Este mar que a UE nos deu

 

 

 

Afonso Ré Lau e Maria José Santana

 

 

 

Numa altura em que os holofotes já começam a virar-se para o novo fundo europeu dos assuntos marítimos e da pesca – tanto mais porque Portugal é o quinto Estado Membro com maior dotação de fundo atribuída -, também é tempo de fazer balanços ao anterior fundo e aos investimentos que ele ajudou a concretizar na região de Aveiro. Os números oficiais, disponibilizados pela equipa de gestão do Mar2020, indicam que o distrito de Aveiro teve um total de 174 projetos aprovados, que envolvem um investimento de 27,9 milhões de euros.

 

Aveiro está entre os distritos que mais recorreu a este programa operacional do Fundo Europeu dos Assuntos Marítimos e das Pescas – a região Centro foi a que apresentou e viu aprovados projetos que no total envolvem o maior valor de investimento (197 milhões de euros), somando umas quantas notas dignas de destaque. Começando, desde logo, pela “forte aposta na inovação e conhecimento e parcerias entre investigadores e pescadores para a transferência do conhecimento científico, com cinco projetos aprovados, com forte papel da Universidade de Aveiro”.

 

Referência, ainda, para os cinco projetos de investimento produtivo de empresas aquícolas, como Aquacria Piscícolas, S.A., ALGAplus – Produção e Comercialização de Algas e seus Derivados, Lda. e a Voltar ao Mar, Lda., bem como para os 12 projetos de empresas de transformação, como é o caso da Mar Lusitano – Produtos Alimentares, Lda., ou da Fábrica de Conservas da Murtosa, Lda..

 

A região, que ainda vai vivendo “assombrada” pela ideia que a União Europeia representou a destruição a frota de pesca nacional – por conta da preocupação com a sustentabilidade dos recursos piscatórios, a Comissão Europeia promoveu a redução mediante a atribuição de apoios para destruição dos barcos e a sua substituição por embarcações mais modernas e eficientes -, parece estar a acompanhar as mudanças dos tempos e das vontades. Acima de tudo, Aveiro mantém a vocação marítima, transpondo a forte ligação ao oceano e à ria também para as áreas da cultura, do turismo e do desporto, entre outros.

 

Disso são exemplo os 15 projetos de comunidades piscatórias, para execução das suas estratégias de desenvolvimento local, desenvolvidos ao abrigo do Mar 2020. Investimentos entre os quais se incluem o projeto Navegadores de palmo e meio (NPM) – Ria na Escola; a reabilitação do Navio-museu Santo André e a ampliação e remodelação do Estaleiro Museu da Praia do Monte Branco, na Murtosa.

 

Projetos apoiados pelo fundo europeu dos assuntos marítimos e da pesca e que ajudam a demonstrar a janela de oportunidades que o mar continua a trazer para os agentes económicos e políticos da região.

 

 

Aquicultura é prioridade para 2021-2027

 

Aveiro deverá, agora, começar a preparar-se para apanhar o “comboio” do novo Fundo Europeu dos Assuntos Marítimos, das Pescas e da Aquicultura, decorrente do novo quadro orçamental plurianual, sendo já mais do que certo que a aquicultura aparece como uma das principais prioridades de investimento. Como evidencia, de resto, a própria mudança do nome do fundo: passou de FEAMP (Fundo Europeu dos Assuntos Marítimos e da Pesca) para FEAMPA, juntando a Aquicultura no final.

 

De acordo com dados disponibilizados pela equipa de gestão de fundo, “a aposta no setor resultará robustecida, pretendendo-se promover: a exploração sustentável dos recursos, prosseguindo na adaptação da frota pesqueira aos recursos disponíveis, não deixando de modernizar as embarcações mas ao mesmo tempo reduzindo, até zero, os segmentos desequilibrados; o empreendedorismo e o rejuvenescimento dos empresários, apesar de no setor da pesca não se registar desemprego, mas até falta de mão de obra, devemos atraindo os jovens para esta atividade dando-lhes adequadas condições de desenvolvimento empresarial”.

