O futuro da aquicultura constrói-se no ECOMARE

 

 

 

Este mar que a UE nos deu*

 

 

Afonso Ré Lau e Maria José Santana

 

 

 

O ECOMARE resultou de um investimento de cerca de 4,9 milhões de euros, cofinanciados em 85% pelo FEDER – Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional. Segundo a Comissão Europeia, este projeto “é um exemplo do modo como a infraestrutura existente nas zonas costeiras desenvolvidas com acesso privilegiado ao mar podem ser utilizadas para a conservação e apreciação dos bens e serviços dos ecossistemas”. Em 2019, o ECOMARE chegou mesmo a estar entre os finalistas aos prémios RegioStars, os “óscares” da Comissão Europeia para projetos de desenvolvimento regional financiados com fundos comunitários.

 

Apesar de ser mais conhecido pelo seu Centro de Pesquisa e Reabilitação de Animais Marinhos (CPRAM) que, desde 2017, já resgatou, cuidou e devolveu à natureza milhares de aves marinhas, tartarugas, focas e golfinhos, o ECOMARE é também um laboratório científico de excelência. No Centro de Extensão e Pesquisa em Aquacultura e Mar (CEPAM), a outra unidade daquele complexo, desenvolvem-se investigações em áreas como a ecologia e biotecnologia marinha e a aquicultura sustentável.

 

Uma das apostas mais recentes deste centro de investigação instalado junto ao porto de pesca costeira, na Gafanha da Nazaré, é o AquaMMin, um projeto de desenvolvimento de um sistema de aquicultura modular multitrófica integrada, financiado pelo Programa Operacional Mar2020 da União Europeia num montante que ronda o milhão de euros.

 

Em entrevista à Aveiro Mag, Ricardo Calado, investigador do CESAM – Centro de Estudos do Ambiente e do Mar –, do Departamento de Biologia da Universidade de Aveiro, e coordenador deste projeto, descreve uma infraestrutura “única no país” que, entre outras valências, vai permitir o máximo aproveitamento dos nutrientes adicionados sob a forma de rações e uma operação em regime de zero troca de água, otimizando a biossegurança do sistema.

 

 

 

A instalação-piloto, montada numa estufa contígua ao edifício do CEPAM, é composta por oito unidades modulares, cada uma dividida em três tanques interdependentes. A cada unidade corresponde uma linha de produção e em cada tanque serão cultivadas espécies de um nível trófico diferente.

 

Nos tanques de maior dimensão serão colocadas espécies de um nível trófico superior, como o robalo, a dourada ou os camarões. Como estes seres são alimentados a rações que nunca consomem na sua totalidade, a água que habitam vai enriquecendo em matéria orgânica. Esta água repleta de partículas grosseiras é distribuída por outros tanques com espécies do nível trófico imediatamente abaixo (serradela, pepinos-do-mar e ostras), capazes de se alimentar desses fragmentos.

 

De seguida, a água – agora, já “mais limpa”, mas ainda com matéria inorgânica dissolvida, resultante do processamento da matéria orgânica nos tanques anteriores – passa para novos tanques onde espécies como a salicórnia e a alface-do-mar encarregar-se-ão de retirar do meio todos os nutrientes que ainda persistam. Qualquer partícula que subsista será removida nas unidades de filtração pelas quais a água passa antes de ser bombeada de volta ao início da linha de produção, isto é, aos tanques de maior dimensão.

 

Assim, todos os nutrientes que entram no sistema ficam lá sequestrados sob a forma de biomassa. “Se gastamos dinheiro nas rações, o objetivo é usar 100% desses nutrientes” afirma Ricardo Calado, explicando que a equipa que desenvolveu este sistema se inspirou nas dinâmicas de um recife de coral. “Os recifes de coral são ecossistemas muito produtivos, que vivem em águas muito pobres. Porquê? Porque os próprios corais não permitem que os nutrientes saiam do recife. É isso que, de alguma forma, tentamos recriar aqui”. “Essa é uma das grandes diferenças do ECOMARE em relação a outros centros de investigação em Portugal: exploramos soluções inspiradas na natureza, neste caso, no oceano”, acrescenta.

 

Ao longo da linha de produção, a água passa para o tanque seguinte sempre por força da gravidade, o que faz com que o único gasto energético desta instalação seja aquele que permite bombear a água filtrada de volta para os tanques iniciais.

