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Eis os quatro músicos que fazem dos Perpétua, os Perpétua

Artes

Quando, em 2019, Diogo Rocha juntou Beatriz Capote, Rúben Teixeira e Xavier Sousa para, pela primeira vez, lhes falar do projeto musical que, com eles, gostaria de criar, ainda o mundo não sonhava com o ano que se seguiria.

A pandemia impôs-se sem aviso prévio, esvaziou-lhes a agenda e desfez-lhes os planos. Restringidos a casa, estes jovens souberam tirar o melhor proveito do tempo que, outrora raro, lhes passou a sobrar: arriscaram, entregaram-se àquele novo projeto e dedicaram-lhe todo o seu esforço e compromisso.

Resultado? Deram-se a conhecer ao mundo como Perpétua ainda no verão de 2020, chegaram a dar um concerto ao vivo na Fábrica das Ideias da Gafanha da Nazaré e, a 26 de março último, apresentaram “Esperar Pra Ver”, o seu álbum de estreia.

Os percursos de Rúben Teixeira e Xavier Sousa, ambos com 22 anos, tocam-se em vários pontos: conheceram-se na escola de música da família de Rúben – a Arte & Som –, fizeram o ensino básico na Gafanha da Nazaré e, no secundário, seguiram juntos para a Escola de Artes Jobra, na Branca, concelho de Albergaria. Tocam juntos há vários anos e, além dos Perpétua, já partilharam vários projetos musicais – os Fifth Empire e os Solestain são só alguns exemplos.

Rúben nasceu no mundo da música e – parece justo afirmar-se – para o mundo da música. O pai tocava piano, mas preferiu seguir a profissão de técnico de som em espetáculos ao vivo; a mãe, professora de música na Arte&Som, terá sido a primeira a incentivar Rúben a aprender música. O jovem começou por tocar piano, mas as teclas rapidamente cederiam lugar à bateria, instrumento que o tio dominava. Mais tarde, dedica-se ainda à guitarra. “Independentemente do instrumento, sempre fui apaixonado por música”, partilha o jovem.

Rúben recorda uma infância onde a música sempre teve grande protagonismo. Lembra-se das canções que aprendeu pela voz da mãe ainda pequeno e dos passeios de automóvel em que insistia para que rodasse o CD dos Supertramp.Curiosamente, também Diogo, Beatriz e Xavier mantêm vivas recordações da música que ouviam em viagens de carro. No caso do guitarrista dos Perpétua, a banda de eleição do pai eram os Pink Floyd e Beatriz recorda principalmente Rui Veloso.

Xavier guarda a memória de um momento recorrente no qual pedia à mãe para ouvir a cassete dos Ornatos Violeta, mas muitos outros episódios com ligação à música haveriam de ficar gravados no seu álbum de recordações. Logo aos seis anos, por exemplo, em casa de uns amigos dos pais, um concerto prende-o ao ecrã: os System of a Down tinham vindo ao Rock in Rio Lisboa e o espetáculo estava a ser transmitido, em direto, na televisão. “Não me lembro de muitos pormenores, na verdade, mas aquele momento ficou-me na memória. Aquelas tranças são bastante memoráveis”, comenta, a propósito da icónica barba entrançada do baixista Shavo Odadjian.

Mais tarde, já perto dos nove anos, estava sentado com o pai numa esplanada quando o progenitor lhe dá as primeiras noções de guitarra. Uma aula espontânea e inusitada, mas que, para Xavier, marca o início do seu percurso musical. “Foi a partir daí que comecei a ficar viciado na música”, resume o baixista dos Perpétua.

Depois de concluírem os estudos na Jobra, Xavier vai para Coimbra estudar jazz e Rúben segue para a ESMAE – Escola de Música e Artes do Espetáculo -, no Porto. É lá que o baterista é convidado para tocar com Marta Carvalho, artista em início de carreira, que tinha acabado de ser finalista do The Voice Portugal. Mais tarde, também Sebastião Oliveira, outro artista a lançar-se na indústria da música depois de uma presença na final do concurso de talentos da RTP, o convida para fazer parte da sua equipa. Em ambos os casos, Rúben não hesita em chamar Xavier. “Sempre que podíamos, nos projetos em que íamos estando envolvidos, íamo-nos buscar um ao outro”, relata.

Tal como no caso de Rúben, a família de Beatriz Capote, de 24 anos, também está fortemente ligada à música: os pais conheceram-se numa banda; a mãe veio a tornar-se professora de música e a tia é cantora de jazz. Lá em casa, atesta a jovem, “toda a gente toca qualquer coisa”. Beatriz participou nas Escolíadas e em todos os projetos escolares que, de alguma forma, estavam ligados à música. Estudou violino durante dez anos no Conservatório de Música de Aveiro e, quando chegou a altura de enveredar no ensino superior, a música voltou a impor-se no seu caminho como a hipótese mais óbvia. Na Licenciatura em Música, na Universidade de Aveiro, continuou a apostar no violino e na área da música clássica.

