As histórias de “um miudinho alentejano” que cedo percebeu que era filho da Europa

 

 

Este fim de semana, o Teatro Aveirense realiza um ciclo de performances e conversas dedicadas à Europa. O espetáculo inaugural – Sr. Moedas – é um monólogo da companhia de teatro João Garcia Miguel, interpretado pela atriz Sara Ribeiro e inspirado nas visões de Carlos Moedas sobre a Europa e na sua experiência na Comissão Europeia. Depois do espetáculo, o ex-comissário europeu junta-se a Garcia Miguel, autor e encenador, para uma tertúlia sobre a construção do espetáculo, as suas histórias e as questões levantadas ao longo da atuação.

 

O desafio de criar esta peça partiu de uma companhia de teatro holandesa – a Mugmetdegoudentand (Mosquito do Dente Dourado) – e chegou às mãos de João Garcia Miguel por via da atriz e encenadora Joan Nederlof que, há cerca de quatro anos, criou e levou a palco um espetáculo inspirado na comissária europeia da Holanda. Uma performance “muito bem-recebida” e cujo forte impacto levou a artista holandesa a pensar na exportação do conceito. Foi assim que surgiram os convites a vários grupos de teatro europeus para, com base na experiência dos respetivos comissários e na visão dos seus povos, conceberem espetáculos semelhantes.

 

Antes de chegar ao Teatro Aveirense, Sr. Moedas passou por Lisboa, Holanda, Roménia, Itália e Letónia. João Garcia Miguel, que pôde assistir aos vários projetos em conjunto e observar as múltiplas visões sobre a União em diálogo e em confronto umas com as outras, reconhece que “a nossa [portuguesa] visão da Europa é mais humana, mais fantasiosa e sonhadora em comparação à forma crítica, jocosa e satírica com que países como a Holanda encaram a União Europeia” e isso reflete-se nas peças apresentadas. Por outro lado, há uma ideia base que, de certa forma, aproxima todos os europeus: “Todos gostávamos que a Europa fosse diferente, que fosse melhor”. Como não podia deixar de ser, outra das grandes diferenças entre as apresentações dos vários países advém dos testemunhos que lhes serviram de base.

 

 

 

João Garcia Miguel sabia que escrever a peça Sr. Moedas implicaria uma entrevista exaustiva a o comissário Carlos Moedas, mas, antes de viajar para Bruxelas, fez questão de se deslocar a Beja, onde Moedas nasceu, em 1970. O alentejano formou-se, mais tarde, em Lisboa, fez um ano de Erasmus em Paris e uma pós-graduação em Harvard, nos Estados Unidos da América. Tornou-se engenheiro civil, economista e político, tendo ocupado os cargos de secretário de Estado do primeiro Governo de Passos Coelho e comissário europeu entre 2014 e 2020. A integração portuguesa na União Europeia abriu-lhe portas, trouxe-lhe oportunidades e deu-lhe mundo.

 

Para João Garcia Miguel, o primeiro passou foi visitar os locais que serviram de palco para a infância de Moedas, falar com pessoas que dele guardam memórias e recolher testemunhos de antigos professores e colegas de escola. Tudo isto para tentar perceber de que forma as origens deste “miudinho alentejano” acabariam por marcar o seu trajeto de vida e a sua visão política. Foi, precisamente, através de um bejense, amigo de infância do comissário, que, já devidamente documentado, Garcia Miguel conseguiu chegar ao contacto com Carlos Moedas. Da tal entrevista resultariam várias páginas de histórias e ideias sobre aquilo que a Europa foi, é e pode vir a tornar-se, matéria fundamental para a conceção da peça.

 

Para públicos como o português que, na sua maioria, vive algo alheado das questões europeias, a criação de objetos artísticos sobre a União e a exploração dos principais desafios a que a Europa está sujeita todos os dias – como a crise migratória, o Brexit ou a atual pandemia – “ajudam a despertar a curiosidade e o interesse das pessoas”. “Sr. Moedas, mesmo não sendo uma peça didática, incentiva a discussão sobre estes temas”, acredita Garcia Miguel. Essas foram, aliás, preocupações do autor desde o início: incentivar o debate e propor a reflexão. “Tive de ler sobre a história da Europa e das instituições europeias e visitar os palcos de decisão europeus. Eu próprio ainda sou um desconhecedor da dimensão europeia em toda a sua plenitude”, reconhece João Garcia Miguel.

 

Se, por um lado, esta não é uma peça biográfica, a verdade é que Carlos e o Sr. Moedas têm mais em comum do que o apelido. “A história, a personalidade e as convicções do ex-comissário europeu estão vertidas na peça, mas esta acaba por incluir também as minhas visões pessoais, bem como episódios da história da Europa”, explica o autor e encenador. Mesmo assim, não há como negar que o apelido deste Sr. Moedas é, por si, “muito sugestivo” e, ao longo da peça, “acaba por poder ter várias leituras”. A mais óbvia remete o espectador para o ex-comissário, claro, mas há momentos do espetáculo em que pode indicar o pai de Carlos, o jornalista José Moedas, comunista convicto e fundador do Diário do Alentejo ou outros, por exemplo, em que serve de metáfora para o continente europeu, esse “senhor que nos dá moedinhas para nos manter contentes e, quando pára de dar, deixa-nos muito aborrecidos”.

 

Ainda no âmbito do Ciclo Europa, no dia seguinte à apresentação de Sr. Moedas, o Teatro Aveirense acolhe Canto da Europa – Leitura Encenada, um texto de Jacinto Lucas Pires, interpretado por Anabela Faustino, Ivo Alexandre e Paula Diogo, onde se canta um continente feito de confrontos de ideias, culturas e de épocas, olhando-o a partir de um dos seus cantos: Portugal. À semelhança do dia anterior, a este espetáculo seguir-se-á uma conversa entre Jacinto Lucas Pires e João Garcia Miguel, o primeiro em videoconferência, os autores farão um encontro das perspetivas de ambos sobre os seus textos e respetivas visões sobre os destinos do velho continente.

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