Um amigo e um chocolate

Aveiro por um canudo

 

 

Ivar Corceiro*

 

 

Quando eu era criança abocanhava os doces. Sabia que depois ia ficar a olhar para os outros, aqueles que eram capazes de dosear as guloseimas, mas nunca aprendi eu próprio a fazê-lo. Tenho recordações vagas, mas várias, de tal me acontecer com o meu irmão quando a minha mãe fazia pudim ou mousse, assim como na escola primária quando por algum motivo se distribuíam doces aos alunos. No Natal, por exemplo, quando davam um pequeno saco com alguns chocolates às crianças, eu era sempre o primeiro a acabá-los.

 

Havia um rapaz em especial, a quem eu chamava o meu melhor amigo na escola, que gozava às vezes comigo por causa dessa minha incapacidade de dar trincas pequenas numa barra de chocolate. A verdade é que ele era provavelmente o melhor de todos a fazer os doces esperar. Nunca percebi como é que ele era capaz, mas era menino para andar com um chocolate a tarde toda comendo apenas um quadradinho espaçadamente.

 

Foi com ele que eu uma vez fugi da escola. Passámos a tarde toda como fugitivos nos antigos baloiços do parque e gastámos o dinheiro da senha para o almoço num saco para cada um com rebuçados baratos e alguns bombons. Ele pousou a porção dele no muro, foi baloiçar e só muito de vez em quando interrompia a brincadeira para adocicar a boca. Sentado no mesmo muro, eu fiquei a vê-lo a brincar e devorei imediatamente todas as minhas reservas para o dia.

 

Já passaram mais de quarenta anos desde essa tarde, talvez até mais um ou dois, e trago-a à tona da minha memória para a contar à minha companheira. É uma das formas que temos encontrado para nos entretermos em tempos de quarentena, partilhar um copo de vinho com histórias da nossa infância e juventude, as minhas em Portugal e as dela na Bulgária, numa altura em que não fazíamos ideia que um dia íamos viver na mesma casa numa desconhecida cidade inglesa.

 

Sem sabermos, e tentando aceitar como sorte a forma aleatória como a vida nos trouxe até aqui, percebemos agora que sempre tivemos algo em comum, mesmo vivendo em países que viviam à época em lados diferentes da cortina de ferro. Não controlávamos a forma como comíamos os doces. Fazemos um brinde, sorrimos. Choramos também um bocadinho, mas apenas por dentro.

 

Às vezes tenho esta impressão que nunca fui muito bom a dosear a própria vida. Gosto de a viver toda a cada dia que passa. Abocanho cada momento como se não houvesse amanhã e faço-o a todos os níveis. Talvez por isso nunca me tenha apaixonado por uma mulher que não fosse para sempre, talvez por isso nunca tenha aceitado amizades mornas e, assim que a vida no meu país deixou de me ser suficiente, parti de forma decidida para uma incerteza que veio a culminar neste preciso momento em que partilho histórias com ela.

 

Sim, é isso. Talvez cada pedacinho de tempo que vivemos seja o culminar de tudo o que fizemos antes. Talvez sejamos capazes de sorrir por fora e chorar por dentro porque os momentos felizes são também aqueles em que percebemos que o tempo não pára nunca e é isso que nos leva a querer abocanhá-lo como se fosse um chocolate com nozes e passas.

 

O meu melhor amigo desceu do baloiço quando o meu saco ficou vazio. Explicou-me que tinha visto um filme qualquer em que um soldado, que se perdera dos seus companheiros de guerra e se encontrava sozinho em território dominado pelo inimigo, se salvara por ter uma barra de chocolate no bolso que fora capaz de dosear durante longas horas até chegar a porto seguro. Depois abriu o saco dele e dividiu os doces dele comigo.

 

Nesse dia ficámos os dois no parque até longas horas da noite. A minha mãe assustou-se e pôs a polícia de Aveiro à minha procura pela cidade inteira, pensando que eu tinha sido raptado ou que outra qualquer fatalidade tinha acontecido.

 

Agora os nossos copos de vinho estão no fim. Há apenas um fundo na garrafa de 19 Crimes, um fantástico vinho autraliano que consumimos regularmente quando contamos as nossas histórias um ao outro, que dividimos irmamente pelos nossos dois copos. Fazemos um último brinde.

 

Nunca mais me esqueci desse meu melhor amigo dos tempos de infância, que entretanto já partiu desta vida devido a um acidente. De certa forma, foi ele que me ensinou que podemos tragar a vida toda duma vez sem o fazer ao tempo que passa e que essa vida pode ser apenas um amigo e um chocolate.

 

* O Ivar Corceiro é um entre muitos aveirenses que vive fora do país. Escreve regularmente sobre esta experiência de ver “Aveiro por um canudo”

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