canais interiores. O impacto destas dragagens sobre as plantas aquáticas submersas (moliço) não vai depender tanto do volume de sedimento removido, que é relativamente pequeno, mas principalmente da alteração da forma da secção e do perfil longitudinal desses canais no interior da Ria.

 

Fica prometido continuar esta avaliação depois de mais uma década quando se tornarem mais evidentes os efeitos destas intervenções, que conduzem a um ajustamento lento do sistema lagunar.

 

 

* Professor do Departamento de Ambiente e Ordenamento da Universidade de Aveiro

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