Teve pouco de colónia, nunca chegou a ser agrícola e arrisca-se a perder a memória

 

No próximo dia 31 de outubro, o artista Mário Ferreira de Almeida vai orientar uma visita à antiga Colónia Agrícola da Gafanha. Esta é mais uma sessão do ciclo “Olhar por Dentro”, organizado pelo 23 Milhas e pela empresa portuense Talkie-walkie, que, todos os meses, propõe um itinerário de divulgação da arquitetura do concelho de Ílhavo, com visitas interpretativas a edifícios, lugares ou obras, sempre guiadas por um especialista convidado.

 

Mário Ferreira de Almeida não vem de uma família de colonos, mas enquanto “vizinho” da antiga Colónia Agrícola da Gafanha, há questões relativas àquele lugar que sempre o inquietaram. “Ao passar ali, via aquelas casas todas iguais e não percebia porquê”, recorda, em entrevista à Aveiro Mag. Esta curiosidade sobre a arquitetura daquelas casas, a sua origem e a sua evolução ao longo dos tempos levou-o a dedicar a sua investigação académica àquele território e a tê-lo como objeto de estudo no âmbito do seu mestrado em Práticas Artísticas Contemporâneas e, mais tarde, do seu doutoramento em Arte Digital.

 

Neste “Olhar por Dentro”, o artista promete expor o seu olhar sobre a colónia agrícola, interpretando os pressupostos do projeto que lhe deu origem e partilhando a sua visão sobre o seu potencial.

 

 

Um “projeto falhado”

 

A Colónia Agrícola da Gafanha foi criada há cerca de 70 anos, pelo Estado Novo, no âmbito da política de reestruturação agrária conduzida pela Junta de Colonização Interna que visava tornar cultiváveis extensas áreas de terreno baldio.

 

Recortaram-se, redesenharam-se e dividiram-se aquelas terras entre a Gafanha de Aquém e a Gafanha da Encarnação e, a cada família de colonos, foi atribuído um “casal agrícola” (formado por uma casa de habitação, dependências adequadas à prática agrícola e cerca de três hectares de área de lavoura). Havia uma escola, uma capela, um salão de convívio e outras valências para serventia da colónia. O Estado fornecia ainda as alfaias agrícolas, sementes e a uma vaca para dar leite e ajudar no cultivo da terra. Como contrapartida, os colonos tinham de se dedicar ao cultivo de trigo, milho e batata, pagando ao Estado um sexto das colheitas. Os terrenos eram entregues aos colonos a título provisório, sendo que só mais tarde, e caso cumprissem o acordo com o Estado, ser-lhes-ia reconhecido o pleno direito sobre a sua posse.

 

Contudo, a Colónia Agrícola da Gafanha “nunca foi verdadeiramente uma colónia”, repara Ferreira de Almeida. Dos quase 80 casais construídos, só cerca de 20 chegariam a ser ocupados. As condições adversas do território desmobilizaram muitos agricultores, desincentivando a sua fixação. “Houve colonos que foram embora passados poucos dias”, conta-se.

 

Cedo se percebeu que, na prática, a exploração agrícola dificilmente poderia prosperar naquele local e, assim, seria quase impossível atingir os objetivos iniciais do projeto. “Implementaram uma colónia com o intuito de se dedicar à exploração agrícola, sem se preocuparem se o terreno era bom ou mau ou se as condições do local estragavam as culturas”, reconhece Ferreira de Almeida. Recorde-se que a antiga Colónia Agrícola da Gafanha está implementada em terrenos de origem dunar que, por serem pobres, obrigavam à utilização de grandes quantidades de adubos. Além disso, o facto de estarem a poucos quilómetros do mar e de vários canais da ria, faz com que se apresentem irremediavelmente salgados, o que também pode ter contribuído para o insucesso da exploração agrícola no local.

