mema.: Quando a eletrónica salgada vai às raízes da tradição

 

 

Esta aveirense é produtora, guitarrista, cantora e acaba de lançar o seu EP de estreia. Em “Cidade de Sal”, mema. (alter-ego de Sofia Marques), apresenta seis canções intimistas, de tom melancólico e alma consumida, que representam uma redescoberta das suas raízes e da tradição da música portuguesa e marcam um regresso à terra salgada que lhe serviu de berço.

 

Sofia Marques nasceu em Aveiro, mas foi em Ílhavo que cresceu e que, logo aos seis anos, nos suspiros de uma flauta de bisel, começou a aprender música. Com 7, iniciou-se no órgão eletrónico e, aos 12, passou a dedicar-se à guitarra. Este aparelho “versátil, prático, fácil de transportar e que permite tocar quase todos os géneros musicais”, fê-la apaixonar-se pela música e, com o tempo, viria a tornar-se o seu instrumento favorito.

 

É, precisamente, para se especializar em guitarra clássica que, anos mais tarde, Sofia ingressa no Conservatório de Música Calouste Gulbenkian, em Aveiro, altura em que também começa a levar mais a sério o ofício da escrita de canções.

 

Mas voltemos ligeiramente atrás, para falar da música não como dever de escola, mas enquanto paixão familiar.

 

Da voz melodiosa da mãe – que embalava Sofia e o irmão com a canção de Zeca Afonso –, à coleção de vinis do pai – onde se destacavam nomes do rock como Dire Straits, Pink Floyd ou Queen –, passando pelas sonoridades soul e gospel cantadas pela família materna nos almoços de natal, a verdade é que a música sempre teve uma presença bastante assídua na casa de Sofia.

 

E aquela curiosa mistura de estilos e géneros musicais acabaria por cultivar em Sofia o gosto pela diversidade musical: na adolescência, o papel principal foi da música pop – Britney Spears ou Shakira têm canções que, ainda hoje, gosta de revisitar; mais tarde, por influência do irmão, começou a explorar o metal – bandas como os holandeses Epica ou os italianos Lacuna Coil; hoje em dia, há momentos em que precisa de sentir a rouquidão do country e outros, em que é aquele kizomba meloso quem mais a seduz; nas últimas semanas, por exemplo, tem acompanhado Black Pink, uma girlsband de k-pop; e (dizem os entendidos) a música que compõe é uma hábil mescla de eletrónica e música tradicional.

 

Além de Ílhavo e Aveiro, há duas cidades cuja influência foi fundamental para o desenvolvimento do projeto que hoje conhecemos como mema.: Berlim e Dublin.

 

Em 2016, Sofia muda-se para Berlim (Alemanha) com “a ideia de deixar de fazer música”. A artista estava desiludida com a indústria musical e “queria quebrar o ciclo”. Esta ambição até podia ser genuína, mas cedo Berlim lhe mostrou que não era cidade para viver refugiada da música. “Em Berlim, há música por todo o lado! Além disso, estamos constantemente rodeados de muita gente criativa, músicos, artistas, produtores e isso influencia-me imenso”, recorda.

 

Foi na capital alemã que a artista conheceu os Strenght in Numbers, um coletivo de produtores de música eletrónica, com quem começou a colaborar identificando-se como mema. – a abreviatura de Mendes Marques (apelidos de Sofia) e alter-ego pelo qual se apresenta desde então. O projeto musical a solo, esse, só nasceria dois anos mais tarde, já depois de a artista se ter mudado para Dublin (Irlanda), e numa fase em que se sentia especialmente frágil, perdida e com saudades de casa.

 

“Sentia falta da minha família, de um sítio a que chamar lar e de um sentimento de pertença. Queria reconectar-me com as minhas raízes”, reconhece Sofia.

 

Numa primeira fase, isto passou pela busca de sonoridades tipicamente portuguesas e pela procura de instrumentos tradicionais que contrariassem aquele estereótipo de que a herança musical lusa se limita à guitarra portuguesa. À medida que os resultados desta pesquisa iam habitando a sua mente e preenchendo o seu tempo, de forma orgânica, os sons a eles associados começaram a fazer parte das suas composições, misturando-se com a influência eletrónica, reminiscente dos meses em Berlim que tanto haviam marcado o seu percurso.

 

Numa fase posterior, Sofia acaba mesmo por voltar a Portugal e fá-lo com entusiasmo redobrado, “mais garra, mais determinação, mais foco”. Todo aquele período em que tentara manter-se afastada da música só fizera com que percebesse que não o consegue fazer por muito tempo.

 

 

“Cidade de Sal” surge, então, como uma fusão entre o que Sofia escutara e experimentara lá fora e aquilo que se ouve, canta e toca, há tanto tempo, por cá.

 

O primeiro single deste EP – “O Devedor” – foi lançado em outubro do ano passado e, já este ano, seguiram-se-lhe “Perdi o Norte” e “Outro Lado”. É curioso que “Perdi o Norte” tenha saído no dia 13 de março, poucas horas depois de o primeiro-ministro, ainda antes de Portugal entrar, pela primeira vez, em estado de emergência, ter anunciado ao país o primeiro conjunto de medidas restritivas para combate à pandemia de Covid-19.

