Navegadores de Palmo e Meio: De pequenino é que se toma o pulso ao leme

 

 

 

Este mar que a UE nos deu*

 

 

Afonso Ré Lau e Maria José Santana

 

 

 

A Ria à qual Aveiro empresta o nome rompe cidade adentro, temperando as ruas, as casas e as vidas dos aveirenses. Mas será que a comunidade ainda tem a ousadia necessária para sair da estreiteza e quietude dos canais urbanos e habitar a laguna autêntica, indomável e imensa?

 

Foi com a ambição de “trazer os aveirenses para fora dos canais da cidade” e, através de desportos náuticos como a vela e a canoagem, “dar-lhes a conhecer a Ria a sério”, que o Sporting Clube de Aveiro criou o projeto Navegadores de Palmo e Meio. Nuno Silva, diretor da secção de vela do clube aveirense, explica que este projeto tem dinamizado uma verdadeira “escola de Ria”, divulgando o desporto náutico nas escolas e possibilitando a centenas de crianças e jovens oportunidades para experimentarem vela e canoagem de forma completamente gratuita.

 

O projeto Navegadores de Palmo e Meio foi cofinanciado pelo Fundo Europeu dos Assuntos Marítimos e das Pescas, através do Programa Operacional Mar2020, tendo contado com um apoio superior a 13 mil euros. Além da componente de vela ligeira, a iniciativa contempla também a vertente da vela adaptada ou, como preferem apelidá-la no clube, “vela inclusiva”. Apesar do nome, o programa está aberto a entusiastas de todas as idades.

 

 

Desde a sua fundação, a 21 de março de 1951, que o Sporting Clube de Aveiro é um clube virado para a Ria e para os desportos náuticos. Na primeira década, a modalidade de maior notoriedade foi a motonáutica, mas rapidamente a vela passaria a assumir lugar de destaque; nos anos de 1970, chega ao clube a secção de natação e, na década seguinte, é a vez da canoagem.

 

Hoje em dia, o Sporting de Aveiro conta com dezenas de atletas – velejadores, nadadores e canoístas – que se dedicam ao treino regular destas modalidades e encaram a Ria como trampolim dos seus talentos, fonte de superação física e palco para a realização pessoal. O projeto Navegadores de Palmo e Meio, no entanto, surgiu para quem ainda não faz da Ria o seu habitat natural, em especial, para as crianças e jovens das escolas do município de Aveiro. Ao abrigo deste empreendimento, o clube tem conseguido dar a conhecer o desporto náutico e a cultura de mar que norteia a sua atividade, bem como o plano de água da Ria de Aveiro.

 

Por norma, as atividades começam em ambiente de sala de aula, com sessões de formação teórica, dadas pelos técnicos do clube, sobre as modalidades da vela e da canoagem, bem como a nomenclatura náutica com a qual, a bordo, todos passarão a entender-se. Na sessão seguinte, há que ir para a água! Saber nadar ajuda, claro, ainda que o clube garanta não só o acompanhamento permanente dos monitores, mas também que a utilização de colete de salvação é regra comum a noviços e atletas experientes. Nuno Silva explica que, com a prática da vela, as crianças e jovens trabalham a autonomia e o sentido de responsabilidade sobre si próprios, apercebem-se da necessidade de adquirir resistência física e agilidade e desenvolvem uma certa “capacidade de desenrascanço”. A bordo, “percebem que têm de ultrapassar os seus próprios limites e superar uma série de desafios. Têm de estar completamente alerta, porque recebem uma série de estímulos quando estão numa embarcação”, esclarece. Há que ter em conta também a perspetiva do lazer. É que, contrariando a tendência acelerada dos tempos, “velejar ajuda a relaxar. Não há telemóveis, nem PlayStation, nem Netflix quando estamos na Ria”.

 

Apesar de ser um projeto focado na população mais jovem, e que tem nas escolas importantes parceiros, o clube acolhe pessoas de todas as idades para batismos de vela. “Dos 6 aos 99 [anos], quem quiser experimentar a arte e a sensação de velejar, só tem de aparecer aos sábados”, informa Nuno.

 

A academia do Sporting Clube de Aveiro conta com uma equipa técnica certificada pela Federação Portuguesa de Vela para ensino não só de vela ligeira, mas também de vela adaptada, recursos humanos “essenciais para dar corpo e alma a este projeto”.

