ALGAplus: um exemplo europeu a partir das águas da ria

 

 

 

Este mar que a UE nos deu*

 

 

Afonso Ré Lau e Maria José Santana

 

 

 

Já provou uma salada com alface-do-mar? Uma quiche de bodelha ou um risotto de erva-patinha? Por acaso, já se imaginou a comer cabelo-de-velha? Pois bem, essa é uma das principais missões da ALGAplus: promover o consumo de macroalgas cultivadas localmente de forma sustentável, levando-as à mesa (e não só) de cada vez mais pessoas.

 

Instalada em Ílhavo, a ALGAplus dedica-se ao cultivo controlado e sustentável de macroalgas autóctones, num sistema de produção inovador e com certificação biológica. É “a única empresa na Europa a fazê-lo a uma escala comercial”, garante a bióloga Helena Abreu, cofundadora e gerente.

 

Desde a sua fundação, a empresa já recebeu cerca de 2 milhões de euros em financiamento europeu, apoios “fundamentais” e que têm permitido “custear o desenvolvimento da nossa atividade, tanto ao nível da capacitação de infraestruturas, como da qualificação de recursos humanos”, afirma Helena, que conta com uma equipa técnica de 15 pessoas, desde biólogos a operadores aquícolas.

 

Se, nos primeiros anos, para a produção de macroalgas, a ALGAplus utilizava água de tanques de piscicultura geridos por outras empresas, a partir de 2018, com um financiamento europeu do Programa Operacional Mar2020 na ordem dos 375 mil euros, passa a dedicar-se igualmente à produção biológica de peixe, nomeadamente, de robalos e douradas.

 

“A atividade que desenvolvemos enquadra-se nos planos de crescimento azul da União Europeia relacionados com as necessidades de produção de cada vez mais alimento – porque somos cada vez mais [habitantes no planeta] – e de obtenção desse alimento a partir de recursos sustentáveis”, esclarece, reconhecendo que “sem o cofinanciamento da União Europeia, dificilmente a ALGAplus existiria”.

 

 

 

 

A ideia que terá dado origem à ALGAplus remonta a 2006, quando Helena estava a fazer o doutoramento no CIIMAR – Centro Interdisciplinar de Investigação Marinha e Ambiental – da Universidade do Porto. A bióloga integrava um projeto de cultivo de macroalgas em aquicultura desenvolvido em parceria com universidades do Chile e dos Estados Unidos da América. Com vasto conhecimento na área e percebendo o potencial comercial que a produção de macroalgas podia representar, Helena decidiu criar uma empresa que pudesse dar resposta às crescentes necessidades do mercado, principalmente, nos ramos alimentar e da cosmética.

 

A ALGAplus viria a nascer em 2012, tendo-se instalado nas antigas infraestruturas de uma piscicultura junto ao canal do Boco da Ria de Aveiro. Por um lado, os biólogos sabiam que “a Ria de Aveiro tem condições ótimas, quer ao nível da temperatura e da qualidade da água, [quer no que diz respeito ao] número de horas de luz por ano” para o cultivo de algas. Por outro, “o facto de estas antigas marinhas de sal, também utilizadas para a atividade de piscicultura, estarem disponíveis para a implementação de um negócio como este” também pesou na decisão.

 

Helena recorda que nas primeiras abordagens aos piscicultores da zona, a maioria considerou o projeto “uma loucura”. “Achavam que éramos maluquinhos por querermos cultivar algas. É engraçado, talvez preocupante e, de alguma forma, curioso que as duas pessoas que mostraram ter uma mentalidade mais aberta e que acolheram a nossa ideia tenham sido os dois produtores de peixe mais idosos da Ria de Aveiro: o senhor Manuel Caçoilo, que faleceria em 2017, e o senhor Ratola”. Pela facilidade de acessos, os fundadores da ALGAplus haveriam de optar pelas infraestruturas de Manuel Caçoilo para a instalação da unidade de produção.

 

Para a escolha do local, terá ainda contribuído a proximidade com a universidade, a possibilidade de integração num tecido empresarial com tradição em produtos de origem marinha e o património cultural de uma região marcada pela histórica apanha de algas e outras plantas aquáticas (moliço).

 

Ao arrancar com a ALGAplus, “a primeira coisa a fazer foi validar o processo”, conta Helena Abreu. Havia que perceber quais as espécies que ali poderiam ser produzidas, conceber protótipos, otimizar protocolos de cultivo e afinar o modelo de negócio de forma a garantir a sustentabilidade ambiental e a melhor relação qualidade/preço dos produtos. Em tudo isto, a ALGAplus foi pioneira.

