Tiago Lourenço: uma raquete, uma prancha e o sonho americano

 

 

 

Música ligada, auscultadores nos ouvidos e o nível de adrenalina a subir. Toca Eminem e um jogo de ténis está prestes a acontecer. O atleta, em campo, recebe orientações do treinador e o jogo começa. Esta talvez pudesse ser a reconstituição de um dos dias da vida de Tiago Lourenço, um jovem de 23 anos, natural de Santa Maria da Feira. Aos cinco anos de idade, o desporto dominou-lhe a paixão e foi o sonho de ser tenista profissional que o levou, tempos mais tarde, até aos Estados Unidos da América. Regressou a Portugal antes do auge da pandemia e por cá ficará nos próximos dois anos. Findada a última época de exames da licenciatura, abriu portas à Aveiro Mag, para dar a conhecer a pessoa, o percurso de vida e os projetos para o futuro.

 

O gosto pelo desporto faz-nos recuar no tempo. Com cinco anos de idade, o ténis já estava presente na sua vida. Aos sete, teria definido aquele que seria o principal fator a moldar-lhe o caminho: o sonho de ser jogador profissional. “Como os meus pais trabalham na área do desporto, eu sempre fui muito influenciado por eles. Até aos 10 anos de idade, acho que pratiquei uns oito ou nove desportos, mais ou menos. Pratiquei ciclismo, kickboxing, bodyboard, skate, futebol e ténis. Mas o ténis foi, de longe, aquele que sempre quis seguir e aquele em que eu era melhor. Por volta dos 6 ou 7 anos, já tinha intenções de ser jogador profissional de ténis. Desde os 13, treino de 4 a 5 horas por dia, todos os dias”.

 

Aos 17 anos, Tiago teve de tomar uma decisão: seguir o percurso académico ou dedicar-se ao ténis. O resultado foi uma simbiose entre as duas possibilidades. Aos 18, ruma aos Estados Unidos da América, por conta de uma bolsa de estudos que lhe foi oferecida. A instituição que o acolheu foi a Binghamton University e os quatro anos que se seguiram foram dedicados à licenciatura em Economia e ao ténis. “Tive algumas ofertas de bolsas e acabei por aceitar uma. Os Estados Unidos era o único sítio onde seria possível jogar ténis a um alto nível. E foi para onde fui jogar, na primeira divisão”, partilha.

 

Um ano antes da grande aventura, no final do ensino secundário, fez um gap year, o que lhe valeu a visita a diferentes universidades. Foi nessa altura que esteve, pela primeira vez, nos Estados Unidos da América. Assim que escolheu a universidade, seguiu-se o próximo passo: o processo de candidatura.“Foi um processo um bocado longo, com muita burocracia. Tive de fazer o ACT [exame de inglês para ingresso na universidade] duas ou três vezes e, cada vez que tinha de fazê-lo, tinha de ir a Sintra, porque era o sítio mais próximo onde podia ser feito esse exame – que demora perto de quatro horas”, conta. “Mas, embora tenha sido um longo caminho, foi mais fácil para mim, porque era atleta. E a ajuda do coach de lá e dos advisers também foi importante”.

 

Nova etapa, novos desafios

 

Chegado aos Estados Unidos da América, Binghamton passaria a ser a cidade na qual viveria os próximos quatro anos. Com a nova etapa, novos desafios surgiram. Passaria agora, entre outros fatores, a ter de se adaptar a uma nova cidade e à universidade que escolheu. No entanto, havia pelo menos um fator com o qual não havia de se preocupar: o idioma. “Do 10º ao 12º ano sempre fui muito bom aluno a inglês e sempre tive facilidade em falar. Mas é diferente ouvir inglês e falar inglês. Esta última parte foi a mais difícil, mas, depois de um ano a viver lá, uma pessoa adapta-se bem”, comenta.

 

Inicialmente, o que idealizou ser a cidade que o viria a acolher, não correspondera à realidade com que se deparou. “Eu sabia que Binghamton era no estado de Nova Iorque, portanto, eu achava que seria uma cidade enorme, como se vê nos filmes. Mas, na realidade, não foi bem assim. Binghamton era uma cidade pequena, com casas e prédios pequenos. Não se comparava à grandeza de que estava à espera no início”, partilha. 

 

A gestão do tempo dedicado ao ténis e à universidade, a alimentação, as saudades e o clima constituíram alguns dos obstáculos no processo de adaptação ao novo contexto. “Eu, cá, dedicava-me sempre muito ao ténis, e a escola era quase uma coisa à parte. Nos Estados Unidos, esta gestão foi difícil para mim, porque eu tinha um curso e tinha o ténis ao mesmo tempo. Foi bastante difícil conseguir fazer as duas coisas bem, sem deixar nenhuma parte para trás: nem os estudos nem o ténis”, afirma. 

