Joel Reigota: “São as pessoas que dão vida e sentido ao meu trabalho”

 

A fita métrica ao pescoço denuncia a vocação que o acompanha desde tenra idade; nas prateleiras, há tecidos de diversas texturas e linhas das mais variadas cores; uma tesoura grande descansa sobre a bancada negra onde ainda se distinguem traços do giz branco que a percorreu; ao fundo, os últimos raios de sol da tarde refletem num espelho e o ranger compassado da máquina de costura de modelo industrial impõe-se sobre o silêncio.

 

É neste cenário que encontramos Joel Reigota, um dos mais prestigiados criadores de moda da região de Aveiro, que empresta o seu nome a um ateliê de costura na Gafanha da Boavista, em Ílhavo, mesmo ao lado da casa onde nasceu há (quase) 53 anos.

 

Joel sempre teve uma atenção especial quanto ao que vestia. Segundo relata em conversa com a Aveiro Mag, ainda pequeno, já se manifestava quanto à roupa que gostava e aquela que não era do seu agrado, expressava objeções quanto às combinações que lhe destinavam – “ora queria outra cor, ora queria mais largo” – e esforçava-se sempre por levar a dele avante.

 

Nos primeiros anos de escola, quem olhasse para as personagens que desenhava não conseguia ficar indiferente às indumentárias ilustradas. Se Joel caprichava nas roupas que vestia, o mesmo se pode dizer daquelas que concebia em desenho. “Tinha muito cuidado a ‘vestir’ os bonecos. Preocupava-me em desenhar os pormenores das roupas, de lhes por sempre uns botões, um fecho”, recorda.

 

Quando gostava particularmente de um desenho, levava-o às avós – ambas costureiras –, desafiando-as a concretizar as suas ideias. Aos poucos, entre criações pessoais confecionadas pelas avós e as peças que fazia questão de ir alterando a seu gosto, rapidamente o guarda-roupa do então adolescente começou a evidenciar-se pela diferença.

 

Ainda assim, apesar do talento evidente e do prazer pela conceção de roupas, a verdade é que, nesta fase, Joel nem sequer imaginava que isso pudesse vir a traduzir-se numa profissão. Afinal, “naquela altura, havia poucos criadores de moda no masculino e os que havia estavam nas grandes cidades europeias, como Paris ou Milão. Sabia lá aquele miúdo da Gafanha da Boavista quem era o [Christian] Dior ou o [Yves] Saint Laurent”, partilha o criador.

 

A moda não fazia parte dos seus planos. O que o apaixonava genuinamente era a aviação. Joel Reigota queria ser piloto.

 

Não consegue precisar se é o poder das turbinas, a largura das asas ou a imponência do aparelho; se é a euforia da alta velocidade ou a aparente tranquilidade das nuvens, mas há qualquer coisa na ideia de pilotar um avião que transporta Joel para outra dimensão, que o encanta, envolve, admira e impressiona. É um estado espiritual ou, como descreve, “algo da alma”.

 

O diagnóstico de um sopro no coração acabaria por deitar por terra o sonho dos aviões. Todavia, se a ambição pelos ares foi obrigada a uma aterragem de emergência, certo é que trouxe consigo uma nova paixão: foi quando o cardiologista que acompanhava Joel o aconselhou a praticar uma atividade física de intensidade moderada que a dança apareceu na vida do jovem ilhavense. Torna-se bailarino e passa vários anos a dançar, primeiro no GEMDA – Grupo Experimental de Música e Dança de Aveiro –, mais tarde, na Companhia de Dança de Aveiro. Chegou mesmo a ter formação com Olga Roriz, uma das mais premiadas coreógrafas do país, e com Michel, “pai do sapateado em Portugal”, mas uma lesão impede-o de seguir estudos no mundo da dança. Ainda assim, admite, “ainda hoje a dança continua a fascinar-me imenso”, a par da aviação.

 

Terminado o 9.º ano, tinha a convicção que o futuro podia passar pelas Artes. Ponderou ingressar no ensino secundário na Escola Artística de Soares dos Reis, mas os pais acharam que aquele ainda não era o momento para Joel se aventurar sozinho no Porto. Insistiram, portanto, para que cumprisse o secundário perto de casa, no compromisso de que, finda esta etapa, se ainda fosse essa a sua vontade, Joel já teria a maturidade e autonomia necessárias para seguir o seu caminho. “Os meus pais tiveram algum receio que eu me perdesse”, interpreta Joel, confessando que, à data, “era doido a vestir e a pentear-me”.

