Até onde pudermos

Aveiro por um canudo

 

 

Ivar Corceiro*

 

 

 

Estou em casa fechado há alguns dias. É esquisita, esta sensação de que a Morte anda ali fora, a passear-se pelas ruas como um parolo domingueiro qualquer. Como eu, por exemplo, antes disto tudo acontecer.

 

E por falar em acontecer, acontece-me ser emigrante e não estar perto de quase ninguém. Nem da minha mãe, nem dos meus irmãos, nem da minha filha. Nem dos meus melhores amigos. Para além de alguns quase amigos com quem partilho um copo de vez em quando tenho a minha companheira, também ela sozinha porque também ela é emigrante. A rede acaba aí.

 

Foi ela quem comprou o pão e a manteiga do meu pequeno-almoço de hoje. Disse-me num determinado momento, não me lembro qual, que era uma boa altura para ir às compras porque havia pouca gente na ruas. E foi. E eu fiquei.

 

Nunca me tinha dado conta da importância que tem eu poder fazer torradas com café às nove da manhã e ficar à janela da cozinha sem grandes preocupações, sem pensar em nada que não nos meus próprios sonhos. Talvez seja esse o pior mal do vírus que assola o mundo por estes dias. Não é poder adoecer-nos e talvez matar-nos. É já o ter feito aos nossos sonhos.

 

As torradas ainda estão quentes e vou trincando-as lentamente. Lá fora, o Sol tenta espreitar a cidade onde vivo através de algumas abertas nas nuvens densas que viajam lentamente no céu. Sei que não é verdade, mas gosto de acreditar que ele está a tentar dizer-me Bom Dia só a mim. E então respondo: “Bom dia!”. Só a ele.

 

A janela da cozinha dá para o meu jardim das traseiras, que por sua vez comunica com os jardins das traseiras das outras casas contíguas. Uma vizinha estende alguma roupa colorida em cordas e outra brinca com um cão grande atirando-lhe uma espécie de disco voador de plástico. Ele abana a cauda e vai buscar o pequeno objecto vezes sem conta.

 

Há uma certa normalidade nesta manhã por causa deles, pessoas que não me conhecem muito para além dum casual Bom dia ou Boa noite quando por acaso nos cruzamos na rua, tão íntimo como o que acabei de dar ao Sol.

 

A minha companheira entra agora na cozinha e pergunta-me como estou. “Bom dia”, diz em búlgaro. Respondo na mesma moeda. Que estou a tentar abstraír-me de tudo, continuo. E ela repete os mesmos gestos de todos os dias, misturandos alguns frutos vermelhos com leite de amendoa mais um cereal qualquer que desconheço. Que está tudo bem, responde.

 

− Como é que está tudo bem?

 

E ela sorri. Diz que não estamos sós. Se ela ficar doente eu vou estar sempre com ela e se eu ficar doente ela vai estar sempre comigo. Podemos continuar, portanto, a tomar o pequeno-almoço todos os dias e a esperar que nossa Estrela nos venha cumprimentar de manhã mesmo, claro, que ela não nos venha cumprimentar de manhã.

 

O vento corre lá fora. Vejo-o a dançar com as primeiras folhas da Primavera. O disco da minha vizinha voa para o meu quintal e vou devolver-lho. Ela sorri e agradece-me com um gesto que eu devolvo. Igualzinho, penso.

 

Talvez seja só isto mesmo. Seguir a vida com aqueles que nos são próximos. Se eu olhar para o meu passado, a verdade é que nunca foi outra coisa.

 

Fiquem bem. Todos vocês. Estejam onde estiverem. Regressemos à normalidade, por favor, até onde pudermos.

 

 

* O Ivar Corceiro é um entre muitos aveirenses que vive fora do país. Escreve regularmente sobre esta experiência de ver “Aveiro por um canudo”

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