 

“Outro aspeto difícil de lidar foi a comida, que é muito diferente da que se come cá. A comida de lá é pouco saudável, sempre cheia de molhos e muitos queijos. Quando vinha de lá, trazia mais três ou quatro quilos. Eu lembro-me que, às 9 da manhã de lá, a malta comia logo panquecas com chocolate e molhos, como mostarda e ketchup”. Qual a alternativa para o pequeno almoço? “Eu tentava sempre comer uma omelete, que era o mais simples que lá havia, e uns bagels com manteiga. E bebia água, muita água”. 

 

A saudade também exerceu a sua função no coração do jovem português. “Tive muitas saudades do mar. Para onde eu vim, o ponto mais perto do mar situava-se a três horas e meia de carro, o que é muito tempo. Eu não via o mar durante praticamente quatro meses e meio. Eu, cá, que moro a cinco minutos do mar e estou habituado a ir fazer bodyboard no verão – ou até em dezembro -, essa parte custou-me. Custou-me não só não ver a praia, como também o sol – porque lá o tempo é frio e neva. Cheguei a apanhar lá menos vinte e três graus”.

 

No que diz respeito à universidade, esta conseguiu surpreender as expectativas.“Foi melhor do que eu estava à espera. Não foi tão exigente como esperava, em termos de exames. O que eu noto é que, lá, tínhamos quase todos os dias coisas a fazer para as cadeiras, desde ler papers até aos trabalhos a fazer. É um ensino mais prático, o que sinto que é bom. Chegava à altura dos exames e não era necessário tanto tempo de estudo, porque tinha sido distribuído ao longo do semestre”, partilha.

 

Entre as lembranças positivas, destaca os colegas da equipa de ténis. “Aquilo é um sistema de recrutamento de atletas de todo o mundo. Temos atletas da América do Sul, do Norte da Ásia e da Europa. O nosso coach tenta ir buscar os melhores que encontra em cada parte do mundo”, explica. “Como estamos lá sozinhos, acabamos por ter uma união forte. Por isso, os meus colegas são, sem dúvida, a parte de que eu mais gostei de lá”. 

 

Por contraste, o clima e as saudades da família e dos amigos foram alguns dos fatores que não favoreceram a experiência universitária. “Do que eu menos gostei foi o tempo – porque estava sempre neve e chuva – e a distância dos meus amigos e da minha família. Enquanto caloiro, passei um ano um bocado difícil, porque não estava habituado a estar tanto tempo longe da minha família e dos meus amigos. Mas, com o passar do tempo, acabei por me habituar”.

 

Entre os campos de ténis e o mar

 

 

 

Ainda que, para Tiago, o ténis seja a modalidade de eleição, com a mudança do contexto em que a praticava, outros fatores mudaram também. Por exemplo, a sua relação com o treinador. “Lá, os coaches têm uma relação diferente com os atletas. Cá, nós temos uma relação mais amiga. Lá, é o nosso coach que nos dá a bolsa. Portanto, é quase como se fosse o nosso chefe e nós temos de fazer o que ele manda. Se ele nos diz que temos que jogar ténis de determinada maneira, temos de seguir essas indicações – mesmo que não seja essa a nossa forma de jogar. Isso deu origem a alguns conflitos entre ele e os atletas. Foi um bocado difícil, mas, com o passar dos anos, foi uma questão de hábito”, partilha

 

Uma outra diferença que destacou, diz respeito ao comportamento do treinador durante os jogos. “Foi estranho, lá, podermos ter o nosso treinador no campo, connosco. Cá, segundo as regras, isso não é permitido”, explica. “Foi estranho estar a jogar e ter o treinador a falar comigo. Tive de me habituar. No entanto, como tenista, ou se gosta ou se detesta – acho que não há um meio termo. Há tenistas que gostam de ter lá alguém sempre a falar com eles e há tenistas que detestam. Já ouvi atletas dizerem ao treinador para sair do campo, porque não conseguem estar a jogar com ele lá. No meu caso, eu gosto que me ajudem, mas não gosto que estejam sempre a falar comigo durante os pontos. Gosto de ter o meu espaço e a minha calma para pensar naquilo que tenho que fazer. Gosto que falem comigo entre os jogos – na troca de campo, por exemplo -, mas não entre os pontos, porque me faz um bocado de confusão”.

 

 

Assim que ingressou no ensino superior, os campeonatos universitários passaram a estar incluídos na nova rotina do atleta português. “Quando fui para lá, eu sabia que o nível era alto”, conta. “Por norma, há os maus, médios e maus jogadores. Mas lá não havia maus jogadores. São os melhores tenistas de todo o mundo. Joguei com jogadores de muitos países e achava que ia ter jogos mais fáceis. Mas não há jogos fáceis”. 

 

Com as novas exigências, a gestão do tempo voltou a ser motivo de reflexão. “Eu, cá, estava habituado a estudar para os testes ou para os exames uns dias antes da data marcada. Lá, foi impossível fazer isso. Imagina que eu tinha um exame num dia às dez da manhã e eu, nesse dia, tinha treino às sete. Se eu ficasse a estudar em casa até às duas da manhã, com treino às sete, era impossível fazer um bom treino, um bom exame e ter boas horas de sono – o que eu não tive. Quando não as tinha, isso refletia-se tanto nos exames como no ténis. Só no terceiro ano é que consegui começar a organizar-me melhor e a tirar bom proveito quer do ténis, quer dos exames e das aulas”.

