Marco Pereira: um advogado que também é historiador

 

 

 

Tem 39 anos, é de Pardilhó, Estarreja, e fez-se historiador na Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, na altura em que estava a frequentar o curso de Direito naquela universidade. Marco Pereira tem vivido nessa dupla função de advogado e historiador, mas se pudesse dedicava-se em exclusivo à investigação histórica. Já tem nove livros publicados e mais uns quantos na calha. Acaba de lançar o segundo volume da “Monografia da Murtosa”, no qual dá seguimento ao volume apresentado um ano antes, pretexto mais que suficiente para conversar com a Aveiro Mag.

 

“O estar num espaço com muita história [Universidade de Coimbra] e ter o privilégio de estar próximo das fontes de informação, sobretudo a Biblioteca Geral, que é a segunda maior biblioteca do país, intensificou este meu gosto pela história”, confessa, sem deixar de notar que essa paixão já lá estava. “Quando era um jovem do secundário já me interessava pela história e pela cultura, e comecei a escrever nos jornais locais”, lembra. “Não eram artigos espetaculares mas foi uma escola informal”, faz questão de vincar.

 

Quando chegou o momento de escolher um curso superior, decidiu-se pelo Direito, com a perspetiva de que uma licenciatura nesta área lhe ia “dar um futuro melhor”. Foi para Coimbra e não tardou a transformar-se num “rato de biblioteca”. Também teve os seus momentos de festas académicas, garante, mas a biblioteca era a sua grande perdição. Andava a investigar a história de Estarreja e da Murtosa, que continuam a ser os seus alvos de estudo preferenciais. Publicou o seu primeiro livro aos 21 anos – uma recolha fotográfica de Pardilhó – e a dedicação à história não foi impedimento para que se fizesse advogado e trabalhasse como tal.

 

Mais tarde, decidiu ir fazer o curso de História – novamente em Coimbra – por gozo pessoal e alguma teimosia à mistura. “Fui fazê-lo em segredo, não disse nada a ninguém, mas a coisa correu bem. Tive boas notas e até recebi prémios”, recorda. Como o curso tinha a variante de História/Geografia, isso permitiu-lhe aprender muitas coisas novas e úteis, nomeadamente ao nível da geomorfologia, área de estudo essencial para quem tem, tantas vezes, de se debruçar sobre um território como é o da ria de Aveiro.

 

 

Mais do que uma paixão, um “vício”

 

Marco Pereira não tem pejo em assumir que a investigação histórica é, um tanto ao quanto, “viciante”. Uma busca incessante que o leva a sentir-se bem de volta de jornais e livros antigos. Nas bibliotecas ou no seu escritório, uma vez que já é dono e senhor de uma coleção de livros considerável. Não esconde o fraquinho pelos mais antigos. “Os livros são o meu tabaco”, comenta. Já tem umas estantes cheias, mas se depender da sua vontade as paredes lá de casa e do escritório vão continuar a ficar preenchidas.

 

Após todos estes anos de “vida dupla”, admite encontrar pontos em comum entre o Direito e a História. “Em tribunal, também temos de comprovar e provar documentalmente o que defendemos. Tenho vários processos em que uso a história. O mais conhecido deles é entre duas freguesias, Salreu e Canelas, que estão desentendidas quanto aos limites fronteiriços”, sustenta.

 

Outro exemplo são os processos relativos à taxa de recursos hídricos, matéria que afeta muito particularmente a região de Aveiro. Para que consigam ver reconhecida a propriedade privada dos seus terrenos ou casas, os particulares têm de fazer prova documental que tais terrenos eram propriedade particular ou comum antes de 31 de dezembro de 1864. “A experiência como historiador ajuda, e muito, nestes processos, uma vez que é preciso recuar mais de 150 anos”, destaca o advogado-historiador.

 

 

 

Marco Pereira no lançamento do seu último livro (foto de Etelvina Almeida)

 

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