 

Naquela conjuntura nova e difícil, o tema sobre desnorte, perda e incerteza ganhou relevância redobrada. De certa forma, todos estávamos algo aturdidos, imersos na dúvida do que seria o amanhã e atormentados pela angústia de eventuais perdas. Em poucos dias, à semelhança de mema. na canção, todos tínhamos perdido o norte.

 

“Foi uma coincidência”, assume Sofia. Afinal, “Perdi o Norte” surgira muito antes do romper da pandemia, numa altura em que a artista, ainda em Dublin, vivera um momento de escuridão e desalento.

 

Uma vez divulgada, a canção acabaria por ser muito bem-recebida pela crítica e, principalmente, pelo público que se revia naquele desabafo, na urgência daquelas palavras e na melancolia daquele espírito. “Muita gente me contactou para dizer ‘Obrigado, nesta fase da minha vida identifico-me mesmo com este tema’”, recorda mema.

 

Por falar em identidade, o nome não engana ninguém: “Cidade de Sal” é assumidamente inspirado em Aveiro. Soa a Aveiro. Sabe a Aveiro. E, das seis faixas que o compõem, há uma que, nas palavras de Sofia, é “descaradamente” uma canção-homenagem à cidade. Chama-se “Sal” e tem alusões ao mar, à “mãe” ria, ao vento, ao sal, às “rugas cheias de sol” dos pescadores, ao “solo a fumegar” que, a cada manhã, levanta aquela ténue neblina e até às “pirâmides” que emprestam o nome ao canal que liga a cidade à laguna.

 

Esta canção “é uma referência às coisas que, para mim, são mais emblemáticas na cidade e que tenho levado sempre comigo”, esclarece.

 

Para Sofia, o ano 2019 serviu para se focar exclusivamente na música e na construção do EP “Cidade de Sal”. Um trabalho intenso, de insistência e perseverança, e no qual investiu cada minuto do seu tempo. Finda esta longa jornada, já com o disco pronto a sair, impôs-se-lhe uma súbita disponibilidade e Sofia assegura que “nem por um segundo me senti aborrecida”.

 

“Quando voltei a Aveiro e a Ílhavo senti que havia mais coisas a acontecer e que as pessoas estavam mais abertas e mais atentas, que havia um maior apreço pela cultura”, relata.

 

Não são só as dinâmicas dos territórios e das comunidades a que Sofia chama casa que têm vindo a mudar. Ela própria está em constante mutação.

 

Por exemplo, se, há um ano, era uma mulher cheia de ideias e de sonhos, que teve a coragem de abandonar um trabalho dito normal e pôr mãos à obra, escrevendo, compondo, produzindo e lançando canções em nome próprio, hoje considera-se uma versão mais madura de si própria. As vivências do último ano e a experiência adquirida têm feito com que se sinta cada vez mais pronta para lidar com os desafios que se avizinham.

 

E que desafios esses! Singrar no mundo da música nunca é tarefa fácil. Mas, neste momento, por conta da crise sanitária, das restrições que esta impõe e do recolhimento a que obriga, a missão torna-se ainda mais complicada.

 

Apesar de tudo, garante Sofia, “as coisas têm corrido bem”.

 

mema. já se apresentou em locais tão distintos como a Casa da Cultura de Ílhavo, a propósito da Milha – Festa da Música e dos Músicos de Ílhavo – de 2019, as escadarias do Atlas – edifício Fernando Távora –, em Aveiro, num concerto integrado no ciclo “Cultura em Tempos de (In)Certeza”, o Centro Cultural de Belém, quando subiu a palco como convidada dos Papercutz, ou mesmo o Youtube, plataforma na qual já fez uma apresentação em livestream em pleno período de confinamento e, mais recentemente, um showcase no canal da FNAC Portugal.

 

No mês de outubro, a música levou-a a Praga, para um concerto no Lusófona, o maior festival de língua portuguesa na República Checa. Um momento particularmente “interessante”, já que “permitiu mostrar mema. a um público diferente e perceber como é que a música é recebida por falantes de outra língua”, explica Sofia.

 


 

“Cidade de Sal” está disponível nas plataformas digitais desde o passado dia 9 de outubro e, para quem assim preferir, há ainda uma edição em formato físico limitada a 100 exemplares.

 

Por ora, é altura de ouvir este EP, de o apresentar em palco, nas rádios, e de o celebrar com o público. Ainda assim, mema. já admite ter “grandes planos para o próximo ano”. Na calha, está o primeiro longa-duração que, se tudo correr bem, deverá ser lançado no final de 2021. Mesmo sem querer levantar o véu sobre o que poderá vir aí, a artista confessa-se “entusiasmada” com a produção daquele que será o seu primeiro álbum, um trabalho no qual gostaria de envolver mais pessoas. “Para o EP trabalhei sobretudo sozinha. A ideia, agora, é poder colaborar com outros artistas, músicos e produtores”, refere.

 

O conceito do álbum ainda não está definido, mas uma coisa é certa: a identidade musical que mema. apresenta no EP e que alia as tendências da eletrónica internacional a sonoridades e instrumentos típicos da música tradicional portuguesa, “é para manter”. Sofia também não descarta a hipótese de revisitar algumas das temáticas que definiram “Cidade de Sal” – como a redescoberta das suas raízes ou o sentimento de pertença –, mas, quanto a isso, só o tempo poderá confirmar a natureza do novo registo.

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