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Manuel Joaquim Rocha: “A Igreja tem que acolher a todos”, não “tudo”

Sociedade

O objeto principal da conversa era o recentemente publicado “Paróquia de Santo André de Vagos. Memórias que são vida”, mas rapidamente fluiu para outros campos, alguns dos quais bem sensíveis. Ainda assim, Manuel Joaquim Rocha falou de todos eles com um à-vontade próprio de quem está habituado a lidar com matérias delicadas. Sem pudores, Manuel Joaquim Estêvão da Rocha acabou por falar sobre crises de fé, divorciados recasados, casais homossexuais e o escândalo dos abusos sexuais na Igreja. E também falou sobre si e sobre o percurso que o levou até ao lugar onde está hoje - é vigário geral da Diocese de Aveiro -, a partir de uma caminhada que teve início em Santo André, precisamente a paróquia à qual dedicou o seu último livro.

Nasceu a 28 de março de 1953, no lugar de Sanchequias, no seio de uma família humilde. Terminada a quarta classe, foi para o Seminário de Calvão e, posteriormente, para o Seminário de Aveiro, de alguma forma influenciado pela família, “amiga da Igreja e de prática religiosa”. “Com 12 anitos o que é que a gente sabe de vocação?”, observa, antes de admitir que foi fazendo o seu caminho, “devagarinho”. “Vamos criando alguns pontos que nos vão ajudando”, repara, recordando os tempos de juventude em que foi para Lisboa estudar. “Foi um tempo de abrir os olhos, o despertar de uma adolescência. A gente começa a olhar mais para a vida e vai marcando balizas. Talvez por ali não, por aqui sim”, enquadra. Entretanto, em 1974 surge a revolução de abril que, no seio da Igreja, é marcada por alguma instabilidade. “E talvez essa instabilidade me tenha ajudado a amadurecer. A instabilidade é também uma oportunidade para te definires”, testemunha.

Terminou o curso de Teologia no Instituto de Ciências Humanas e Teológicas no Porto em 1976, mas só viria ser ordenado sacerdote em 1979, na paróquia de Santa Joana – durante os quase três anos que mediaram o término do curso e a ordenação, esteve no Centro Pastoral e no Seminário de Aveiro. Passou, depois, pela paróquia de Ílhavo, rumou a Salamanca para estudar direito canónico e, regressado a Aveiro, foi nomeado vigário judicial (liderando o tribunal eclesiástico da diocese até 2022) e ainda passou pelas paróquias de Aradas e Vera Cruz até ser escolhido para o cargo atual.

Antes de escrever “Paróquia de Santo André de Vagos. Memórias que são vida” – com prefácio do Bispo de Aveiro, D. António Moiteiro - Manuel Joaquim Rocha já tinha publicado “Pelos canais – palavras e gestos que edificam” (2009), com um segundo volume, “Pelos Canais – vou ao encontro, vivo a alegria” (2015), “Alianças partidas – divorciados recasados perante o matrimónio” (2010) e “Catecumenado Matrimonial” (2019).

Concretamente sobre o seu último livro, conta a história de uma igreja cuja construção não foi pacífica. Perante a impossibilidade de reconstruir o antigo templo, “começou-se a pensar numa igreja nova, noutro espaço, mas isto levanta logo discussão e confusão”, recorda. Como a maioria dos paroquianos era favorável, avançou-se para a compra do terreno e início da construção, sem adivinhar o que estava para vir.  “O pessoal foi-se dividindo: uns contra e outros a favor e isto foi dando uma guerra, tanto que tentaram invadir a casa do padre”, conta Manuel Joaquim Rocha, especificando que a fação contrária chegou a tomar conta da igreja velha, impedindo que a missa lá fosse rezada enquanto construíam o novo tempo. “Como não havia igreja, tiveram de fazer um palanque para celebrar missa ao domingo. E a verdade é que, durante um ano, nunca choveu à hora de missa”, testemunha. São todas estas histórias, e muitas mais, que estão agora documentadas em livro. “Aquela igreja a que toda gente vai hoje, bonita, tem uma história sofrida. Houve gente que sofreu muito”, destaca.