 

Por último, e não menos importante, surge, então, a aposta na aquicultura, “que constitui a atividade com o maior potencial de crescimento, tendo presente que este setor é da maior importância para minimizar o défice dos recursos da União Europeia e para aumentar um sistema alimentar sustentável, essencial para alcançar os objetivos climáticos e ambientais do Green Deal”. No caso concreto de Portugal, a ideia passa por “aproveitar as vantagens competitivas únicas” que o país oferece, “como as condições naturais, o conhecimento especializado e as competências em termos de recursos humanos”. “Pretendemos promover os tipos de aquicultura mais adequados para cada território, em terra e no mar, queremos diversificar a oferta de peixe, moluscos e algas, numa aposta clara de produtos de elevadíssima qualidade”, é referido.

 

A perspetiva passa por prosseguir o “estímulo à competitividade do conjunto das atividades produtivas, das quais se destaca o setor da transformação, alicerçado na inovação com base no conhecimento, na digitalização, na utilização eficiente dos recursos, havendo aqui um enorme caminho a fazer na transformação dos produtos da aquicultura, e não apenas do pescado, bem como no progresso para uma economia circular”.

 

 

 


 

O futuro da aquicultura constrói-se no ECOMARE

 

 

 

 

O ECOMARE resultou de um investimento de cerca de 4,9 milhões de euros, cofinanciados em 85% pelo FEDER – Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional. Segundo a Comissão Europeia, este projeto “é um exemplo do modo como a infraestrutura existente nas zonas costeiras desenvolvidas com acesso privilegiado ao mar podem ser utilizadas para a conservação e apreciação dos bens e serviços dos ecossistemas”. Em 2019, o ECOMARE chegou mesmo a estar entre os finalistas aos prémios RegioStars, os “óscares” da Comissão Europeia para projetos de desenvolvimento regional financiados com fundos comunitários.

 

Apesar de ser mais conhecido pelo seu Centro de Reabilitação de Animais Marinhos (CRAM) que, desde 2017, já resgatou, cuidou e devolveu à natureza milhares de aves marinhas, tartarugas, focas e golfinhos, o ECOMARE é também um laboratório científico de excelência. No Centro de Extensão e Pesquisa em Aquacultura e Mar (CEPAM), a outra unidade daquele complexo, desenvolvem-se investigações em áreas como a ecologia e biotecnologia marinha e a aquicultura sustentável.

 

Uma das apostas mais recentes deste centro de investigação instalado junto ao porto de pesca costeira, na Gafanha da Nazaré, é o AquaMMin, um projeto de desenvolvimento de um sistema de aquicultura modular multitrófica integrada, financiado pelo Programa Operacional Mar2020 da União Europeia num montante que ronda o milhão de euros.

 

Em entrevista à Aveiro Mag, Ricardo Calado, investigador do CESAM – Centro de Estudos do Ambiente e do Mar –, do Departamento de Biologia da Universidade de Aveiro, e coordenador deste projeto, descreve uma infraestrutura “única no país” que, entre outras valências, vai permitir o máximo aproveitamento dos nutrientes adicionados sob a forma de rações e uma operação em regime de zero troca de água, otimizando a biossegurança do sistema.

 

 

 

A instalação-piloto, montada numa estufa contígua ao edifício do CEPAM, é composta por oito unidades modulares, cada uma dividida em três tanques interdependentes. A cada unidade corresponde uma linha de produção e em cada tanque serão cultivadas espécies de um nível trófico diferente.

 

Nos tanques de maior dimensão serão colocadas espécies de um nível trófico superior, como o robalo, a dourada ou o camarão. Como estes seres são alimentados a rações que nunca consomem na sua totalidade, a água que habitam vai enriquecendo em matéria orgânica. Esta água, repleta de partículas grosseiras, é distribuída por outros tanques com espécies do nível trófico imediatamente abaixo (serradela, pepino-do-mar e ostra), capazes de se alimentar desses fragmentos.

 

De seguida, a água – agora, já “mais limpa”, mas ainda com matéria inorgânica dissolvida, resultante do processamento da matéria orgânica nos tanques anteriores – passa para novos tanques onde espécies como a salicórnia e a alface-do-mar encarregar-se-ão de retirar do meio todos os nutrientes que ainda persistam. Qualquer partícula que subsista será removida nas unidades de filtração pelas quais a água passa antes de ser bombeada de volta ao início da linha de produção, isto é, aos tanques de maior dimensão.

