A segunda chance, não teremos outra!

 

 

José Carlos Mota

Docente da Universidade de Aveiro

 

 

Quando tudo isto terminar, quando a pandemia ficar controlada e o isolamento social não for mais necessário, não teremos à nossa espera um mundo novo, mais sustentável ou mais justo. Não passaremos a consumir de forma mais sensata, não vamos mudar o nosso padrão motorizado de deslocação e não passaremos a usar as ferramentas de teletrabalho de forma maciça, eliminando deslocações desnecessárias. O «dia seguinte» não será um renascimento em que todos os comportamentos irracionais desaparecem e surgirá uma nova ética ambiental, social ou urbana. Lamento muito, mas não me parece que seja essa a consequência imediata desta pandemia.

 

No entanto, há uma enorme lição que podemos retirar destas semanas de clausura. Pela primeira vez nas nossas vidas, ainda que obrigados, pudemos experimentar um «mundo novo», há muito desejado e anunciado, mas nunca ensaiado a esta escala.

 

Neste “mundo novo”, experimentámos novas formas de teletrabalho («A covid-19 matou o horário das nove às cinco», Expresso 05/04/2020), novos modelos síncronos e assíncronos de ensino à distância («O tempo da aprendizagem»), novas formas de partilha e colaboração entre cientistas, empresas e poder público visando o interesse coletivo («Covid mobiliza empresas e cientistas de todas as áreas» Expresso 04/4/2020 e «Empresas e investigadores mobilizam-se no combate à pandemia» Público 25/03/2020), novos produtos e serviços (COVID-19: soluções e tecnologias, ANI), novas respostas de proximidade do poder local («Autarquias reinventam-se e reforçam apoios para vencer a pandemia» Público 30/3/2020), novas formas de reorganização rápida de produção («Luís Onofre está a produzir máscaras» Público 27/03/2020 | «A Maria Modista está a coser protecções para os médicos» Público 27/03/2020), novas redes logísticas de distribuição de proximidade («Coimbra anuncia rede de distribuição de produtores locais» | «Faro vai criar sistema de entrega ao domicílio de produtos alimentares» Público 19/03/2020), novos serviços ao domicílio («Vinhos ao domicílio por todo o país?» Público 30/03/2020), novas formas de trabalho cívico através da via digital («Vizinhos de Aveiro unidos em plataformas digitais» Público 25/03/2020), novas formas de solidariedade («Isolado mas com vontade de ajudar?» SAPO 05/04/2020, «GrETUA lança campanha Porta à Porta» Aveiro Mag 15/03/2020, «Antes costuravam trajes das marchas populares mas agora fazem máscaras de protecção» Público 25/03/2020 e  «Food For Heroes: restaurantes entregam refeições gratuitas aos profissionais de saúde» Público 27/03/2020) e novas relações de vizinhança («Festival Varandas Solidário leva música, teatro e dança aos bairros portugueses» SIC Noticias 28/03/2020).

 

O que aqui refiro são só alguns exemplos do que foi possível fazer em Portugal em menos de 30 dias, mobilizando a energia cívica, empreendedora e institucional e os inúmeros recursos disponíveis, normalmente invisíveis, inativos e nem sempre valorizados.

 

Portanto, o que o isolamento social em resultado da pandemia COVID 19 nos permitiu foi experimentar um novo modelo de sociedade, mais inovador, mais solidário, mais colaborativo e mais horizontal. Um modelo que, em condições extremas, se revelou muito eficaz e possível. Quando tudo isto passar, podemos voltar a fazer tudo como antes e, provavelmente, será isso que irá ocorrer. Mas não tem de ser assim. Podemos aprender com o que fizemos e começar, aos poucos, a mudar os nossos objetivos e a forma como nos organizamos coletivamente, como nos mobilizamos por causas de interesse comum, como valorizamos o que somos e o que temos.

 

Esta será, pois, uma nova oportunidade de recomeçar e fazer melhor, de construir um país diferente e do qual nos orgulhemos de fazer parte. A segunda chance. Provavelmente, não teremos outra!

 

Ilustração da Carolina, a minha mãe!

 

 

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