Praça da República: a do poder, das artes e da inovação

 

Pompílio Souto *

 

 

 

O Diário de Aveiro diz que o Senhor Presidente da Câmara disse: “Temos a aposta de dar uma vida nova àquele edifício onde queremos instalar os serviços da Câmara Municipal de Aveiro integrando um expressivo memorial à escola e ao seu patrono e dando um edifício novo ao Ministério da Educação para termos uma Escola Secundária Homem Cristo como os seus alunos, professores e pessoal não docente merecem, com todas as boas condições que a modernidade nos propicia e exige nos edifícios e nos seus espaços verdes, de recreio e de desporto”, sendo que [“alerta” o jornal], “ao longo dos anos (…) têm-se ouvido algumas vozes a defender que o histórico imóvel, pelo seu simbolismo, deve permanecer na área da educação”.

 

Isto tem que se lhe diga e, do meu ponto de vista, constitui uma ameaça e a perda de uma oportunidade.

 

Mas indo por partes…

 

Eu fui um dos que, há anos, defendeu que o edifício continuasse a ser uma “escola” mas não era por causa do seu “simbolismo”; era por causa da vida – e do tipo de vida – que “A Escola” traria à praça e ao centro da cidade. Depois, quando o Presidente diz “temos a aposta de dar uma vida nova àquele edifício onde queremos instalar os serviços da Câmara Municipal de Aveiro integrando um expressivo memorial à escola e ao seu patrono”, está é, penso eu, a dar-nos “música”: música celestial daquela que ele imagina satisfazer os anjos.

 

Ora, aqui chegados, eu ateu me confesso: Era mesmo de “música” que eu acho que o “lugar”, e a “praça”, e os “edifícios contíguos”, e o “centro da cidade”, bem como a “educação, as artes e a cultura”, e ainda “a sociedade e os seus representantes eleitos” precisavam.

 

Mas voltemos às partes. Por um lado, o que verdadeiramente acontece é que o Edifício da Escola Homem Cristo não está em condições de satisfazer bem aquilo que lá se faz. Mas há outros que também não. Por exemplo o do Conservatório de Música Calouste Gulbenkian e o da Orquestra Filarmónica das Beiras. Ambos são acanhados – o do Conservatório acolhe agora uma Escola Artística, e o da Filarmónica funciona, vejam lá, na Casa de Chá do Parque Municipal Infante D. Pedro.

 

Uma e outra coisa não são boas. Nem para as instituições, nem para o que fazem, nem para nós, porque todos perdemos. Perdemos, por exemplo, uma “Escola Artística Info-juvenil” no Edifício Gulbenkian (que já por ali funcionou e com sucesso) e uma bela Casa de Chá “estruturante de uma “nova vida do Parque Romântico” que temos em perda.

 

Por outro lado, para além da Escola Homem Cristo, na “Praça” temos os Paços do Concelho (edifício sede e representação do poder municipal eleito), temos, também, o Teatro Aveirense (cada vez em melhor forma e mais apto a “novas aventuras”); a Biblioteca Municipal (agora “o Atlas” centro de pensamento, saber e inovação); a Livraria Bertrand; a sede da Santa Casa da Misericórdia, a Igreja da Misericórdia, incluindo as salas do despacho e o soberbo claustro, bem como os Anexos (onde transitoriamente teve sede o MDP-CDE); e o “diversificado e belo plano de fachadas – Costeira abaixo”, com doces e saudáveis ofertas que animam o que assim é, definitivamente, um “lugar”. Lugar onde apenas “reside” o José Estevão – figura e símbolo que carece de companhia e não, apenas, de acompanhamento nas horas de expediente (dos serviços técnico-administrativos da Câmara. p.e).

 

Assim, aqui chegados…

 

O que era mesmo, mesmo muito interessante, útil e radicalmente inovador – meus Caros – era fazer obras no Edifício da Homem Cristo para lá instalar a Escola Artística do Conservatório de Música Calouste Gulbenkian – a funcionar em regime de ensino integrado –, com ligações diretas ao Teatro Aveirense e ao Atlas, enquanto do lado oposto à volta do Claustro da Misericórdia se instalava a Filarmónica das Beiras e um Espaço de Artes Plásticas.

 

Quanto às partes, acho que ganhariam todos! Tenho consciência de que não seria uma “operação” – como gosta de dizer o Eng. Ribau Esteves – fácil, nem para se fazer num mandato e com o pleno agrado de alguns mas a verdade, meus caros, é que ganhava o que interessa.

 

Ganhava a música, a dança, o canto e o mais que se lhe juntasse, mas indiretamente, ganhariam também as outras Escolas que, com projetos educativos não centrados nessas artes, se veem “obrigadas” a constituir “turmas especiais” para os alunos que depois alguém (que pode) transporta (à hora que calha) para o espaço onde o jovem estuda aquilo que considera “central no seu processo educativo e formativo”. Por arrasto ganhavam também aqueles outros jovens que não têm quem os possa transportar à hora que calha para a “escola onde poderiam realizar-se” – o Conservatório.

 

Ganhava a música filarmónica, a ópera e tudo o mais e muito que faz com outros lugares, intérpretes e públicos. Ganhavam a artes plásticas e afins – que até poderiam continuar sob a tutela da Escola Homem Cristo – mas num espaço com a características e grau de exposição necessários e desejáveis. Ganhava o Atlas – porque tudo isto apoiava e ligava.

 

Por isso, e se assim fosse, daqui partíamos, com um melhor Lugar, Praça, Conjunto Edificado e Centro de Cidade; com melhor Educação, Artes, Cultura e Pensamento, Saber e Inovação tudo (re)criado por uma Governação Local Esclarecida que, de olhos postos no Futuro, não teme as dificuldades perante a indispensabilidade de – connosco – fazer, de facto, “a sociedade mais educada e mais feliz que todos prometem e que todos, com avanços e recuos, vimos fazendo”.

 

E sim, para assim ser até valeria a pena relocalizar a Escola Homem Cristo (ou parte dela) e dar novos Espaços aos Serviços da Autarquia que, neste caso, provavelmente até era bom que não estivessem todos no mesmo local.

 

 

* Arquiteto e ex-docente universitário

 

 

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