 

Foi em 2010, e através de uma iniciativa desenvolvida em parceria com os Serviços de Ação Social da Universidade de Aveiro, que o Sporting Clube de Aveiro abraçou pela primeira vez o desporto náutico inclusivo, passando a promover a prática da vela adaptada a pessoas com mobilidade condicionada ou incapacidades cognitivas. Mais de uma década depois, “os resultados estão à vista”, afiança Nuno Silva. “É uma alegria vê-los a navegar. Na água, são iguais aos outros, as limitações não se fazem sentir”. De acordo com o diretor, o clube aveirense “é o único da região Centro com atividades regulares – e não só pontuais – de vela adaptada”. O Sporting Clube de Aveiro recebe crianças com necessidades educativas especiais das escolas, bem como adultos, membros de instituições como a CerciAv, a APPACDM, a ACAPO ou a Pais em Rede. Há também atletas que treinam regularmente e participam em provas de competição. “Ainda em 2018, tivemos um campeão nacional em vela adaptada”, recorda o dirigente, orgulhoso.

 

 

Outra das mais-valias do projeto Navegadores de Palmo e Meio é ajudar a desmistificar a ideia de que a vela é um desporto elitista, preconceito que, para Nuno, não passa de “uma desculpa para quem não quer praticar desportos náuticos”.

 

Na verdade, ainda que no patamar dos velejadores de alta competição a realidade seja diferente – por norma, cada atleta tem uma embarcação própria e, não raras vezes, tem de arcar sozinho com os custos da sua manutenção –, para aqueles que encaram a vela como uma atividade lúdica e de promoção de uma vida saudável em contacto com a Ria, os “preços da prática da modalidade são perfeitamente acessíveis”. Além disso, no Sporting Clube de Aveiro, “se houver alguém que queira praticar vela e, por dificuldades financeiras, não possa pagar, o clube arranjará solução”, garante Nuno Silva.

 

Apesar disso, Nuno reconhece que a vela “é um desporto com muitos custos”, mas explica que, no caso do Sporting de Aveiro, “é o clube a assumir grande parte desses custos de forma a não onerar os praticantes”. Ora, para que tal seja possível, o financiamento da União Europeia tem sido fulcral. “Só ao abrigo de um projeto cofinanciado como o Navegadores de Palmo e Meio é que seria possível manter esta dinâmica de as pessoas virem experimentar fazer vela, com aulas abertas e gratuitas”, assegura.

 

Ao longo dos últimos anos, os fundos europeus permitiram igualmente que o clube de Aveiro se equipasse de forma a proporcionar a todos os interessados experiências náuticas de qualidade e em segurança. Atualmente, aquela academia de vela conta com “uma frota bastante completa”, desde embarcações individuais das classes Optimist e Laser, até embarcações de maior dimensão, como as das classes 420, Raquero ou da clássica Vaurien. O clube possui ainda sete embarcações de vela adaptada – “barcos que não viram”, como os da classe Hansa 303 – e seis semirrígidas a motor para apoio a todas as atividades na água.

 

Ali, no lugar dos Moinhos, de coração na água e olhos postos na Ria, entre as salinas, os estaleiros e o Centro Municipal de Interpretação Ambiental, o Sporting Clube de Aveiro tem um recinto amplo e coberto onde guarda as embarcações, os seus atrelados, os mastros, as velas e restante palamenta. Há também uma rampa de acesso à água, guincho e cais de embarque e, no Pavilhão Vasco Agoas – assim se chama aquela infraestrutura –, instalações para arrumo das canoas e caiaques do clube, bem como balneários, um ginásio, salas de reunião e um bar com esplanada. Apesar de tudo, confessa Nuno, “[aquele espaço] já é pequeno para o que precisamos”. “As secções de vela e canoagem querem crescer”, assume o diretor.

 

 

 

* Trabalho editorial produzido em colaboração com a Comissão Europeia em Portugal

 

 

A Comissão Europeia em Portugal desenvolve a iniciativa Bolas de Bruxelas para clarificar alguns dos mitos à volta da União Europeia. Não se sabe quanto é, de onde vem e para onde vai o dinheiro da UE? Perceba melhor estas e outras ideias feitas, por vezes erradas, aqui.

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