O Santo André está prestes a iniciar uma nova navegação

 

 

 

Este mar que a UE nos deu*

 

 

Afonso Ré Lau e Maria José Santana

 

 

 

É o último da sua classe, testemunho de uma história feita de altos e baixos. Foi, na sua época, um navio moderno, com 71,4 metros de comprimento e porão para 1,2 toneladas de peixe. Nos anos oitenta surgiram medidas de promoção da sustentabilidade das populações de peixe em águas exteriores que resultaram na redução da frota nacional e no abate de boa parte dela. O Santo André não escapou à tendência e a 21 de agosto de 1997 foi desmantelado.

 

Em 2001, o navio Santo André tornou-se museu, atraindo, desde então, milhares de visitantes. Passados vinte anos, está prestes a iniciar um novo ciclo. Foi recuperado, requalificado e vai ganhar um novo discurso expositivo, fruto de um investimento superior a um milhão de euros e que conta com financiamento da União Europeia (superior a 700 mil euros).

 

Dentro em breve, teremos diante nos nossos olhos “um Santo André renovado”, assevera Nuno Miguel Costa, diretor do Museu Marítimo de Ílhavo (MMI), estrutura à qual o navio está ligado. “O Santo André teve uma intervenção estrutural quase tão grande como aquela aconteceu em 2001 para o tornar num navio-museu. Além disso, decidimos, porque era a altura certa para o fazer, proceder a uma renovação do discurso museológico”, acrescenta aquele responsável. Garantida está também “uma renovação dos elementos que acompanham a visita, novos elementos tecnológicos e novos suportes museográficos mais experienciais e imersivos”. Tudo com esse propósito fundamental: “recentrar o navio no seu espaço temporal”.

 

Segundo enquadra Nuno Costa, “até agora, o Navio-museu Santo André representava a pesca por arrasto lateral, em contraponto àquilo que é o grande discurso da faina maior e da pesca do bacalhau à linha, contado no Museu Marítimo de Ílhavo”. Contudo, e fruto da relação que o MMI vai mantendo com a comunidade, percebeu-se que era preciso centrar atenções no pós-25 de abril, no período de transição para a democracia. “Esta renovação vai permitir-nos dar o salto daquele elemento fundamental para o trabalho do Museu Marítimo de Ílhavo que é o portal dos homens e navios do bacalhau. [Este arquivo digital] vive das fichas de inscrição no Grémio dos Armadores dos Navios de Pesca de Bacalhau que, regra geral, são anteriores a 1974. Do período do Estado Novo, de 1937 a 1974, nós conhecemos as tripulações e a frota, é algo que temos bastante bem documentado no portal de homens e navios”, justifica. Faltava o passo seguinte: “conhecer as tripulações que fizeram parte desta atividade de 1974 em diante”.

 

Com esta reformulação do discurso museológico, o Santo André passará, assim, a “mostrar a vivência a bordo do navio nesse período, desde o 25 de abril até ao declínio da frota no início dos anos de 1990. Sendo na mesma um navio da pesca do bacalhau, um arrastão clássico, a ocupação dos espaços, a sociabilização entre os tripulantes, os trabalhos a bordo foram diferentes dos do período anterior”, nota Nuno Costa.

 

Na prática, o que muda são “os objetos e as memórias [que ajudam a contar a história]”. “Os espaços de trabalho são os mesmos. O navio não mudou por dentro”, refere o diretor do MMI. Garantido está também o recurso a componentes tecnológicas, mesas digitais, infografias. “Tivemos a preocupação de garantir suportes de museografia acessíveis e bilingues”, realça aquele responsável.

 

 

 

 

 

Casa das máquinas abre-se ao público

 

Uma das novidades que tem vindo a ser anunciada passa pela possibilidade de visita à casa das máquinas, o que, até agora, não acontecia. “Era um espaço que não estava visitável no período passado. Foi feita uma limpeza, um trabalho de manutenção, de recuperação e asseguraram-se condições de visita para pessoas individuais e para grupos. É um espaço de trabalho que é interessante quer para o conhecedor, quer para o visitante comum que percebe que ali está o coração do navio e que é preciso uma máquina daquele tamanho para fazer um navio destes navegar”, vinca Nuno Miguel Costa. Outra das diferenças que o público irá encontrar reside no edifício de receção, que será completamente novo.

 

O que não muda é o porão com capacidade de auditório. Segundo repara o diretor do MMI, “este navio serve como espaço de atividades complementares ao Festival do Bacalhau, ao Marolas, a atividades do próprio Museu, entre outras. É um espaço inusitado e que é bastante apreciado nesses momentos por quem atua ou faz a sua performance e pelos visitantes que estão a assistir”.

 

A esta altura, ainda não há previsão para a reabertura do Santo André ao público. Nuno Miguel Costa explica que a pandemia tem limitado muito o desenvolvimento dos trabalhos. “Há materiais que não chegam do estrangeiro. Está tudo muito limitado”, lamenta, argumentando: “Acaba por ser ingrato para todos: para quem quer visitar o navio porque já não está a usufruir do Santo André há bastante tempo, para nós, que queremos dar resposta ao público, e para os nossos fornecedores que também querem dar resposta e não conseguem”.

 

 

 

Fundos europeus “fundamentais”

 

Fernando Caçoilo, presidente da Câmara Municipal de Ílhavo, realça a importância deste investimento da recuperação e reformulação do Santo André e para o qual a autarquia contou com financiamento da União Europeia. “Os apoios comunitários são fundamentais para os grandes investimentos. Temos também o exemplo das obras em curso no centro de Ílhavo, incluindo o Centro para a Valorização da Religiosidade ligada ao Mar, que se não fosse o apoio comunitário seria impossível a Câmara Municipal ter capacidade financeira para recuperar e transformar o espaço”, sustenta o autarca.

 

No caso concreto do Navio-museu Santo André, a edilidade garantiu apoio através de dois fundos comunitários: a DLBC Costeiro (Desenvolvimento Local de Base Comunitária – componente costeira) e o Intereg Atlantic. Ainda assim, Fernando Caçoilo gostaria que as oportunidades de financiamento para a área marítima fossem mais amplamente aproveitadas. “Num país que tem a cultura marítima e a costa que nós temos, acho que se investe muito pouco na pesca e na economia do mar como um todo”, opina.

 

 

* Trabalho editorial produzido em colaboração com a Comissão Europeia em Portugal

 

 

A Comissão Europeia em Portugal desenvolve a iniciativa Bolas de Bruxelas para clarificar alguns dos mitos à volta da União Europeia. Não se sabe quanto é, de onde vem e para onde vai o dinheiro da UE? Perceba melhor estas e outras ideias feitas, por vezes erradas, aqui.

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