 

Assim, todos os nutrientes que entram no sistema ficam lá sequestrados sob a forma de biomassa. “Se gastamos dinheiro nas rações, o objetivo é usar 100% desses nutrientes” afirma Ricardo Calado, explicando que a equipa que desenvolveu este sistema se inspirou nas dinâmicas de um recife de coral. “Os recifes de coral são ecossistemas muito produtivos, que vivem em águas muito pobres. Porquê? Porque os próprios corais não permitem que os nutrientes saiam do recife. É isso que, de alguma forma, tentamos recriar aqui”. “Essa é uma das grandes diferenças do ECOMARE em relação a outros centros de investigação em Portugal: exploramos soluções inspiradas na natureza, neste caso, no oceano”, acrescenta.

 

Ao longo da linha de produção, a água passa para o tanque seguinte sempre por força da gravidade, o que faz com que o único gasto energético desta instalação seja aquele que permite bombear a água filtrada de volta para os tanques iniciais.

 

Com uma estrutura com estas características, a água movimenta-se em circuito fechado, o que assegura não só um “maior controlo das variáveis que podem influenciar o desempenho dos organismos em cultivo”, como ajuda a garantir “níveis elevados de biossegurança”, já que os organismos não estão dependentes de variações no meio. Ricardo Calado explica que, no domínio da aquicultura, “há uma preocupação crescente em garantir a biossegurança para evitar a proliferação de doenças e, como tal, diminuir o uso dos compostos químicos necessários a combater essas doenças”.

 

A garantia de biossegurança na produção é também fator essencial no combate à desconfiança dos consumidores relativamente à aquicultura. “Há uma série de mitos que vão sendo perpetuados: que os peixes [provenientes] de aquicultura estão cheios de antibióticos, que são produzidos em tanques em que a água tem condições terríveis, que acumulam metais pesados. Hoje em dia, esses mitos não são, de todo, verdade”, assevera Ricardo Calado.

 

O investigador afirma que a aquicultura que se faz na Europa é “muito controlada e extremamente regulamentada” e, por isso, confiável. Faz questão de esclarecer que “as práticas implementadas em território europeu, nem sempre são as mesmas que são implementadas no sudeste asiático, o grande motor da aquicultura a nível mundial. Mas as pessoas estão mais preocupadas em saber se a dourada que consomem é de aquicultura e, mesmo que tenha sido produzida na Europa, ficam mais desconfiadas, do que quando compram um quilo de camarões produzidos no Bangladeche ou no Vietname, em condições que não são as mais desejáveis”.

 

 

Voltando ao AquaMMin, o sistema desenvolvido dispõe de soluções de automação com vários pontos de controlo – sondas – que enviam informação em tempo real para um servidor, permitindo aos investigadores uma monitorização permanente e assegurada remotamente, a partir de um smartphone. “A vantagem é que se houver uma falha qualquer, o sistema tem forma de a corrigir e nós somos automaticamente avisados, podendo autorizar ou não essa correção”, esclarece o coordenador do projeto. Além disso, todos os dados da monitorização são guardados numa cloud para posterior tratamento.

 

Neste projeto, demonstra-se, a uma escala pequena, um conceito e uma tecnologia que, futuramente, poderão ser instalados, a uma escala muito maior, em empresas de produção em aquicultura, mesmo longe da costa. Ricardo Calado prevê que o sistema esteja operacional no final de abril e, avança, já há empresas interessadas em desenvolver estudos naquela instalação-piloto. Para o coordenador do AquaMMin, este interesse “só confirma que [o projeto] foi uma boa aposta”. “De facto, esse era o objetivo inicial: trabalharmos para e com as empresas. Essa ideia está na génese de toda a ciência que se faz no ECOMARE. O nosso objetivo é fazer boa ciência e, de preferência, ciência que dê respostas às necessidades tecnológicas que as empresas enfrentam a cada momento”, garante o investigador.

 

Na calha estão outros projetos relacionados com a interpretação de “códigos de barras naturais” para confirmação da origem geográfica dos produtos de mar, com a conservação das pradarias marinhas e a sua adaptação às alterações climáticas e com a exploração do potencial da salicórnia e de outras plantas halófitas. No CEPAM, há ainda quem esteja a estudar os efeitos que poluentes emergentes (como o paracetamol) exercem sobre a vida marinha e quem trabalhe em bioprospeção, isto é, na procura de compostos químicos que sirvam de inspiração ou de fonte para o desenvolvimento de novos medicamentos.