Outro aspeto que os percursos de Rúben e Beatriz têm em comum é o facto de ambos serem, eles próprios, professores de música. Rúben dá aulas de bateria e guitarra na Arte & Som desde 2012 e, no início do corrente ano letivo, começou a orientar algumas AEC – atividades de enriquecimento curricular – para crianças do jardim de infância e alunos dos 3.º e 4.º anos de escolas ilhavenses. Beatriz deu aulas de violino e formação musical.

Quanto a Diogo Rocha, 25 anos, apesar de ter crescido num ambiente onde a música tinha uma presença forte, a sua ligação a este universo vem, sobretudo, no seguimento de uma descoberta pessoal. Por iniciativa própria, inscreve-se na Arte & Som, onde vem a aprender as primeiras notas e acordes. No início, a sua ideia era dedicar-se ao baixo, mas na escola tê-lo-ão convencido a começar por aprender guitarra, com a promessa de que uma posterior transição para o baixo seria mais fácil. Diogo acatou o conselho, mas acabou por nunca mais largar a guitarra.

Foi na Arte&Som que Diogo conheceu Rúben e Xavier, tendo chegado a tocar com eles em espetáculos de final de ano e outras festas daquela escola de música. Já Beatriz, conheceu-a na escola secundária João Carlos Celestino Gomes, em Ílhavo, mais precisamente no âmbito do Clube Europeu, grupo com o qual ambos participaram no projeto Comenius, desenvolvendo e apresentando um musical em parceria com uma escola de Cuxhaven, na Alemanha.

Diogo era, portanto, à partida, o único dos quatro que conhecia todos os outros e terá sido ele “o ponto-chave” para que se juntassem e formassem os Perpétua. Por um lado, Diogo “estava cansado de tocar coisas pesadas” –tinha passado pelos roqueiros Lazy Eye Society, quando estudava em Coimbra, e é guitarrista dos Motim, uma banda de hardcore punk da Gafanha da Nazaré da qual Xavier também faz parte; por outro, garante, “sempre gostei muito deles , sabia que eram todos boa onda e ótimos músicos”. “À medida que íamos partilhando algumas ideias uns com os outros, reparei que havia alguns pontos de contacto e decidi lançar-lhes o desafio”, conta o guitarrista.

Beatriz, que estava habituada a um ambiente mais clássico e académico, encarou a ideia de dar voz a um novo projeto no espetro da música indie com grande entusiasmo. No entanto, naquela altura, Beatriz estava em Roma (Itália), ao abrigo do programa Erasmus do seu mestrado em Ensino de Música. Rúben e Xavier também não se puseram de parte, mas os compromissos que haviam assumido com os artistas que acompanhavam em espetáculos ao vivo tiravam-lhes muito tempo disponível.

Chega 2020 e, ainda março não ia a meio, quando o despontar da pandemia leva à suspensão de quase todas as atividades de estúdio e de palco. A banda tinha, finalmente, “o incentivo que faltava”. Para Diogo, foi o primeiro grande confinamento que “permitiu que dedicássemos maior atenção à composição e à escrita das músicas”. “Numa primeira fase, a pandemia teve esse ponto positivo e, mais tarde, arrisco-me a dizer, teve ainda outra vantagem: o facto de as pessoas estarem confinadas fez com que tivessem mais tempo para explorar coisas novas e pode ter incentivado a clicarem na nossa música”, observa.

Rúben é ainda mais otimista: no seu entender, “esquecendo o drama social e económico que se instalou em todo o mundo, claro, para os Perpétua, a pandemia acabou por só trazer coisas positivas”. “Não sabemos que rumo é que as coisas podiam ter tomado, mas se não tivesse existido esta paragem obrigatória, dificilmente estaríamos a lançar um álbum agora”, acrescenta.

Faltava um nome e o processo que levou à sua escolha, de acordo com a banda, “foi levado quase até ao limite, mesmo até já não dar para alterar”. Desde o início que o projeto dava pelo nome de código “Brisinha” que, apesar de não ter sido a designação escolhida para a banda, acabaria por ser aproveitado para nomear o último tema do álbum. “Ainda hoje, por vezes, entre nós, usamos esse nome de código”, reconhecem. Na altura, no entanto, pareceu-lhes “demasiado teenager” para nome do grupo. Havia o requisito primordial da língua portuguesa, em coerência com as músicas que apresentavam, mas nenhum outro critério parecia ajudar à eleição da palavra ou palavras ideais. Considerando o tom primaveril e fresco que os caracteriza, hipóteses como “Jardim Pastel” ou “Hortelã Pimenta” terão estado em cima de mesa, mas foi numa pesquisa por flores que o nome final surgiu.

Perpétua é uma flor arroxeada que preserva a cor intensa mesmo depois de seca e cuja infusão diz-se contribuir para o combate às dores de garganta e à rouquidão; pode ainda ser nome de pessoa ou um adjetivo que remete para a noção de eternidade e infinito. Esta polissemia cativou logo a banda que prefere não estabelecer um significado único ao nome. “Deixamos à interpretação de quem nos ouve”, reiteram.