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Depois de cinco livros publicados, é caso para perguntar a Manuel Joaquim Rocha o que ainda lhe falta escrever. “Não penso escrever mais nada. A não ser que surja a necessidade”, confessa, em conversa com a Aveiro Mag. A ideia de escrever uma nova obra parece estar assim, por ora, afastada, mas o gosto pela escrita permanece e vai continuar a materializar-se em artigos de opinião para os jornais Correio do Vouga e Diário de Aveiro. “Gosto de ler esta realidade que estamos a viver, olhar a vida à luz dos valores” e olhar para “a resposta que a Igreja dá ou não dá a esta realidade, à vida que nós levamos”, admite.

Os tempos são de “muitas dúvidas e tentações”, aponta. “Começámos com o problema dos casamentos. Hoje, as coisas foram mudando, e os casais já estão em união de facto, já têm um filhote. E agora como é? Batizam, não batizam?”, exemplifica, notando que, atualmente, há “uma caminhada pastoral atendendo não à regra, mas atendendo às pessoas, o que dificulta a decisão”. “Hoje, a Igreja vai caminhando, mas tem uma tentação: é deixarmo-nos levar pelo vento e irmos na corrente”, vincava, poucos dias depois de o Vaticano ter anunciado que vai permitir aos padres católicos administrar bênçãos a casais do mesmo sexo. “A Igreja tem que acolher a todos, mas não é acolher tudo”, argumenta, sustentando que “cada pessoa tem de fazer também o caminho [da Igreja]. Ainda agora, a pretexto das declarações do Papa, as pessoas a dizerem: a Igreja tem de mudar. Sim, mas as pessoas também têm de caminhar”, refere. “Há coisas para mim, na Igreja, que são caminho. Só vejo, na Igreja, casamento entre um homem uma mulher. O resto? Acolher, com certeza. Mas não pode ser a mesma coisa, portanto, temos de caminhar, uns e outros. O tal todos, todos, mas não é tudo, tudo”, afirma.

Têm sido tempos de mudança para a Igreja, mas também de grande condenação e polémica por força do escândalo dos abusos sexuais de menores. “Muito mau, horrível. Porque além de tudo, as pessoas confiam na Igreja”, avalia, sem deixar de reparar, contudo, que se “empurrou tudo para a Igreja”. “Tem-se dito muito que a igreja tem de fazer isto e aquilo, mas e os casos que são na família? E nas escolas?”, questiona. Ao jornal PÚBLICO, em fevereiro, Ana Nunes de Almeida, coautora do estudo sobre abusos na Igreja, reconheceu maior parte dos abusos não ocorre nem na Igreja nem nas instituições religiosas, mas na família e noutros lugares de socialização das crianças como os clubes desportivos e as escolas. “Mas mesmo que fosse só um caso na igreja, já era mau”, reconheceu o vigário geral.

Manuel Joaquim Rocha não deixa de analisar o que está mal, mas também faz questão de enaltecer as coisas boas da sociedade. Poucas horas antes da entrevista, tínhamos visto um comentário seu no Facebook a regozijar-se com a solidariedade gerada em torno de um pedido de ajuda. "Gosto muito daquele grupo dos Vizinhos de Aveiro. Aparece sempre gente disposta a ajudar. Sempre gente disponível para ajudar e eu admiro muito aquilo", destaca, lembrando que vivemos tempos "controlados pelo relógio, sem tempo para os outros". "E depois também temos sempre razão. E direitos. Não assumimos a nossa quota, o nosso dever, a nossa obrigação. Ficava-nos bem perceber que nem sempre temos razão. O sermos capazes de dizer por favor, obrigada", nota. 

 

 

 

 

 

 

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