Rita Capucho: Pode o cinema mudar o mundo?

 

 

Na semana em que se celebra o Dia Mundial do Cinema, a Aveiro Mag foi conhecer a história de Rita Capucho, promotora e programadora cultural com raízes em Ílhavo e um percurso ligado ao cinema e à promoção dos direitos das mulheres e da igualdade de género através da sétima arte.

 

Rita licenciou-se em Estudos Artísticos, a mesma área na qual, mais tarde, viria a fazer o seu mestrado, especializando-se em Estudos Fílmicos e da Imagem. Durante nove anos, esteve ligada ao Cine-Clube de Avanca, onde fundou a Conferência Internacional AVANCA | CINEMA; foi responsável pela programação do cinema do Dolce Vita Ovar, das “Quintas de Cinema”, no Cineteatro de Estarreja, e d’“Os Filmes das Nossas Terças”, no Teatro Aveirense; em 2018, ajudou a criar o Porto Femme, um festival internacional de cinema no feminino do qual é co-diretora; recentemente, tem estado a braços com projetos de promoção de uma sociedade mais inclusiva através do cinema, iniciativas que sonha ver concretizadas em breve.

 

Rita Capucho cresceu em Ílhavo e é lá que reside ainda hoje. O cinema sempre fez parte de si, mas houve alguém cuja presença atenta e influência foram fundamentais para que aquele passatempo recreativo se tornasse objeto de estudo, instrumento de trabalho e paixão de uma vida.

 

Fala-se de Reinaldo Topete, intelectual ilhavense, professor de História e figura assídua nos cafés da cidade, que desde cedo demonstrou curiosidade de conhecer Rita e o seu grupo de amigos. “O Reinaldo gostava de saber quem nós éramos, o que fazíamos, o que pensávamos e deve ter visto alguma coisa de especial em mim”. Rita, por sua vez, via-o como uma individualidade inspiradora e com quem assume ter aprendido bastante. Lembra com especial carinho “as sessões de cinema, as dicas de leitura e as longas conversas” que partilharam. Topete “contava histórias de uma forma apaixonante. Era fantástico ouvi-lo a narrar um episódio histórico com o seu humor, sarcasmo e frontalidade”, recorda.

 

Quando Reinaldo faleceu, no início de 2020, a programadora cultural via partir não só um importante mentor, mas principalmente um amigo interessado, alguém que a ajudara a abrir horizontes, a aperfeiçoar o seu sentido crítico e a afinar a sua sensibilidade estética e para quem era cada vez mais difícil esconder o orgulho que sentia pelo percurso de Rita.

 

Mas se, por um lado, Ílhavo representa este afeto e inspiração – é a terra dos seus entes queridos, palco de memórias que a edificaram e berço de amizades que preserva até hoje –, por outro, a cidade foi (e, de certa forma, continua a ser) sinónimo de uma constante resistência.

 

“Ílhavo é um meio muito pequeno e observador” e, como tal, acaba por “condicionar as liberdades”, principalmente quando se é “uma jovem rebelde, que pinta o cabelo de roxo”, explica Rita. Numa “comunidade que encara os comportamentos das mulheres de uma forma tão castradora”, a programadora admite ter demorado a encontrar o seu espaço.

 

Rita recorda que, principalmente durante a adolescência, não foi tarefa fácil abstrair-se dos olhares de soslaio ou dos dedos que apontavam para si, tentando limitar-lhe as ideias, censurar-lhe as vontades ou regular-lhe as opiniões. Ainda assim, quem quer que tenha tentado impor-lhe a identidade “dócil, frágil e servil” que se exigia a uma mulher, teve pouca sorte: estes adjetivos nunca encaixaram na sua personalidade e Rita cresceria orgulhosamente rebelde, de alma inquieta, coração romântico e vocação feminista.

 

Nas comunidades ligadas ao mar e à pesca (como Ílhavo), durante muitas décadas foi comum o homem ser uma figura mais ausente. Era a mulher que assumia o papel mais marcante na educação dos filhos, na gestão do lar e na definição da comunidade. É provável que isto também tenha influenciado Rita no percurso pessoal e profissional que viria a traçar. “Na minha vida, a maior parte das minhas referências são mulheres e isso reflete-se em várias coisas, até nas minhas relações profissionais. Gosto muito de trabalhar com mulheres”, assume.

 

Foi, aliás, entre mulheres – concretamente, na esfera da associação cultural XX Element Project – que surgiu o Porto Femme, um festival internacional de cinema no feminino, que celebra as mulheres cineastas, divulga as suas obras e serve de plataforma de informação, discussão e consciencialização para as questões sociais e políticas com que as mulheres se deparam um pouco por todo o mundo. Rita Capucho é codiretora.

