Estamos em família

 

Cristiana Lopes*

 

 

Madrid, oitavo dia de quarentena. Às 20h00, os vizinhos foram todos à janela tocar o hino nacional e gritar “Viva Espanha”. Recuando um pouco no tempo: quando começaram a aparecer os primeiros casos de coronavírus no norte de Itália, parti para as minhas tão ansiadas férias na Ásia. Tínhamos ideia que era um risco, mas a Tailândia apresentava um número mínimo de casos, tomámos algumas precauções e não imaginávamos que pudesse alguma vez chegar a grandes proporções.

 

A meio das férias, recebi uma mensagem da minha gestora de recursos humanos: “por causa do coronavírus e por estares na Ásia, quando voltares para Madrid terás que trabalhar desde casa durante duas semanas, em quarentena.” Pensei: “ora bolas, espero bem que me aceitem a garota no infantário. Não vou poder trabalhar nada se ela também tiver que ficar em casa.”

 

Antes de voltar para Espanha, estivemos três dias em Singapura e ficámos surpreendidos com o controlo que por lá havia. Tinham menos de 200 casos em todo o país e não aceitavam turistas que tivessem estado há menos de 14 dias na China, na Coreia do Sul, no Irão ou no norte de Itália. Imagino que já devem ter ampliado essa lista. Mediram-nos a temperatura no aeroporto, na entrada para a biblioteca, para os centros comerciais e para o escritório da minha empresa. Para poder entrar num edifício de escritórios, tivemos que assinar uma declaração afirmando que não tínhamos qualquer sintoma. Aplicavam multas bem pesadas a quem não respeita a quarentena imposta pelo governo (por exemplo a quem tenha estado em contacto com alguém infetado) ou a quem mente sobre onde esteve nos últimos 14 dias. São rigorosos.

 

De volta a Espanha, deparei-me com as escolas fechadas. Lá tinha eu que trabalhar com uma bebé de 11 meses em casa. Os casos aumentavam exponencialmente a cada dia que passava: “então vim eu da Ásia para isto? Se calhar estava mais segura lá!”. Pelo menos mais “livre”. A nossa liberdade foi-se encurtando de dia para dia. Começaram por cancelar as aulas em todas as escolas, depois grandes eventos, depois ginásios, depois missas, depois restaurantes e bares, depois lojas e parques e quando demos por ela estávamos em estado de emergência. Sem poder sair para passear em família, para correr ou andar em bicicleta.

 

É o que temos e por uns pagam os outros, digo a mim mesma. Se todos tivessem obedecido às recomendações do governo em manter a distância, não frequentar bares ou esplanadas, talvez as coisas não tivessem que ser tão extremas, quem sabe. Mas sendo sincera, e vivendo num apartamento de 100 metros quadrados, sem varanda ou terraço, nem me sinto aprisionada. Entre a quantidade enorme de trabalho, a filha que começa a querer caminhar, o marido também em teletrabalho, os colegas que decidem tomar uma cerveja em videochamada, as reuniões com clientes na minha cozinha, os vizinhos que batem palmas às 20h00 e colocam música na varanda e atraem todas as crianças às janelas, encontramos meia hora ao dia para fazer exercício num tapete de yoga no meio da sala, fazemos todas as refeições em família e é isso. Estamos em família.

 

 

* Cristiana Lopes é natural da Gafanha da Nazaré. Viveu cinco anos no México e em 2018 mudou-se para Madrid. Casada com um mexicano, mãe de uma filha luso-mexicana e autora do livro “Millennials, Cidadãos do mundo – relatos da nova diáspora”.  

 

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