O que se seguirá?

 

Andreia Ribeiro da Silva*

 

 

Ontem fui ao parque da cidade. O meu parque, aquele onde passava manhãs entre a macaca e os patos, os patos e a macaca, e o fim de tarde nos baloiços a voar até ao céu.

 

Ontem fui passear no parque com o meu filho. Vi patos. O meu homem também viu patos. Acho que mais ninguém os viu. O meu filho disse que o parque estava cheio de gente. Ele viu-os no telemóvel. Não os vi.

 

O meu filho não viu patos. Mas viu pokémons. Caçou mais de 50. Eu não os vi. Talvez estivessem escondidos atrás dos bancos dos namorados, ou da casota dos patos, da casa da macaca, das canas da índia….

 

Ah, pois, aí não. Aí não poderiam estar! Esqueci que já não há tantas canas da Índia quanto isso. Nem casa da macaca. Nem macaca. Será que morreu, a macaca do Parque? Eu acho que ainda deve estar viva. E ainda deve andar por lá. Ou porque lhe continuariam a chamar Parque da Macaca os que lá caçam Pokémons? Talvez ela esteja com eles, com esses novos bicharocos. Dizem que o Picachu é um fofinho, talvez estejam juntos aos beijos num dos banquinhos mais escondidos.

 

Também vi meninos. Mas poucos me viram. Os Pokémons puxam-lhes os pescoços para baixo e hipnotizam-lhes as vistas. Se se distraem um segundo perdem, e perder é mau. Ninguém quer perder. Todos querem ganhar. Só ainda não entendi o quê!!

 

Vi crescidos também. Mais que meninos até. Também estavam lá nas raids e nas pokéstops. Também tinham pescoços tortos e olhos ceguetas. Não viram os patos acho eu. Eram bonitos os patos que vi ontem. Alguns dormiam de cabeças enfiadas debaixo das asas. Apetecia dormir no parque ontem de manhã. Estava sombrio e chuvoso. Lindo. Tivesse eu uma asa mantinha e também lá dormia. Mas os outros não viram. Os guarda chuvas eram grandes e os ecrãs eram maiores.

 

Continuei a caminhar e acabei por sair de lá pelas ruas, assim mesmo com a chuva. Dei a mão ao meu homem e contei-lhe dos pirulitos da barraca da tripa, comidos na paragem do autocarro a meias com a prima. A barraca estava fechada, pois claro, que o domingo é para descansar e para a família! E vi o café em frente, mais antigo que o parque, onde não entram pokémons nem meninos de pescoços tortos. Só entram velhotes cheios de história e histórias para contar que ninguém tem tempo de ouvir. “Que catita, havemos de cá vir!”, disse o meu homem. Mas ele não é bem de hoje. Gosta de coisas da aldeia e do monte. E de cafés parados no tempo, onde só se bebe café e se ouve o vizinho que aquece a manhã com um copo de vinho. Estava fechado também, ou teríamos tomado o tal café. “Nem sei se ainda se mantém a funcionar” disse eu. E se funcionar só deve mesmo ter café. “Havemos de cá vir”, insistiu o homem que mais depressa vê a macaca que nunca viu, ou prova o meu pirulito do parque, do que vê um Pokémon. Deve ser daí que vem o meu amor por ele.

 

De repente, numa rua, uma rua da minha cidade onde não passava a pé pelos vistos há tempo demais, estava lá a esperança toda. E a expetativa do que virá depois.

 

 

 

 

Que coisa bonita ali na parede! Como não tinha eu visto ainda? Que raio andava a puxar-me também a mim o pescoço para baixo, a roubar-me aos dias, para não ter ainda tido tempo de passear na minha cidade-aldeia?

 

É um menino, grande e gigante que ainda não chegou, mas promete vir. Que coisa tão linda! Parece mesmo a promessa do meu bebé, e do teu e de todos. Ali, enorme, gigante, como sempre os sentimos cá dentro, não é?

 

Sobrevivemos aos piões, aos tamagochis, aos matutazos e aos polícias e ladrões. Não serão os Pokémons que nos roubarão de vez os patos do parque, os passeios, os baloiços e os serões!

 

Quem sabe não nos ensinam a construir mais parques, ou macacas diferentes?!

 

Tudo passa. Tudo cresce. Tudo muda. Mas tudo nasce, uma e outra vez, renovadamente. Talvez um dia, os pequeninos dos nossos pequeninos de hoje, se lembrem saudosos dos dias em que o Picachu andava por ali às corridas com a macaca dos avós.

 

O que se seguirá minha gente? Que meninos virão depois?

 

Venham os que vierem, venham sempre, venham muitos e de olhos curiosos e gigantes, façam mundo, façam tradições!

 

*Autora e blogger (To Me or Not To Me)

 

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