 

Ricardo Calado mantém ainda a esperança que o CITAqua – Centro de Inovação e Tecnologia em Aquacultura –, a prometida terceira unidade do ECOMARE, possa avançar em breve. O investigador acredita que, com as oportunidades de financiamento europeu que se avizinham, nomeadamente no âmbito do PRR – Plano de Recuperação e Resiliência –, vai finalmente ser possível avançar com a implementação deste novo centro especializado. O CITAqua, que deverá nascer no edifício da antiga depuradora de bivalves, dedicar-se-á à qualificação e desenvolvimento de processos de inovação, transferência de tecnologia e apoio ao setor da aquacultura, servindo também como incubadora para novas empresas.

 

A par da instalação do CITAqua, está a ser equacionada a construção de um cais flutuante que permita acesso direto à água a todos quantos trabalhem no ECOMARE.

 

 


 

 

ALGAplus: um exemplo europeu a partir das águas da ria

 

 

Já provou uma salada com alface-do-mar? Uma quiche de bodelha ou um risotto de erva-patinha? Por acaso, já se imaginou a comer cabelo-de-velha? Pois bem, essa é uma das principais missões da ALGAplus: promover o consumo de macroalgas cultivadas localmente de forma sustentável, levando-as à mesa (e não só) de cada vez mais pessoas.

 

Instalada em Ílhavo, a ALGAplus dedica-se ao cultivo controlado e sustentável de macroalgas autóctones, num sistema de produção inovador e com certificação biológica. É “a única empresa na Europa a fazê-lo a uma escala comercial”, garante a bióloga Helena Abreu, cofundadora e gerente.

 

Desde a sua fundação, a empresa já recebeu cerca de 2 milhões de euros em financiamento europeu, apoios “fundamentais” e que têm permitido “custear o desenvolvimento da nossa atividade, tanto ao nível da capacitação de infraestruturas, como da qualificação de recursos humanos”, afirma Helena, que conta com uma equipa técnica de 15 pessoas, desde biólogos a operadores aquícolas.

 

Se, nos primeiros anos, para a produção de macroalgas, a ALGAplus utilizava água de tanques de piscicultura geridos por outras empresas, a partir de 2018, com um financiamento europeu do Programa Operacional Mar2020 na ordem dos 375 mil euros, passa a dedicar-se igualmente à produção biológica de peixe, nomeadamente, de robalos e douradas.

 

“A atividade que desenvolvemos enquadra-se nos planos de crescimento azul da União Europeia relacionados com as necessidades de produção de cada vez mais alimento – porque somos cada vez mais [habitantes no planeta] – e de obtenção desse alimento a partir de recursos sustentáveis”, esclarece, reconhecendo que “sem o cofinanciamento da União Europeia, dificilmente a ALGAplus existiria”.

 

 

 

 

A ideia que terá dado origem à ALGAplus remonta a 2006, quando Helena estava a fazer o doutoramento no CIIMAR – Centro Interdisciplinar de Investigação Marinha e Ambiental – da Universidade do Porto. A bióloga integrava um projeto de cultivo de macroalgas em aquicultura desenvolvido em parceria com universidades do Chile e dos Estados Unidos da América. Com vasto conhecimento na área e percebendo o potencial comercial que a produção de macroalgas podia representar, Helena decidiu criar uma empresa que pudesse dar resposta às crescentes necessidades do mercado, principalmente, nos ramos alimentar e da cosmética.

 

A ALGAplus viria a nascer em 2012, tendo-se instalado nas antigas infraestruturas de uma piscicultura junto ao canal do Boco da Ria de Aveiro. Por um lado, os biólogos sabiam que “a Ria de Aveiro tem condições ótimas, quer ao nível da temperatura e da qualidade da água, [quer no que diz respeito ao] número de horas de luz por ano” para o cultivo de algas. Por outro, “o facto de estas antigas marinhas de sal, também utilizadas para a atividade de piscicultura, estarem disponíveis para a implementação de um negócio como este” também pesou na decisão.

 

Helena recorda que nas primeiras abordagens aos piscicultores da zona, a maioria considerou o projeto “uma loucura”. “Achavam que éramos maluquinhos por querermos cultivar algas. É engraçado, talvez preocupante e, de alguma forma, curioso que as duas pessoas que mostraram ter uma mentalidade mais aberta e que acolheram a nossa ideia tenham sido os dois produtores de peixe mais idosos da Ria de Aveiro: o senhor Manuel Caçoilo, que faleceria em 2017, e o senhor Ratola”. Pela facilidade de acessos, os fundadores da ALGAplus haveriam de optar pelas infraestruturas de Manuel Caçoilo para a instalação da unidade de produção.

