Um livro para mobilizar, não para arquivar
Mais do que um ensaio teórico, “A Participação Cívica em Portugal” é, nas palavras do autor, “um livro para agir”. “Não é um livro para estar na prateleira, é um livro para convidar à ação”. O ciclo de conversas “Portugal não é um país sem nós”, que tem acompanhado o lançamento da obra em várias cidades – iniciado em Lisboa e Coimbra, passará agora por Braga e Aveiro, seguindo depois para o Porto e para Faro –, pretende prolongar essa missão mobilizadora. “Seremos um país muito mais justo, solidário e feliz se conseguirmos envolver as pessoas. O futuro não será construído se não tivermos compromissos. É preciso sentarmo-nos à mesa, conversar e celebrar também”.
A iniciativa propõe-se valorizar experiências participativas já existentes, fortalecer redes colaborativas e criar mecanismos de apoio à cidadania ativa. Entre as ações em curso está um mapeamento de hubs e centros cívicos em todo o país e a preparação de um encontro nacional entre os seus protagonistas no próximo ano.
Para Mota, a democracia participativa “não resolve tudo, mas pode proteger, robustecer e inspirar”. E num tempo de polarização e desconfiança, defende, “o futuro só se construirá com compromisso, diálogo e envolvimento”.

Aveiro como exemplo e ponto de partida
O investigador acredita que Aveiro continua a ser um território inspirador para a experimentação cívica. “Desde os tempos dos congressos de oposição democrática, Aveiro sempre teve este pioneirismo cívico, e agora vemos isso reforçado com o surgimento de novas associações, como a Afins, a Limbo ou a Cais 1515. É um bom momento, há um novo ciclo autárquico e é importante aproveitar essa virtuosidade para fazer diferente do passado”.
Ao mesmo tempo, admite que ainda há caminho a percorrer. “Os desafios que temos pela frente – climáticos, demográficos e sociais – são muito complexos e exigem colaboração. Nenhuma organização sozinha os consegue resolver. A participação é também uma forma de pedagogia sobre o porquê da mudança e de como a concretizar”.
Para o autor, a chave está em aproximar os cidadãos. “Temos de ir ter com as pessoas, não apenas convidá-las. Precisamos de espaços cívicos apelativos, de conversas em lugares inesperados, e de uma participação que não seja elitista. O grande desafio é chamar aqueles que normalmente não participam”.
Um novo ciclo de cidadania ativa
José Carlos Mota deseja que a apresentação do livro em Aveiro seja “um pontapé de saída para novas conversas sobre como podemos ser uma melhor cidade e uma melhor comunidade”. E deixa o desafio: “Cada um de nós pode ser o ponto de ignição dessa mudança. Não participar é desperdiçar o potencial coletivo que o país tem de sobra”.
Num tempo de polarização e ruído, o investigador acredita que a resposta está na cooperação e na escuta: “Estamos a viver um tempo de desconfiança brutal. Só o vamos vencer com uma postura colaborativa e com a capacidade de aprender a discordar, mas também a encontrar compromissos.”
Com A Participação Cívica em Portugal, José Carlos Mota reafirma o papel da cidadania ativa na construção de um país mais justo, solidário e colaborativo – um país que, como insiste o autor, “não é, nem será, um país sem nós”.