O primeiro single – “Condição” – foi lançado em setembro e, com ele, um videoclipe gravado nas salinas de Aveiro. No vídeo, os jovens músicos caminham descontraidamente por entre marinhas geometricamente desenhadas; os pés, por vezes descalços, ora pisam a terra queimada pelo sol, ora mergulham na água salgada; o vento que os despenteia é o mesmo que faz as águas cintilarem em reflexos prateados; ao fundo, vê-se a cidade.

A escolha do local não foi alheia a uma premissa de afirmação de identidade pela qual a banda se tem guiado. Sublinhando a sua origem, os Perpétua estão não só a celebrar os territórios onde cresceram, as influências que deles beberam e as vivências que neles partilharam; estão também a tomar a dianteira na missão de “contribuir para a descentralização da cultura”. “Temo-nos batido pela nossa afirmação enquanto banda de Ílhavo e da região de Aveiro porque a música, o teatro e a dança não têm de acontecer só em Lisboa – ou no Porto, quando Lisboa deixa –, mas sim no país inteiro”, afirma Diogo Rocha. “Ao marcarmos a nossa identidade estamos a ajudar a mostrar que há mais ”, acrescenta o guitarrista.

Em novembro, a banda teve a oportunidade de fazer a primeira parte do concerto de André Henriques, guitarrista dos Linda Martini, que apresentava o seu primeiro disco a solo na Fábrica das Ideias da Gafanha da Nazaré.

Um concerto efémero, é certo, mas que, provavelmente, não mais vai abandonar a memória destes jovens. “Foi o nosso primeiro concerto. Apesar de ter sido reduzido foi um ótimo pontapé de saída”, afirma Diogo.

Com um percurso intimamente ligado à música clássica e, enquanto membro de uma orquestra, Beatriz já tocou em algumas das salas mais emblemáticas do país, como a Casa da Música, no Porto, ou o Centro Cultural de Belém. Ainda assim, admite ter sentido alguma ansiedade antes de subir a palco. Também Xavier confessa que os nervos lhe gritavam em protesto. “Já não tocava há muito tempo. estava habituado a uma rotina de atuações ao vivo muito intensa; com o confinamento estive muito tempo parado e aquele concerto marcava um regresso”, afirma o baixista

Não raras vezes, estes pequenos concertos, em que se inaugura o palco para um artista de maior projeção, são encarados pelo público como espetáculos menores, breves e prescindíveis. Ora, quando a postura da audiência é esta, não há como os músicos que, em palco, estão a dar o seu melhor, não o sintam. Todavia, no caso dos Perpétua, não foi assim. Pelo contrário! A banda diz ter sentido o público entregue à sua música, atento a cada pormenor da sua atuação e empenhado no ruidoso aplauso com que os saudou.

“Sentimos que criámos vibração na plateia. Parecia que não estávamos ali só a fazer uma primeira parte, que aquele concerto também era um bocado dos Perpétua”, recorda Diogo. Rúben concorda com o guitarrista: “Independentemente do que acontecesse naquele concerto, sentíamos que aquele público nos estava entregue da mesma forma, ou quase da mesma forma, que estaria entregue ao André ”, partilha.

Já em 2021, os Perpétua voltaram aos concertos no festival – “São Gonçalinho em Casa”, uma performance transmitida através das redes sociais da mordomia das festas do bairro da Beira Mar.

O disco de estreia chegaria a 26 de março. “Esperar Pra Ver” é um álbum indie, que arranca num ambiente disco, mas cedo desagua num registo marcadamente pop. Há ainda rock, baladas e sonoridades características da música portuguesa dos anos de 1980. Quem ouvir as nove faixas que compõem este disco, reconhecerá, provavelmente, ecos de canções de Lena d’Água, dos Rádio Macau, das Doce ou de António Variações.

Quanto às letras, o tom doce e melancólico e as nuances nostálgicas que embalam o ouvinte a cada tema contrastam com a perspetiva esperançosa e expectante que as canções transmitem. As narrativas “partem de situações do dia-a-dia de qualquer pessoa que está a crescer, experiências pelas quais toda a gente já passou ou, invariavelmente, vai passar na vida”, explica Diogo. “Cantamos a tristeza e a perda de maneira otimista e nada derrotista. Temos sempre em foco um sentido de aprendizagem e futuro”, remata o jovem músico.

Apesar de já ter arrancado a primeira fase do novo desconfinamento, a verdade é que, no panorama cultural, ainda dominam receios e incertezas. Uma coisa, no entanto, parece certa: assim que a música puder regressar aos palcos para animar plateias por todo o país, podem contar com os Perpétua.

Até lá, um novo vídeo pode estar para surgir e, avança Xavier, “vamos preparando o segundo álbum. Não há tempo a perder!”.

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