 

Para a escolha do local, terá ainda contribuído a proximidade com a universidade, a possibilidade de integração num tecido empresarial com tradição em produtos de origem marinha e o património cultural de uma região marcada pela histórica apanha de algas e outras plantas aquáticas (moliço).

 

Ao arrancar com a ALGAplus, “a primeira coisa a fazer foi validar o processo”, conta Helena Abreu. Havia que perceber quais as espécies que ali poderiam ser produzidas, conceber protótipos, otimizar protocolos de cultivo e afinar o modelo de negócio de forma a garantir a sustentabilidade ambiental e a melhor relação qualidade/preço dos produtos. Em tudo isto, a ALGAplus foi pioneira.

 

Logo em 2013, a empresa produz as primeiras algas, mas é o ano de 2014 que marca o início da atividade comercial. “Desde o início que quisemos afirmar-nos como empresa de produção e não tanto nas áreas da biotecnologia e dos serviços de inovação, nas quais já existem muitas empresas”, diz Helena. “O que queríamos era ter produtos no mercado”, reitera.

 

 

Na ALGAplus, produzem-se várias espécies de macroalgas que, por serem nativas da costa atlântica, estão perfeitamente adaptadas às condições climáticas e à água dos tanques onde se encontram, a qual é renovada naturalmente através dos ciclos das marés.

 

Como se adivinha pelos seus nomes – alface-do-mar, bodelha, chorão-do-mar, cabelo-de-velha ou nori-do-atlântico, também conhecido como erva patinha – todas estas algas já tiveram tradição de consumo em Portugal, nomeadamente, no seio de comunidades de zonas costeiras bastante pobres. “Eram um alimento muito rico a nível nutricional, que saciava. As pessoas sabiam apanhá-las e consumiam-nas”, relata Helena Abreu, referindo que a ALGAplus está a tentar “recuperar esse património trazendo a componente moderna do cultivo sustentável e da biotecnologia”.

 

Com uma produção na ordem das 40 toneladas por ano, a ALGAplus vende cerca de 80 por cento das algas que produz a granel e sob a marca ALGA+. Os restantes 20 por cento do volume de negócio correspondem a produtos vendidos diretamente ao consumidor. Tok de Mar é o nome da marca comercial da ALGAplus para venda de produtos alimentares à base de macroalgas com certificação biológica (algas desidratadas, inteiras ou em pó, bem como algas frescas conservadas em sal, conserva de sardinha com algas ou flor de sal com flocos de algas). Estes produtos são vendidos através da loja online da empresa, bem como no retalho especializado, em lojas de produtos biológicos ou ao ramo da restauração. “Trabalhamos com chefs premium – quase todos os restaurantes [galardoados com estrelas] Michelin em Portugal são nossos clientes – e também com restaurantes de cozinha tradicional portuguesa – como o Bem Haja, em Aveiro”, elenca.

 

Há ainda a Sea Originals, marca de produtos de bem-estar para o comércio, entre outros artigos, de um kit de talassoterapia com um sal esfoliante e um composto à base de chorão-do-mar para hidratação da pele, e a Algaessence. Esta última, criada em parceria com a empresa leiriense Allmicroalgae, é utilizada para venda de uma mistura de micro e macroalgas. “É um produto desenvolvido por nutricionistas que equilibra os macronutrientes – como a proteína e a fibra – e os micronutrientes – como o iodo, o ferro, o cálcio, o magnésio, o potássio. A nossa ideia foi conseguirmos um produto 100 por cento completo a nível de riqueza nutricional, um superalimento”, partilha Helena Abreu.

 

Com clientes em duas dezenas de países por todo o mundo, mais de 75 por cento da produção da ALGAplus é para exportação. Neste momento, alavancada pelos seus mais recentes acionistas – a Sapec Portugal –, a empresa ilhavense prepara-se para instalar um novo sistema de produção, desenvolvido em parceria com o INEGI – Instituto de Ciência e Inovação em Engenharia Mecânica e Engenharia Industrial –, do Porto. A nova tecnologia vai permitir acelerar o crescimento do negócio, prevendo-se que atinja as 170 toneladas de algas produzidas já em 2022.