 

A quarentena veio modificar a logística outrora estabelecida. Os treinos adquiriram novos formatos e outras modalidades assumiram o comando da manutenção da forma física. “Por causa do vírus, os nossos jogos foram todos adiados e, como este era o meu ultimo ano lá, vim embora mais cedo. Treinei menos, mas tentei manter a forma física – mais à base de treinos que não passassem necessariamente pelo ténis. Ía correr para a praia, andar um bocado de skate e pratiquei bodyboard. Só não tive foi muito tempo para fazê-lo como gostava, porque estive em época de exames. Foi mais uma época de estudo do que uma época de treinos”.

 

 

Este foi o pretexto ideal para darmos um salto na conversa e desviar o rumo para os hobbies que o completam. Para além do skate, um deles é o bodyboard. “Comecei a fazer bodyboard – com uma prancha de esponja – quando fui de férias para o sul de Espanha, com os meus pais e com uns amigos nossos. Gostei tanto que, uns tempos mais tarde, comprei uma prancha e um fato melhores. Desde os seis ou sete anos que faço bodyboard no verão”. 

 

Hoje, o mar traz-lhe o motivo ideal para pensar sobre o futuro e aperfeiçoar as técnicas que a modalidade envolve. “No mar, penso sobre o que vou fazer num futuro próximo. Há vezes em que estou quatro ou cinco minutos à espera que uma onda venha e isso ajuda-me a relaxar e a pensar na vida. É das coisas mais relaxantes que há – o que é irónico, porque é um desporto radical”, comenta. “Claro que o que eu penso agora não é o que eu pensava há dez anos atrás. Isso vai-se adaptando com a idade. Nestes últimos cinco anos, quando faço bodyboard, penso no que vou fazer daqui a alguns anos. Mas penso também no truque que vou fazer na próxima onda”.

 

A sua grande influência é o tenista Roger Federer. Porém, para além do desporto, muitos são os seus ídolos musicais. Assume que cada momento requer um tipo de música e a sua escolha deve ser adaptada a cada contexto. “Oiço música antes dos jogos de ténis e antes de ir fazer bodyboard. Gosto muito dos Queen, desde sempre. Oiço também Michael Jackson, Bob Marley e Justin Timberlake. No geral, gosto muito de música mais antiga. Quando sou eu a pôr músicas no carro, os meus amigos dizem que eu só escolho músicas antigas. Para mim, uma música recente não tem de ser melhor do que uma música mais antiga. Não ouço música com base na antiguidade, mas com base no que gosto”, afirma de sorriso esboçado no rosto. 

 

Se tivesse de escolher uma música para ouvir antes de um jogo, a escolha incidiria num tema de Eminem. ”Ouço música mais forte antes dos jogos, para me dar a adrenalina e a confiança que preciso”. Por contraste, se se tratasse de uma viagem de avião, a escolha seria diferente. “Nas viagens de avião ouço música calma: um misto de pop com reggae. O Richie Campbell é um bom exemplo para esses momentos”.

 

O “sumo” das vivências e o futuro

 

Dos quatro anos que passou em Binghamton, acumulou um sem número de lembranças, algumas das quais recordou em conversa. “Dos EUA, trago as recordações dos momentos e das viagens que fiz com os meus colegas. Por exemplo, no semestre da Primavera, nós tínhamos jogos quase todos os fins de semana. As viagens eram feitas de carro ou numa carrinha e demoravam entre quatro a dez horas: foi assim que conhecemos Chicago, Western Michigan, Buffalo e Boston”.

 

“Durante o tempo que lá estive, fui a muitos sítios e cidades, não muito distantes de Nova Iorque. Num raio de dez horas de carro, fui a todos os lados, quase. Lembro isto com alguma nostalgia”, partilha. Dessas descobertas, Chicago e Boston foram as cidades que mais o marcaram. “Gostei de Boston por ser uma cidade muito voltada para o desporto, com muitos estádios. De Chicago, gostei do facto de ser uma versão de Nova Iorque e Manhattan mais limpa, calma, com menos ruído, menos lixo e com muita história”.

 

O futuro está pensado e passará por dar um passo em frente no percurso académico. “Gostava de tirar o mestrado em Gestão, na Universidade Nova de Lisboa. Depois disso, gostava de ir trabalhar para o estrangeiro, na minha área, e de estar na gestão de uma empresa”. A par desta certeza, reafirma uma convicção: “Eu fui para os EUA com o intuito de ser jogador de ténis, mas saí de lá com o intuito de seguir o meu curso como prioridade. E acho que foi uma boa escolha”.

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1 Comment

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    Mariana Tavares
    8 de Julho, 2020

    Bem verdade, foi meu namorado no seu 2 ano da faculdade. Impossível a relação ter resultado a tanta distância, gostava tanto dele… Sê feliz agora, voa Piqui!

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