 

Viviam-se os anos de 1980, uma década marcada por muitas correntes e estilos, cada um mais extravagante que o outro. Joel terá experimentado um pouco de tudo: abraçou as cores cintilantes da new wave, pintou as unhas e os olhos de negro numa fase mais gótica e, num período assumidamente punk, chegou a aguçar o cabelo em forma de crista. Foi também por essa altura que, numa afirmação da irreverência e liberdade que o viriam a caracterizar, fez os primeiros piercings.

 

“Nenhum pai deixava que o filho adolescente fizesse um piercing no nariz. Se já na orelha era uma complicação… mas eu fiz”. É justo ressalvar que os pais de Joel não eram (e não são) apologistas desta opção estética, mas ainda mais justo reconhecer que, apesar disso, sempre respeitaram a vontade do filho.

 

Para Joel, além da procura de uma vocação e da progressiva afirmação da sua personalidade, este foi também um período em que a questão da sexualidade passou a assumir relevância crescente. Eram tempos de grandes descobertas pessoais, tempos de atrações inesperadas, paixões intensas, desgostos difíceis de curar e as primeiras tentativas de compreender o amor.

 

Não raras vezes, a dúvida deu lugar à ansiedade, à revolta e à angústia e momentos houve em que o receio que lhe pusessem um rótulo que o segregasse ou excluísse habitou a sua mente. Hoje, Joel reconhece que o negro de uma maquilhagem mais exagerada ou fulgor dos tons mais psicadélicos, também serviram como uma espécie de escudo. “Era uma forma de me proteger, de me distanciar das pessoas e guardar-me na minha redoma, na minha bolha”.

 

Aos 19 anos, uma partilha sincera e corajosa em contexto familiar viria a ser passo essencial para uma maior estabilidade. “Sempre fui educado na liberdade e na verdade”, afirma, reconhecido à família e reiterando o orgulho pelos progenitores: “Eles [os pais] são fantásticos! Se sou quem sou, a eles o devo”.

 

 

Ora, cumprido o secundário, Joel segue para a Escola de Moda Gudy, a atual Escola de Moda do Porto. Por opção própria, acumulou as aulas de desenho de vestuário – de manhã – com cadeiras mais ligadas às técnicas de modelação e confeção – de tarde – o que fez com que conseguisse terminar em dois anos um curso cujo programa de estudos estava previsto para durar quatro. Fê-lo, ainda para mais, com elevada distinção.

 

Tinha, finalmente, encontrado o seu meio, bem como um conjunto de pessoas que o compreendiam e motivavam. “Foram os melhores anos da minha vida”, recorda. Com apenas 20 anos, a nota máxima obtida no curso valeu-lhe um estágio em Paris, possibilitado pela Escola, com um criador à sua escolha. A opção de Joel, na altura, passou por Jean Paul Gaultier, o eterno enfant terrible da alta costura francesa, cujo espírito rebelde o empolgava e a constante desmistificação de estereótipos instituídos o inspirava.

 

Joel continua a ser “completamente contra o facto de se impor uma norma”. No seu entender, os atuais estereótipos de beleza, influenciados em grande medida pela família Kardashian – unhas de gel, extensões no cabelo, pestanas postiças, lábios injetados, nádegas falsas e um corpo cirurgicamente modelado – acabam por “passar uma mensagem nociva”, principalmente para as camadas mais jovens que “criam expectativas de imitação inalcançáveis”.

 

Não acredita na perfeição, respeita todos os corpos e defende que a moda não é feita para objetos decorativos. “Eu faço roupa para se vestir, não para estar pendurada em exibição. São as pessoas que dão vida e sentido ao meu trabalho”, assume o criador.

 

Joel Reigota faz casacos, vestidos de noiva, roupa para festas, e do seu ateliê não sai uma peça igual a outra. Cada artigo é único e concebido a pensar na pessoa que o vai vestir. Obviamente, é evidente o cunho Joel Reigota. Essa é, aliás, uma escolha do cliente ao optar por lhe comprar uma peça. Mas a mensagem que a roupa passa não é do criador. É da pessoa que vai envergar a criação. “Tenho de olhar para a pessoa e fazê-la brilhar. É esse o grande desafio. Se, no fim, esse objetivo for cumprido eu fico super feliz”. Uma tarefa exigente, mas recompensadora.

 

Quando se trata de criar para a próxima coleção a apresentar, “é uma maravilha”. É um processo muito mais emocional, quase que uma purga de sentimentos, ideias e conceitos. “A primeira [peça da coleção] é sempre a mais difícil de fazer. Absorvo muitas ideias, mas sei que não as posso por todas numa única peça. Às vezes estou aqui dias inteiros e não sai nada. Depois de sair a primeira, são umas atrás das outras, tendo sempre a preocupação de, por um lado, respeitar o fio condutor que dá coerência à coleção e, por outro, garantir que cada uma marca pela diferença”, explica Joel.

