Carta aos meus amigos portugueses

 

Nataša Gološin

 

 

Pode parecer loucura à primeira vista, mas, de facto, há algumas coisas positivas sobre este vírus horrível, ou eu vejo-as, pelo menos.

 

Como alguns de vocês sabem, venho de um país que já não existe – a Jugoslávia. Eu vi-a ser destruída ao vivo, através de várias guerras, daquelas que despertam o pior das pessoas, fazendo com que os vizinhos de ontem se matassem hoje. Eu fiz os meus trabalhos de casa à luz das velas, aprendi matemática com uma das piores inflações da história mundial, tive aulas de condução quando era praticamente impossível comprar gasolina e a minha festa de finalista teve lugar debaixo do fogo das bombas da NATO. Sim, foi uma juventude bastante preenchida.

 

Há pouco mais de 10 anos, mudei-me para Portugal. Para uma pessoa vinda do estrangeiro, qualquer coisa dentro das fronteiras da União Europeia era vista como “terra prometida”. Se alguém me dissesse, na altura, que eu ia testemunhar outra vez as prateleiras vazias nos supermercados e todo o pânico no ar, aqui, agora, no século XXI, eu não teria acreditado. Esta nova situação é, de alguma maneira, similar àqueles anos que eu acabei de descrever.

 

Mas, em vez de as pessoas lutarem na guerra, temos os nossos corajosos médicos e staff hospitalar a lutar contra um inimigo invisível. As pessoas estão assustadas com as ameaças, umas mais realistas do que as outras, alguns grupos são extremamente frágeis, há uma sobrelotação de informação doentia, e chegámos ao ponto de termos de mudar alguns dos nossos hábitos, aqueles que nunca questionámos. Acreditem ou não, há algo de bom nesta situação. “Que raio há de bom nesta situação?”, talvez se perguntem.

Gostava de partilhar convosco algumas lições que aprendi com estes eventos menos felizes que podemos aplicar aos dias de hoje.

 

1. GRATIDÃO. Aprendemos a não tomar as coisas por garantidas e a ser mais gratos. Desde a banana ou a torrada que comemos ao pequeno-almoço, ao duche quente e, em última análise, a própria vida, por demasiadas vezes tomamos as coisas por garantidas. Apesar de eu pensar demasiado no facto de me restar determinado número de dias nesta Terra e de lhes querer dar um significado, todos os dias sou mimada com demasiadas escolhas e muitas (às vezes) inutilidades ao meu dispor. Agora é hora de pensar: do que preciso realmente? Ninguém vai às compras à procura de cortinas novas, roupas ou perfumes enquanto isto não acabar, certo? O que realmente e somente precisamos vem à superfície. E torna-se óbvio o que, no final das contas, apesar de nem ser assim tanto, por certo não estava garantido.

 

2. ADAPTABILIDADE. Aprendemos a adaptar-nos a novas circunstâncias. Como Stephen Hawking disse “inteligência é a capacidade de nos adaptarmos à mudança”. A adaptabilidade é uma capacidade fulcral para o século XXI, neste mundo de mudança tão rápida. Tal como, ao longo da história, algumas espécies aprenderam a adaptar-se e, com sucesso, sobreviveram. Esta lição, se a aprendermos bem, dá-nos o poder de ultrapassar as crises inevitáveis que viveremos no futuro.

 

3. PRIORIDADES. Aprendemos que não há nada que tenha de ser feito a qualquer preço e, por isso, voltamos a perguntar-nos o que realmente importa para nós. A lista, normalmente, reduz-se a saúde e relações pessoais de valor com aqueles que nos são próximos. De repente, todos aqueles festivais de música por que esperávamos, jogos de futebol e viagens entusiasmantes perdem a importância. No final das contas, parece que tudo pode ser cancelado ou adiado. E nós continuamos bem, continuamos a amar a nossa vida, mais do que tudo.

 

4. AMOR. Falando em prioridades, aprendemos a importância de mostrar amor. Quando pensamos nos piores cenários possíveis, uma das coisas que sempre queremos é que aqueles que amamos o saibam. Então, vamos dizer-lhes. Oh, por favor, não vamos esperar por outra catástrofe para o fazer.

 

5. SOLIDARIEDADE. Aprendemos a importância da solidariedade. Nem todos podemos contribuir com pesquisa científica na área da medicina e procurar uma vacina, mas há algo, por muito pequeno que seja, que qualquer um de nós pode fazer. Pergunta aos teus amigos como estão (no chat, online!). Vê como estão os teus vizinhos idosos. Leva o cão deles a passear ou vai às compras por eles. Partilha um par de luvas de borracha extra. Fala de uma varanda para a outra, pergunta como têm estado e conforta-os. Parece insignificante, mas, como sabes, se muitas “pequenas” pessoas, em muitos pequenos sítios, fizerem muitas pequenas coisas, bem, isso chama-se mudança.

 

6. AUTOCONHECIMENTO e, por isso, possível PROGRESSO. Vivemos todo e cada dia connosco mesmos e, ainda assim, podemos surpreender-nos com a forma como reagimos a momentos de crise, seja pânico, negação ou comportamento mais racional. Viver um momento como este é como uma experiência psicológica. Como Irvin Yalom disse “um confronto com a morte pode levar a uma mudança pessoal positiva”. Observa-te, aprende com esta nova situação e tira o melhor partido disso.

 

Oxalá não nos esqueçamos da importância das lições que aprendemos quando a pandemia acabar. Vamos deixar esta situação ajudar-nos a entender a nossa raison d’être. Porque, como Nietzsche uma vez disse, se tens um “porquê” para viver, aguentas quase qualquer “como”.

 

E, de qualquer forma, o que torna o coronavírus diferente de qualquer guerra, outra vez, é algo positivo. Ao menos desta vez, todos nós, toda a humanidade está do mesmo lado.

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Carla Freire Silva
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Carla Freire Silva

Linda por dentro e linda por fora, é isso mesmo, vamos á luta.Beijo enorme.

Helena Feio
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Helena Feio

Obrigada Nataša pelo testemunho. Um grande beijinho.