 

Logo em 2013, a empresa produz as primeiras algas, mas é o ano de 2014 que marca o início da atividade comercial. “Desde o início que quisemos afirmar-nos como empresa de produção e não tanto nas áreas da biotecnologia e dos serviços de inovação, nas quais já existem muitas empresas”, diz Helena. “O que queríamos era ter produtos no mercado”, reitera.

 

 

Na ALGAplus, produzem-se várias espécies de macroalgas que, por serem nativas da costa atlântica, estão perfeitamente adaptadas às condições climáticas e à água dos tanques onde se encontram, a qual é renovada naturalmente através dos ciclos das marés.

 

Como se adivinha pelos seus nomes – alface-do-mar, bodelha, chorão-do-mar, cabelo-de-velha ou nori-do-atlântico, também conhecido como erva patinha – todas estas algas já tiveram tradição de consumo em Portugal, nomeadamente, no seio de comunidades de zonas costeiras bastante pobres. “Eram um alimento muito rico a nível nutricional, que saciava. As pessoas sabiam apanhá-las e consumiam-nas”, relata Helena Abreu, referindo que a ALGAplus está a tentar “recuperar esse património trazendo a componente moderna do cultivo sustentável e da biotecnologia”.

 

Com uma produção na ordem das 40 toneladas por ano, a ALGAplus vende cerca de 80 por cento das algas que produz a granel e sob a marca ALGA+. Os restantes 20 por cento do volume de negócio correspondem a produtos vendidos diretamente ao consumidor. Tok de Mar é o nome da marca comercial da ALGAplus para venda de produtos alimentares à base de macroalgas com certificação biológica (algas desidratadas, inteiras ou em pó, bem como algas frescas conservadas em sal, conserva de sardinha com algas ou flor de sal com flocos de algas). Estes produtos são vendidos através da loja online da empresa, bem como no retalho especializado, em lojas de produtos biológicos ou ao ramo da restauração. “Trabalhamos com chefs premium – quase todos os restaurantes [galardoados com estrelas] Michelin em Portugal são nossos clientes – e também com restaurantes de cozinha tradicional portuguesa – como o Bem Haja, em Aveiro”, elenca.

 

Há ainda a Sea Originals, marca de produtos de bem-estar para o comércio, entre outros artigos, de kit de talassoterapia com um sal esfoliante e um composto à base de chorão-do-mar para hidratação da pele, e a Algaessence. Esta última, criada em parceria com a empresa leiriense Allmicroalgae, é utilizada para venda de uma mistura de micro e macroalgas. “É um produto desenvolvido por nutricionistas que equilibra os macronutrientes – como a proteína e a fibra – e os micronutrientes – como o iodo, o ferro, o cálcio, o magnésio, o potássio. A nossa ideia foi conseguirmos um produto 100 por cento completo a nível de riqueza nutricional, um superalimento”, partilha Helena Abreu.

 

Com clientes em duas dezenas de países por todo o mundo, mais de 75 por cento da produção da ALGAplus é para exportação. Neste momento, alavancada pelos seus mais recentes acionistas – a Sapec Portugal –, a empresa ilhavense prepara-se para instalar um novo sistema de produção, desenvolvido em parceria com o INEGI – Instituto de Ciência e Inovação em Engenharia Mecânica e Engenharia Industrial –, do Porto. A nova tecnologia vai permitir acelerar o crescimento do negócio, prevendo-se que atinja as 170 toneladas de algas produzidas já em 2022.

 

Todos os anos, são produzidas 30 milhões de toneladas de algas em todo o mundo, a maioria, no continente asiático. Em Portugal, “ainda há um longo caminho a percorrer, mas as pessoas têm cada vez maior curiosidade relativamente ao consumo das algas e as suas diversas utilizações”, avança Ana Ribeiro, gestora de marketing da ALGAplus.

 

A empresa ilhavense faz questão de contribuir para a divulgação e dinamização do setor das algas quer a nível nacional – mantendo “portas abertas” a visitas de escolas e da comunidade e organizando eventos gastronómicos e culturais que ajudam a desmistificar a cozinha com algas e a promover os seus benefícios para a saúde –, quer a nível europeu e mundial. Note-se que, além de co-fundadora da Proalga – Associação Portuguesa dos Produtores de Algas –, Helena Abreu é vice-presidente da International Seaweed Association. A partir de 2022, a portuguesa deverá assumir a presidência desta que é a maior associação mundial do setor.

 

 

* Trabalho editorial produzido em colaboração com a Comissão Europeia em Portugal

 

 

 

A Comissão Europeia em Portugal desenvolve a iniciativa Bolas de Bruxelas para clarificar alguns dos mitos à volta da União Europeia. Não se sabe quanto é, de onde vem e para onde vai o dinheiro da UE? Perceba melhor estas e outras ideias feitas, por vezes erradas, aqui.

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1 Comment

  • Madalena
    7 de Maio, 2021

    Smart people eat seaweed 😀

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