Crónica a partir de uma praia-cidade em calamidade pública

 

 

Temos cerca sanitária. Temos polícias nas entradas e saídas do concelho. Não temos comboios. Temos blocos de cimento em alguns acessos. Temos um hospital de campanha. Temos um gabinete de crise e linhas telefónicas em preparação para apoio social. Temos barcos em terra. Temos parques de campismo encerrados.

 

Temos preços inflacionados nos poderosos (e impiedosos) hipermercados. Temos comércio local imprescindível que leva as compras à porta de casa e não cobra taxa por isso. Temos mercearia com música de Johnny Cash e que só deixa entrar um cliente de cada vez. Temos gente que não nos tenta passar a perna.

Temos de estar isolados do resto do país. Temos de respeitar as indicações, as regras de higiene, o estado de emergência. Temos papel higiénico (uns mais do que outros). Temos restaurantes e cafés fechados. Temos farmácias abertas. Temos peixe fresco. Temos pão. Temos tapetes a secar nas varandas.

 

Temos o sino da capela dois minutos adiantados da hora certa. Temos gente com máscara. Temos ruas desertas. Temos praias vazias. Temos sol, temos Primavera, teremos Verão. Temos dúvidas. Temos medos. Temos cuidado. Temos juízo. Temos confiança. Temos fé (o que quer que isso signifique para cada um). E temos o mar”.

 

 

 

 

* Texto e fotos de Sara Dias Oliveira, jornalista da Notícias Magazine e habitante de Ovar, o município que tem vindo a causar maior preocupação (estado de calamidade pública).

 

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