Um regresso a Aveiro

Aveiro por um canudo

 

 

 

 

Ivar Corceiro*

 

 

Reparei que os dedos dela eram tão esguios e frágéis quanto o cigarro impaciente que seguravam. Por qualquer motivo que não compreendo muito bem, fiz questão de os comparar aos meus, que naquele momento seguravam um copo de Ballantine’s que ela acabara de me oferecer para demonstrar que o uísque escocês é melhor do que o irlandês.

 

Foi, aliás, assim que começámos a nossa conversa numa noite perdida no frio Outono britânico. Sentei-me sozinho ao balcão de um pub habitual e pedi um uísque qualquer desde que fosse irlandês. Enquanto o barman me servia um Tullamore generoso, ela perguntou-me o motivo do meu pedido. Afinal, os uísques escoceses são até mais famosos do que os irlandeses. Depois fez questão de me pagar um segundo e até lá ficámos na conversa.

 

É claro que eu reparei imediatamente que o sotaque dela era das terras altas da Escócia, tão diferente daquele a que me habituei na pequena cidade inglesa para onde vim há pouco mais de dois anos, e percebi o  motivo da sua fingida indignação. Era só uma brincadeira, que se tornou um pouco mais afiada quando lhe disse que na cerveja também sou totalmente irlandês. Quase só bebo Guiness.

 

Mantive-me, apesar de tudo, mais receptor do que emissor enquanto ela me contou a sua vida recente e como foi ali parar. Depois pegou num cigarro e fez um compasso de espera antes de se afastar para o fumar, à espera duma resposta à pergunta que mais tarde ou mais cedo acaba quase sempre por surgir quando travo conhecimento com um britânico.

 

– Pensas voltar a Portugal?

 

Os dedos dela conduziram-me ao resto do corpo. Aos cabelos lisos pintados de um loiro escuro por cima de um negro envergonhado e aos olhos claros que tive dificuldade em distinguir se eram verdes ou azuis. A boca tremeu-lhe um pouco, mas o suficiente para ter a sensação de que o batom vermelho podia rachar a qualquer momento.

 

Nunca tenho uma resposta para essa pergunta, ou melhor, até tenho. É não, não penso em voltar. O que eu não tenho claro é a explicação para tal, cuja solicitação vem sempre a seguir.

 

– Se eu te disser que não, vais-me perguntar porquê ou vais lá fora fumar o cigarro? – Sorri.

 

Ela sorriu também. O batom não rachou. Com a mão esquerda pegou num isqueiro que estava aparentemente esquecido em cima do balcão e disse-me para não sair dali enquanto se afastava para ir lá fora. Não a vi sair, mas ouvi a porta a queixar-se no chio agudo das suas dobradiças velhas.

 

Terminei o segundo uísque e pedi um terceiro. O barman perguntou-me se irlandês ou escocês e eu escolhi irlandês de novo, como o primeiro. Existe esta ideia de que quando emigramos o nosso país e a nossa cidade ficam no mesmo sítio, à nossa espera, para um dia em que nos apeteça voltar. Não é bem assim.

 

As cidades também vivem e mudam com o tempo. Cada vez que visito Aveiro é como se visitasse uma velha amiga que não vejo há muito e a quem me apetece dizer que está mais gorda ou mais magra, mais nova ou mais velha ou outra insipiência qualquer antes de bebermos um copo juntos. Depois percebo que de certa forma a nossa separação arrefeceu a nossa relação.

 

Depois passeio-lhe nas ruas e avenidas. Pergunto-lhe poque é que se automutila no Rossio e nos jardins, porque é que se enche de turistas e se esvazia de amigos, porque é que se pinta com um batom que parece poder rachar a qualquer momento. Não responde, a não ser com as minhas memórias de criança embevecida, adolescente apaixonado ou adulto desiludido.

 

A Kirstine voltou do cigarro e perguntou-me a nacionalidade do meu uísque assim que percebeu que eu tinha pedido outro. Respondi-lhe. Ofereci-me para lhe pagar um irlandês se ela quisesse arriscar a aventura. Aceitou.

 

Não voltámos ao porquê de não querer voltar a Portugal. Mergulhámos, isso sim, cada um no seu silêncio de quem sabe onde estão as suas próprias memórias e vivências. As minhas estão por Aveiro mas, digamos, cada vez mais espalhadas por aí onde calha.

 

Mal ou bem, em cada amigo que vou fazendo regresso sempre ao que eu sou.

 

 

* O Ivar Corceiro é um entre muitos aveirenses que vive fora do país. Escreverá regularmente sobre esta experiência de ver “Aveiro por um canudo”

 

 

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