 

Só este ano, naquela que foi a 3.ª edição do evento, o Porto Femme contou com um programa de 127 filmes provenientes de 39 países, reforçando a sua missão enquanto veículo promotor de uma maior visibilidade para o cinema no feminino e para o empoderamento da mulher.

 

Além do Porto Femme e das Femme Sessions – ciclos temáticos itinerantes de filmes realizados por mulheres – Rita tem-se dedicado a outros projetos que põem o cinema ao serviço do desenvolvimento comunitário e da promoção da inclusão. “Sinto cada vez mais que a ação que posso exercer na comunidade é importante para provocar mudança de mentalidades, [incentivando a] uma maior recetividade ao outro e ao que é diferente”, avalia.

 

Exemplos disso são os projetos “Clarabóia – um pequeno fragmento de cinema por entre muros”, que leva cinema às reclusas do estabelecimento prisional de Santa Cruz do Bispo; “AbrigArt”, um programa de inclusão pelas artes para ser trabalhado em casas de abrigo de mulheres vítimas de violência doméstica; e “Cinamiza-te”, pensado para ser implementado em escolas e dedicado a temáticas como a inclusão, a igualdade de género ou a violência no namoro.

 

 

 

Para que o feminismo se cumpra “ainda há mudanças que precisam de acontecer na lei”, considera Rita, tomando como exemplo um caso português relativamente recente: “Até ao ano passado, quando um casal se divorciava tinha de cumprir um prazo internupcial (até poder voltar a casar) que, para a mulher era de 300 dias, quase o dobro do tempo que era imposto aos homens [180 dias]”.

 

Ainda assim, no entender de Rita, “a mudança passa, acima de tudo, pela educação”. “Pais, mães, professores, educadores e comunidade: todos têm responsabilidades sobre esta mudança. Para que tenhamos uma sociedade mais livre e justa, com igualdade de direitos para homens e mulheres”, completa.

 

É redundante perguntar a uma mulher porque se dedica à causa da igualdade de género. A resposta está na própria pergunta: porque é mulher. Mas o feminismo não é só coisa de mulheres. Ser feminista é defender a equidade, a dignidade humana e a autodeterminação das mulheres e, na visão de Rita, “implica uma reflexão constante sobre a forma como estamos a percecionar o mundo e os nossos próprios comportamentos”. “De que forma o patriarcado ainda ensombra os meus comportamentos, a forma como penso ou o vocabulário que emprego?”: é uma das questões que Rita coloca a si própria todos os dias.

 

Rita tem consciência que dificilmente será um filme ou um festival a mudar a representatividade das mulheres no cinema. Ainda assim, prefere focar-se no impacto, por pequeno que seja, que as ações que vai levando a cabo, os filmes que exibe ou os debates que promove vão tendo na sociedade. “O cinema tem esta capacidade maravilhosa de criar empatia, de nos tocar os sentimentos, colocando-nos próximos daquelas personagens”, começa por explicar. “Alguns filmes têm um impacto tão forte nas pessoas que elas começam a ver as coisas de outra forma, a pensar segundo um ponto de vista renovado, mais informado, desenvolvendo uma maior capacidade de se por na pele do outro, de aceitar que o mundo não se limita à forma como nós estamos habituados a vê-lo e a interpretá-lo”. E prossegue: “Se continuarmos a fazer filmes que representam a mulher sexualizada ou que só é mãe, a probabilidade de continuarmos a entender a mulher dessa forma é maior”.

 

Para a programadora, se o mundo do cinema se abrir às mulheres, não apenas como atrizes ou espectadoras, mas como argumentistas, realizadoras ou produtoras, vai haver mudanças nesta representação. “É inspirador uma mulher poder ver-se representada na tela como alguém capaz de tudo. Acredito que o cinema pode mudar o mundo”.

 

Esta ideia de que o cinema pode mudar o mundo parece não passar de uma utopia, mas Rita continua a acreditar que, “uma utopia de cada vez”, o mundo pode mesmo mudar. Herdeira do espírito rebelde e alma inquieta da adolescente de cabelo roxo que, em tempos, foi, continuará a lutar por essa mudança.

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1 Comment

  • Anónimo
    5 de Novembro, 2020

    O cinema pode efetivamente mudar o mundo, mas será preciso bom cinema e não a quantidade de porcaria que se vê nos ultimos anos!

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