O São Gonçalinho na era pré-Instagram

 

 

Sandra Silva Costa*

 

 

 

Sempre me gabei de ter boa memória, mas agora ela traiu-me. Terá sido em 2007, mas também pode ter sido em 2006. De qualquer forma, eu andaria pelos 30 e aos 30 (ainda) parece que temos a vida pela frente: já temos maturidade, mas não temos vergonha de nos comportarmos como miúdos de 20 ou menos. Porque, lá está, temos a vida pela frente, ainda nos sobrará tempo para nos tornarmos adultos a sério. Sisudos, responsáveis e o que mais ditar o cânone.

 

Estava mais uma daquelas noites de Janeiro em que o frio nos rasga o corpo e deixa os ossos quase a descoberto. Era sexta ou sábado, eu tinha estado a trabalhar no Porto até tarde e ainda hesitei em fazer-me à estrada até Aveiro. Mas, por pressão dos amigos que prometiam festa rija, lá me meti no carro. Antes, ainda fui ao Google, procurei uma certa imagem e imprimi-a em tamanho A3.

 

Não esperava o que encontrei: já me tinham descrito o espectáculo que é a festa de São Gonçalinho mas, numa altura em que as redes sociais tal como as conhecemos ainda eram uma miragem, chegar e ver o que vi foi uma grande surpresa. Hoje, mesmo que nunca tenhamos pisado o bairro da Beira-Mar, é como se lá fôssemos todos os anos. As fotos, os vídeos, as stories das cavacas lançadas do alto da capela inundam cada feed que se preze – ai de quem não partilhe, é como se nunca lá tivesse estado. Em 2007 (ou em 2006), o São Gonçalinho era (ainda é) para curtir ao vivo, e não por interposto Instagram.

 

Assim que chegámos ao epicentro da festa, estranhei que houvesse tanta gente de capacete. Achei aquilo uma bizarria sem nexo, mas quando, pelo meio de uma multidão às vezes compacta, nos abeirámos da capela do santo, compreendi o acessório: é preciso ter reflexos bem afinados para desviar a cabeça das cavacas que voam em todas as direcções. Felizes daqueles que têm a tola protegida!

 

Esperámos que a fila para subir ao cocuruto da capela se tornasse mais suportável e por ali fomos, em ziguezague, com um saco de cavacas prontas para voos rasantes. Visto de cima, o cenário era ainda mais surreal: os despojos do doce acumulados nos telhados vizinhos mais pareciam neve; e as redes de pesca, os guarda-chuvas ou os lençóis usados para capturar as cavacas que chegavam dos céus davam um tom carnavalesco à coisa. Está aí alguém dos La Fura dels Baus?

 

Lembro-me de ter querido ficar ali, no alto da capela, a mandar cavacas para baixo e a tocar a sineta, tal era o meu fascínio de primeira viagem. Mas havia que dar lugar aos outros. E na Praça do Peixe estava o José Cid à espera.

 

O concerto foi como é suposto ser um concerto do José Cid: dançámos muito, cantámos baladas e rock progressivo e até houve quem se tenha fartado de atirar bananas para o palco (esta parte não era suposto). O artista, que é um bom artista, zangou-se, com razão. Respondeu torto e eu quase tive medo de tirar da mala a imagem em tamanho A3 que imprimira antes de seguir para Aveiro.

 

Era, claro, a célebre capa do álbum em que José Cid aparece estirado no sofá, todo nu, apenas com um disco a esconder-lhe as vergonhas. A Maria José Santana, directora da AveiroMag, estava comigo e não disfarçou o embaraço.

 

Mais ainda quando mostrei o cartaz em todas as direcções, para regozijo geral. Nas proximidades, estava um senhor muito simpático, que se ria com vontade do meu disparate. Aí a Maria José passou-se: era o já falecido comandante distrital da PSP, Francisco Bagina.

 

Eu estava nos 30, já disse, estávamos todos, e ainda hoje, que já somos adultos a sério e um pouco mais sisudos (ia escrever lol, mas prefiro em português: gargalhadas), nos rimos muito desse episódio. Eu sei que o São Gonçalinho não se limita a cavacas e a concertos na Praça do Peixe, que é preciso muito mais para entrar no seu espírito verdadeiro, mas, na minha qualidade de forasteira, a partir daquele ano fiquei rendida a esta festa tão peculiar.

 

Estaria a mentir se dissesse que lá vou todos os anos, mas já voltei muitas vezes. O slogan é de outras lides, mas não há festa como esta. E este ano há José Cid outra vez. Maria José, vamos? Prometo que não levo nenhum cartaz: já passei dos 40.

 

 

* Editora da Fugas/Público

(Créditos da foto: Adriano Miranda)

 

 

 

 

Texto escrito ao abrigo do antigo Acordo Ortográfico

Partilhar
avatar
  Notificações  
Notificação de
FERNANDES
Visitante
FERNANDES

Gosto de te ler 🙂 e de cavacas 🙂