É melhor pedir ou roubar?

Aveiro por um canudo

 

Ivar Corceiro*

 

Um dias destes a minha casa tremeu. É o que acontece sempre que há bombardeamentos. O impacto fez com que a porta da frente abrisse e por impulso fui para a rua, não fosse cair outra bomba exatamente no mesmo sítio.

 

Caminhei pela cidade quase deserta tentando escapar às bombas pesadas da tua ausência, transformando qualquer oportunidade num abrigo que me protegesse da saudade. Primeiro foi um homem que vendia gelados numa velha carrinha de rua, depois uma mulher que atirava repetidamente um velho brinquedo a um cão que parecia poder permanecer nesse jogo por toda a eternidade.

 

O homem vendeu os gelados todos, ligou a carrinha e afastou-se. O cão desistiu do jogo eterno e deitou-se na relva com a língua de fora, pelo que a mulher pegou-lhe ao colo e afastou-se também. Fiquei de novo exposto aos bombardeamentos, mas com um gelado numa mão e duas ou três lambidelas de um cão na outra.

 

A cidade inglesa onde vivo é assim em tempo de quarentena, quase deserta de tudo e depois tão cheia de saudades de ti, Aveiro. São essas as bombas das quais não consigo fugir.

 

É por isso que o meu último refúgio é sempre junto ao Trent & Mersey Canal, onde alguns barcos preguiçosos passam como se não tivessem destino certo. Lembram-me um bocadinho de ti, sabes? Deitei-me na relva, protegido pela sombra duma árvore, a vê-los como costumava fazer na Fonte Nova quando vivia em ti.

 

Um homem veio perguntar-me se eu tinha uns trocos que pudesse dispensar e dei-lhe as moedas todas que tinha no bolso. É um dos muito agarrados ao Pó de Macaco, uma droga sintética que está a consumir uma boa parte da sociedade inglesa. Destrói completamente o cérebro e torna a pessoas incapazes de fazer seja o que for. “Better to beg than…” e foi-se embora agradecido.

 

Ser bombardeado por saudades é isto. Todas as histórias vão dar a ti. Esta, por exemplo, lembrou-me o Francês, um homem que costumava andar a pedir pelas tuas ruas quando eu era criança e começava sempre o peditório da mesma forma: “É melhor pedir ou roubar?”. Depois ficava contente com qualquer coisa que lhe desses.

 

Um dia enchi-me de coragem e disse-lhe que as duas opções são más e que há uma melhor que é trabalhar. Coisas de criança que ainda não percebe a vida, sabes? Mesmo assim, dei-lhe vinte e cinco tostões e ele afastou-se agradecido repetindo um “É melhor pedir…”

 

Não sei bem o que se passa contigo. De certa forma somos um caso de Amor que acabou sem nunca acabar. Lembro-me todos os dias de ti mas nunca te telefono para saber como estás nem para te desejar boa sorte. O que vou sabendo é por terceiros mas finjo sempre que nem quero saber. É assim que funcionam os Amores Perdidos, nunca percebi muito bem porquê.

 

Esta semana, por exemplo, estive quase a fazê-lo, quando me disseram que te arrancaram algumas árvores como estas em cuja sombra me deito por estes lados, sem perceberem que ao fazê-lo arrancaram também mais um pouco da tua memória e do que sempre nos ligou. Mas não o fiz.

 

Ainda assim, enquanto estava deitado nessa sombra peguei no meu telemóvel para perceber exatamente qual a tua orientação e vi que um avião desenhava um traço de giz no céu na tua direção. Apeteceu-me estar nele. Que saibas que um dia destes vou visitar-te. Espero então que me reconheças e não finjas que nunca se passou nada entre nós. Espero reconhecer-te também.

 

 

* O Ivar Corceiro é um entre muitos aveirenses que vive fora do país. Escreve regularmente sobre esta experiência de ver “Aveiro por um canudo”

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