 

O criador entende a moda como forma de expressão artística, acredita que “a roupa que vestimos influencia a nossa forma de estar” e que vestir bem é meio caminho andado para ser feliz.

 

No entanto, ressalva, esta noção de “vestir bem” não está de forma alguma associada a marcas de luxo. Está, isso sim, relacionado com a qualidade do corte, a volumetria das peças, as características dos tecidos ou até com algo tão simples como as cores utilizadas. “Eu adoro branco, mas se me visto de branco não sou eu, não sei como me hei de mexer, não encontro posição para me sentar. Se é para ficar todo o dia desconfortável, de que adianta andar de branco?” E prossegue com o seu exemplo pessoal: “Há três cores com as quais me sinto bem: o preto – cor do amor, do respeito, a minha cor de eleição – o verde tropa e o vermelho cereja”.

 

 

A insatisfação é alma mater de um criador e Joel não é exceção. A sua eterna inquietação e permanente ambição podem muito bem ser resumidas àqueles versos em que Variações canta só estar bem onde não está.

 

Nos anos de 1990, já depois de uma primeira vivência profissional numa empresa de confeção de vestuário – malhas e cabedal – em São João da Madeira e de uma experiência paralela enquanto coordenador de tendências na Portex – feira da moda e do têxtil na Exponor, no Porto – Joel estabeleceu-se em Lisboa, com loja aberta no Bairro Alto. Viria, no entanto, a deixar a capital no ano 2000, passando a trabalhar exclusivamente a partir do seu ateliê, na Gafanha da Boavista.

 

A pacatez daquela localidade à beira ria leva-o a ansiar a urbe cosmopolita, mas há algo no barulho de Lisboa (como o de Paris, Tóquio ou Nova Iorque) que rapidamente o sufoca. Sente falta dos dois mundos: se, por vezes, precisa dos estímulos próprios de ambientes citadinos, mais frenéticos e vibrantes, há ocasiões em que a criatividade só está na paz da natureza.

 

Com mais de 30 anos de uma carreira pautada por momentos de maior sonho e irreverência, outros de maior sobriedade e pragmatismo, mas sempre com alma, sentimento e intenção, Joel já não põe a hipótese de grandes mudanças.

 

O que é que ainda falta fazer? “Quase tudo!”, responde, ainda que reconheça que “tudo está muito dependente da evolução da pandemia”.

 

“A pandemia está a ser desastrosa”, lamenta Joel Reigota. “Tenho uma coleção pronta, que era para ter sido apresentada em março de 2020, foi adiada para abril, depois para o final do verão, mais tarde para as vésperas do natal e, na realidade, nunca chegou a ver a luz do dia. Além disso, tinha sete casamentos agendados e não fiz nenhum”, conta.

 

Depois de algumas experiências aquando do grande confinamento da primavera passada, Joel chegou a um molde de máscara de proteção que lhe agradou. “Quando o país começou a desconfinar disse à Anabela [sua colaboradora no ateliê] que íamos abraçar esta ideia, porque tínhamos o trabalho todo suspenso”.

 

Chegou a vender mais de vinte máscaras por dia, por vezes, mais de trinta. Atualmente, está a vender em quantidades mais reduzidas, mas existe a possibilidade de, findo o atual período de confinamento, a procura aumentar novamente.

 

Há mais de uma centena de modelos diferentes e, como não podia deixar de ser, as máscaras com a assinatura de Joel Reigota têm o essencial filtro em TNT de 120g/m2 e um corte que permite que nunca percam a forma.

 

Como a grande maioria das peças que saem daquele ateliê, cada máscara é concebida especialmente para a pessoa que a vai utilizar. É, por isso, comum, Joel pedir pormenores sobre a forma do rosto, a posição das orelhas, a proeminência do maxilar ou o tamanho do nariz aos clientes.

 

Partilhar

1 Comment

  • Avatar
    Comunicação
    1 de Fevereiro, 2021

    Boa tarde, Parabésn pelo artigo e votos de sucesso ao Joel Reigota. Gostaria de deixar duas correções ao artigo: o Joel frequentou a Escola de Moda Gudi no Porto (https://www.escolamodagudi.com), que não é a atual Escola de Moda do Porto (https://emp.pt/). Efetivamente são duas escolas distintas, mas que fazem parte do Grupo Gudi. Continuação de bom trabalho.

Post a Comment