Há um roteiro para cumprir em Ílhavo inteiramente dedicado à Arte Nova

 

 

Nos primeiros anos do século XX, a Europa vivia um período de paz, otimismo e progresso. Foi neste contexto que surgiu a Arte Nova, um movimento artístico, com maior expressão nas áreas da arquitetura e do design, que se distinguia pela sua estética arrojada, cores vivas e linhas sinuosas, pela exaltação da figura feminina e por uma clara inspiração na natureza – a graciosidade dos animais, a fluidez das ondas ou a sensualidade das flores.

A Portugal, o movimento da Arte Nova chegou com alguns anos de atraso. Ainda assim, por uma feliz coincidência, Aveiro acabou por ser a cidade do país onde esta corrente se implantou melhor e, a seu tempo, também Ílhavo abraçou aquele espírito de novidade e glória, construindo um núcleo de habitações bastante interessante.

Neste roteiro, propomos-lhe um percurso que o leva à descoberta de algumas dessas casas.

 

 

Vila Marítima

 

Propomos que comece este roteiro na Rua Domingos Ferreira Pinto Basto, no eixo correspondente à antiga Estrada Nacional 109, ligeiramente a norte do entroncamento onde este se encontra com a Rua da Chousa Velha.

 

Nos números 90 a 94, surge a Vila Marítima, com o seu belo painel de azulejos onde figura um lugre de três mastros, homenagem à vocação marítima das gentes ilhavenses e à faina da pesca do bacalhau.

 

No que a esta residência diz respeito, há vários registos que dão conta de a fachada original ter sido rica em azulejaria, o que, atualmente, já não se verifica, restando apenas uns modestos frisos; outras fontes realçam o trabalho em ferro forjado dos varandins do primeiro piso do edifício, estruturas essas que, infelizmente, com o tempo, foram retiradas.

 

Ruínas da Vila Cecílio

 

Cerca de 200 metros a norte, dará de caras com as ruínas da Vila Cecílio. Outrora bela e imponente, esta moradia terá sido mandada construir por Custódio Cecílio, em 1906, o que faz dela a mais antiga manifestação de Arte Nova na cidade de Ílhavo.

 

Apesar de se encontrar em avançado estado de degradação, há vários traços daquele movimento artístico que resistiram ao tempo: o painel de azulejos com uma embarcação de pesca e no qual ainda se pode ler “Vila Cecílio”; a moldura das janelas onde figuram conchas e outros ornamentos de inspiração marítima e o gradeamento da varanda onde se distingue uma borboleta em ferro forjado.

 

Façamos figas para que, tão brevemente quanto possível, surja um projeto de reabilitação capaz de dar futuro a esta incontornável herança da Arte Nova ilhavense.

 

Vilas Papoila

 

Ainda na mesma rua, um pouco mais à frente, encontram-se as “irmãs” Papoila. Datadas de 1933, as Vilas Papoila Magano e Papoila Cruz, com os seus faustosos azulejos policromáticos floridos, são, provavelmente, os mais exuberantes exemplares de Arte Nova da cidade.

 

Desafie-se a um jogo das diferenças: compare formas, cores, pormenores decorativos e, acima de tudo, deixe-se deslumbrar pela luminosidade dourada e pela vibração dos azuis e lilases que estas habitações vizinhas refletem.

 

 

Casa da Rua Ferreira Gordo

 

Entre a cantaria lavrada, o ferro modelado em forma de vegetação ou os coloridos padrões florais em azulejo, não há, nesta pequena casa da Rua Ferreira Gordo, um elemento que se destaque em prejuízo dos outros. Pelo contrário, nesta edificação, todas estas artes convivem em harmonia, um equilíbrio revelador da capacidade, talento e bom gosto do arquiteto que a projetou.

 

Sublinhe-se ainda os dois conjuntos de altas janelas geminadas e emolduradas por elegantes grinaldas esculpidas na pedra calcária, no primeiro andar, e o janelão em meia lua arredondada com a sua proteção em ferro forjado, no rés-do-chão.

 

A casa da Rua Ferreira Gordo também já é centenária. Foi mandada construir por Jeremias São Marcos e, ao que a imprensa local registou, por volta de 1911, estaria prestes a ser concluída.

 

 

Casa da Rua Serpa Pinto

 

Aproveite para dar um saltinho ao largo da igreja matriz de Ílhavo, no topo da Rua Serpa Pinto. Por lá, encontrará um belo edifício cor de vinho, volumoso e curvilíneo, no qual se realça a varanda de ferro forjado e o torreão com parapeito dentado.

 

 

Retrosaria “A Tricana”

 

Voltando um pouco atrás, na Rua Arcebispo Pereira Bilhano, em frente à Farmácia Senos, encontra o edifício da retrosaria “A Tricana”, o mais antigo estabelecimento comercial em atividade contínua na cidade de Ílhavo.

 

Na fachada d’A Tricana, além dos varandins de ferro forjado e da cimalha de azulejos lilases e verdes com motivos florais, tenha em especial atenção os painéis de azulejos azuis e brancos que celebram a identidade ilhavense nas figuras de um pescador e de uma tricana, na memória da antiga Capela das Almas e nas imagens do farol da Barra e do farolim do Forte da Barra, na Gafanha da Nazaré.

 

 

 

Vila Vieira

 

De volta à Praça da República, atravesse o centro de Ílhavo seguindo o traçado da antiga Estrada Nacional 109. Depois de cruzar a Avenida 25 de abril, e fazendo um ligeiro desvio à esquerda para a Rua Frederico Cerveira, vai encontrar, no número 23, um dos mais vistosos edifícios de Arte Nova em Ílhavo: a Vila Vieira. Construído nos anos de 1930, este edifício terá servido de habitação a João Fernandes Vieira, figura da sociedade ilhavense e vereador da câmara municipal por alguns anos.