 

Como se tudo isto não bastasse, o compromisso assumido para com o Estado obrigava os colonos a viver quase em isolamento uma vez que, ao contrário do que acontecia nas povoações do interior do país de onde eram provenientes e onde as habitações estão concentradas em pequenos núcleos de grande proximidade, “à época, na Gafanha, as casas eram muito dispersas” e isso favorecia a ostracização dos colonos.

 

Alguns acabariam por regressar às suas terras de origem e muitos dos que ficaram, acabariam por enveredar por outros ramos de atividade – ligados ao porto comercial ou à pesca, por exemplo – que lhes permitissem viver sem depender da agricultura.

 

 

Memórias que estão a perder-se

 

Com o iminente desaparecimento dos primeiros colonos, a memória do que foi a Colónia Agrícola da Gafanha começa a depender cada vez mais da capacidade de preservação e valorização do património edificado, ou seja, dos casais agrícolas.

 

No entanto, aquele conjunto de casas que, à semelhança de outras antigas colónias agrícolas pelo país, podia vir a constituir uma espécie de museu ao ar livre, parece estar condenado a uma degradação irreversível.

 

Aquando da construção, o projeto arquitetónico – se é que podemos chamar-lhe assim; Ferreira de Almeida refere-se a uma “arquitetura sem arquitetura” – era igual para todos os casais agrícolas: “casas com um arco onde ficava o celeiro; contíguo a esse arco, o estábulo da vaca; a cozinha era logo ao lado; havia dois quartos e uma casa de banho”.  Simples.

 

À medida que os anos passaram, as autoridades foram fechando os olhos e, “à revelia da lei, sem respeitar o projeto inicial, os colonos e as suas famílias foram fazendo obras e alterações indevidas às casas”. Estas empreitadas individualizadas acabaram por descaracterizar as habitações e, hoje em dia, “já não resta nenhuma casa fiel ao projeto inicial”, garante Ferreira de Almeida.

 

Há alterações de várias naturezas, umas mais discretas, outras mais profundas, mas as mais comuns são consequência direta do abandono da atividade agrícola, do aumento do agregado familiar e da procura por melhores condições. “[Os colonos] deixaram de precisar de armazenar cereais e deixaram de ter animais e esses espaços [o celeiro e o estábulo] começaram a ser adaptados para novos compartimentos das habitações, como salas ou quartos”, explica o artista.

 

Ferreira de Almeida é da opinião que “aquele lugar podia ser uma zona de referência se conservasse a memória arquitetónica do Estado Novo”. Ao invés disso, “tem crescido de forma desorganizada”. Do ponto de vista do artista, “a colónia [agrícola] tem sido encarada como uma dispensa [no sentido em que as coisas vão sendo arrumadas à medida que é necessário].

 

Concretamente, equipamentos como o Parque de Campismo ou as Piscinas Municipais, a Quinta Pedagógica do CASCI, o santuário de Schoenstatt ou os complexos desportivos do Grupo Desportivo da Gafanha ou do NEGE foram aparecendo sem um planeamento consistente. E, para Ferreira de Almeida, “[estes equipamentos] até podiam lá estar, mas num contexto completamente diferente, enquadrados num plano geral lógico, coerente e estruturado”.

 

 

*Foto: Afonso Ré Lau

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1 Comment

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    Manuel Assunção
    28 de Outubro, 2020

    A visita desse artista prevê audições pessoais que lhe transmitam parte das coisas antagónicas a que chegou a incompetência de quem manda, dos chamados acertos convenientes em flagrantes injustiças já do conhecimento dos órgãos estatais mas sem qualquer resolução’ Enfim um desfiar de coisas que darão certamente pano para mangas sobre o descalabro que é a dita ex-colónia, pois hoje já nem esse nome tem tendo sido substituído por Senhora dos Campos. Nunca contactei com V. Excia nem com o artista, fiz só um comentá no site com a fotografia da ex-colónia agrícola da ganha que nem era da Nazaré nem da Encarnação nem mas sim na área de S. Salvador, a divisão pelas Gafanhas, foi mais uma habilidade da CMI, à revelia do conhecimento de quem ali habitava.

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