 

Com uma estrutura com estas características, a água movimenta-se em circuito fechado, o que assegura não só um “maior controlo das variáveis que podem influenciar o desempenho dos organismos em cultivo”, como ajuda a garantir “níveis elevados de biossegurança”, já que os organismos não estão dependentes de variações no meio. Ricardo Calado explica que, em aquicultura, “há uma preocupação crescente em garantir a biossegurança para evitar a proliferação de doenças e, como tal, diminuir o uso dos compostos químicos necessários a combater essas doenças”.

 

A garantia de biossegurança na produção é também fator essencial no combate à desconfiança dos consumidores relativamente à aquicultura. “Há uma série de mitos que vão sendo perpetuados: que os peixes [provenientes] de aquicultura estão cheios de antibióticos, que são produzidos em tanques em que a água tem condições terríveis, que acumulam metais pesados. Hoje em dia, esses mitos não são, de todo, verdade”, assevera Ricardo Calado.

 

O investigador afirma que a aquicultura que se faz na Europa é “muito controlada e extremamente regulamentada” e, por isso, confiável. Ricardo faz questão de esclarecer que “as práticas implementadas em território europeu, nem sempre são as mesmas que são implementadas no sudeste asiático, o grande motor da aquicultura a nível mundial. Mas as pessoas estão mais preocupadas em saber se a dourada que consomem é de aquicultura e, mesmo que tenha sido produzida na Europa, ficam mais desconfiadas, do que quando compram um quilo de camarões produzidos no Bangladeche ou no Vietname, em condições que não são as mais desejáveis”.

 

 

 

Voltando ao AquaMMin, o sistema desenvolvido dispõe de soluções de automação com vários pontos de controlo – sondas – que enviam informação em tempo real para um servidor, permitindo aos investigadores uma monitorização permanente e assegurada remotamente, a partir de um smartphone. “A vantagem é que se houver uma falha qualquer, o sistema tem forma de a corrigir e nós somos automaticamente avisados, podendo autorizar ou não essa correção”, esclarece o coordenador do projeto. Além disso, todos os dados da monitorização são guardados numa cloud para posterior tratamento.

 

Neste projeto, demonstra-se, a uma escala pequena, um conceito e uma tecnologia que, futuramente, poderão ser instalados, a uma escala muito maior, em empresas de produção em aquicultura, mesmo longe da costa. Ricardo Calado prevê que o sistema esteja operacional no final de abril e, avança, que já há empresas interessadas em desenvolver estudos naquela instalação-piloto. Para o coordenador do AquaMMin, este interesse “só confirma que [o projeto] foi uma boa aposta”. “De facto, esse era o objetivo inicial: trabalharmos para e com as empresas. Essa ideia está na génese de toda a ciência que se faz no ECOMARE. O nosso objetivo é fazer boa ciência e, de preferência, ciência que dê respostas às necessidades tecnológicas que as empresas enfrentam a cada momento”, garante o investigador.

 

Na calha estão outros projetos relacionados com a interpretação de “códigos de barras naturais” para confirmação da origem geográfica dos produtos de mar, com a conservação das pradarias marinhas e a sua adaptação às alterações climáticas e com a exploração do potencial da salicórnia e de outras plantas halófitas. No CEPAM, há ainda quem esteja a estudar os efeitos que poluentes emergentes (como o paracetamol) exercem sobre a vida marinha e quem trabalhe em bioprospeção, isto é, na procura de compostos químicos que sirvam de inspiração ou de fonte para o desenvolvimento de novos medicamentos.

 

Ricardo Calado mantém ainda a esperança que o CITAqua – Centro de Inovação e Tecnologia em Aquacultura –, a prometida terceira unidade do ECOMARE, possa avançar em breve. O investigador acredita que, com as oportunidades de financiamento europeu que se avizinham, nomeadamente no âmbito do PRR – Plano de Recuperação e Resiliência –, vai finalmente ser possível avançar com a implementação deste novo centro especializado. O CITAqua, que deverá nascer no edifício da antiga depuradora de bivalves, dedicar-se-á à qualificação e desenvolvimento de processos de inovação, transferência de tecnologia e apoio ao setor da aquacultura, servindo também como incubadora para novas empresas.

 

A par da instalação do CITAqua, está a ser equacionada a construção de um cais flutuante que permita acesso direto à água a todos quantos trabalhem no ECOMARE.

 

 

* Trabalho editorial produzido em colaboração com a Comissão Europeia em Portugal

 

 

A Comissão Europeia em Portugal desenvolve a iniciativa Bolas de Bruxelas para clarificar alguns dos mitos à volta da União Europeia. A EU proibiu os carapauzinhos? Não se sabe quanto é, de onde vem e para onde vai o dinheiro da UE? Perceba melhor estas e outras ideias feitas, por vezes erradas, aqui.

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