 

Nesta residência, onde reina a simetria, os airosos janelões, a ampla varanda (e as suas colunas), os frisos de azulejo com motivos florais, os belos cestos de flores que pendem da cimalha e, claro, o rosa vivaço que dá cor à fachada, são os elementos que mais se evidenciam.

 

Pela nobreza do edifício, pelo seu valor cultural, estético e pela sua localização central na cidade, a Vila Vieira foi adquirida pela câmara municipal de Ílhavo no ano 2000 para, terminadas profundas obras de reabilitação, passar a albergar os serviços da junta de freguesia de São Salvador.

 

 

Número 19 da Rua Vasco da Gama

 

No número 19 da Rua Vasco da Gama, o grande protagonista é o ferro trabalhado em harmoniosos arabescos e decorado com pequenas flores douradas no gradeamento, no portão e nas guardas das janelas. Outro elemento característico do estilo Arte Nova é o friso de azulejos que se pode ver no primeiro andar. Todo o conjunto desta moradia consegue um eficaz equilíbrio entre elegância e austeridade o que, só por si, já justifica uma paragem.

 

 

Antigo Salão Cinema – o “Texas”

 

Mesmo em frente à casa do número 19, do outro lado da estrada, apresenta-se o edifício do antigo Salão Cinema de Ílhavo, também conhecido por cinema do Alto Bandeira ou, simplesmente, “Texas”.

 

Inaugurada em abril de 1927, esta foi a principal sala de espetáculos da cidade de Ílhavo durante várias décadas.

 

O “Texas” viria a fechar portas em meados da década de 1980. Desde aí, aquele espaço vive somente na memória dos que tiveram a oportunidade de o conhecer. Enquanto não há uma decisão quanto ao futuro destas instalações, resta-nos apreciar-lhe a fachada rosa suave de linhas ondulantes e grinaldas delicadamente esculpidas.

 

 

Número 35 da Rua Vasco da Gama

No número 35 da Rua Vasco da Gama, a ênfase vai toda para as cantarias calcárias com as chamadas “linhas de chicote” – curvas violentas, fluídas e ritmadas, muito características da Arte Nova – nelas esculpidas.

 

A fachada, originalmente verde, foi recentemente pintada de rosa, no âmbito de uma empreitada de requalificação que aquela moradia sofreu. De notar, ainda, o pormenor dos finos frisos de azulejo azul e branco que correm sobre as cantarias, bem como o painel junto à entrada, onde figura o farolim do Forte da Barra.

 

 

Vila Africana

 

Construída entre 1911 e 1917, a mando de José Vaz, esta habitação, que está classificada como Imóvel de Interesse Público desde 2014, é, provavelmente, o mais icónico edifício de Arte Nova em Ílhavo.

 

Nesta casa, há um mundo de pormenores para descobrir. Na fachada predominantemente amarela poderá observar um jogo de planos e formas orgânicas, pedra trabalhada com grande perfeição e vistosos azulejos. A entrada é feita através de umas escadas de duplo lanço, no cimo das quais existe um pequeno alpendre suportado por colunas abundantemente decoradas. Um friso de azulejos de motivos florais percorre todo o edifício.

 

A porta oval do piso térreo relaciona-se com a janela superior, decorada por elementos de inspiração natural, sobre a qual, um painel de azulejo envolto por folhagem, exibe a designação da casa: Vila Africana.

 

 

 

Casa dos Cestos

 

Finalmente, quase a chegar às Ribas, na acentuada curva onde nasce a Rua do Cabecinho, ergue-se a Casa dos Cestos. Não se sabe ao certo em que ano foi construída ou quem a terá projetado, no entanto, uma coisa é certa: esta monumental habitação é um notável exemplo da exuberância do estilo Arte Nova.

 

Entre os diversos elementos deste estilo artístico que podem ser observados nesta habitação, destacam-se os frisos de azulejos, os ornamentos em estuque branco, as molduras das janelas e os cestinhos de flores que decoram a torre da casa. É daí, aliás, que vem o nome “Casa dos Cestos”.

 

Toda a propriedade – a casa, os jardins e o muro envolvente – é monumento de interesse público desde 2013 e, neste momento, encontra-se em fase de restauro.

 

 

Vilas Maia e Paradela

 

Apesar de ligeiramente deslocadas do percurso proposto, não podemos deixar de aconselhar uma passagem pela Vila Maia e pela Vila Paradela, ambas na Rua de Cimo de Vila.

 

A Vila Maia, contígua à capela da Senhora do Pranto, é deveras semelhante à casa da Rua Ferreira Gordo. Com data de 1924, é prova que o gosto pela Arte Nova perdurou, em Ílhavo, até bastante tarde, ainda que repetindo modelos e soluções.

 

Mesmo ao lado, surge a Vila Paradela. Mandada construir por António da Rocha Agra, tudo indica que em 1910 já estivesse concluída. Trata-se de um interessante edifício, do qual sobressaem a entrada alpendrada e a mansarda. Merecem especial cuidado o preciosismo da cantaria – onde saltam à vista duas cabeças de leão -, os frisos de azulejo – com apontamentos florais e marítimos -, e os ferros – principalmente, no portão principal.

 

No fim, se ainda tiver tempo, desça a Rua Arcebispo Pereira Bilhano até à Praça da República. Ao longo desta antiga rua poderá apreciar alguns exemplares de Arte Nova de construção mais tardia, menor dimensão e maior discrição, mas nem por isso menos interessantes. Procure os números 152 e 154, 101 e 103 e 97 e 99.

 

*fotos de Afonso Ré Lau

 

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