 

Todos os anos, são produzidas 30 milhões de toneladas de algas em todo o mundo, a maioria, no continente asiático. Em Portugal, “ainda há um longo caminho a percorrer, mas as pessoas têm cada vez maior curiosidade relativamente ao consumo das algas e as suas diversas utilizações”, avança Ana Ribeiro, gestora de marketing da ALGAplus.

 

A empresa ilhavense faz questão de contribuir para a divulgação e dinamização do setor das algas quer a nível nacional – mantendo “portas abertas” a visitas de escolas e da comunidade e organizando eventos gastronómicos e culturais que ajudam a desmistificar a cozinha com algas e a promover os seus benefícios para a saúde –, quer a nível europeu e mundial. Note-se que, além de co-fundadora da Proalga – Associação Portuguesa dos Produtores de Algas –, Helena Abreu é vice-presidente da International Seaweed Association. A partir de 2022, a portuguesa deverá assumir a presidência desta que é a maior associação mundial do setor.

 

 


 

O Santo André está prestes a iniciar uma nova navegação

 

 

É, igualmente, no município de Ílhavo que está instalado o Navio-museu Santo André. É o último da sua classe, testemunho de uma história feita de altos e baixos. Foi, na sua época, um navio moderno, com 71,4 metros de comprimento e porão para 1,2 toneladas de peixe. Nos anos oitenta surgiram medidas de promoção da sustentabilidade das populações de peixe em águas exteriores que resultaram na redução da frota nacional e no abate de boa parte dela. O Santo André não escapou à tendência e a 21 de agosto de 1997 foi desmantelado.

 

Em 2001, o navio Santo André tornou-se museu, atraindo, desde então, milhares de visitantes. Passados vinte anos, está prestes a iniciar um novo ciclo. Foi recuperado, requalificado e vai ganhar um novo discurso expositivo, fruto de um investimento superior a um milhão de euros e que conta com financiamento da União Europeia (superior a 700 mil euros).

 

Dentro em breve, teremos diante nos nossos olhos “um Santo André renovado”, assevera Nuno Miguel Costa, diretor do Museu Marítimo de Ílhavo, estrutura à qual o navio está ligado. “O Santo André teve uma intervenção estrutural quase tão grande como aquela aconteceu em 2001 para o tornar num navio-museu. Além disso, decidimos, porque era a altura certa para o fazer, proceder a uma renovação do discurso museológico”, acrescenta aquele responsável. Garantida está também “uma renovação dos elementos que acompanham a visita, novos elementos tecnológicos e novos suportes museográficos mais experienciais e imersivos”. Tudo com esse propósito fundamental: “recentrar o navio no seu espaço temporal”.

 

Segundo enquadra Nuno Costa, “até agora, o Navio-museu Santo André representava a pesca por arrasto lateral, em contraponto àquilo que é o grande discurso da faina maior e da pesca do bacalhau à linha, contado no Museu Marítimo de Ílhavo”. Contudo, e fruto da relação que o Museu vai mantendo com a comunidade, percebeu-se que era preciso centrar atenções no pós-25 de abril, no período de transição para a democracia. “Esta renovação vai permitir-nos dar o salto daquele elemento fundamental para o trabalho do Museu Marítimo de Ílhavo que é o portal dos homens e navios do bacalhau. [Este arquivo digital] vive das fichas de inscrição no Grémio dos Armadores dos Navios de Pesca de Bacalhau que, regra geral, são anteriores a 1974. Do período do Estado Novo, de 1937 a 1974, nós conhecemos as tripulações e a frota, é algo que temos bastante bem documentado no portal de homens e navios”, justifica. Faltava o passo seguinte: “conhecer as tripulações que fizeram parte desta atividade de 1974 em diante”.

 

Com esta reformulação do discurso museológico, o Santo André passará, assim, a “mostrar a vivência a bordo do navio nesse período, desde o 25 de abril até ao declínio da frota no início dos anos de 1990. Sendo na mesma um navio da pesca do bacalhau, um arrastão clássico, a ocupação dos espaços, a sociabilização entre os tripulantes, os trabalhos a bordo foram diferentes dos do período anterior”, nota Nuno Costa.

 

Na prática, o que muda são “os objetos e as memórias [que ajudam a contar a história]”. “Os espaços de trabalho são os mesmos. O navio não mudou por dentro”, refere o diretor do MMI. Garantido está também o recurso a componentes tecnológicas, mesas digitais, infografias. “Tivemos a preocupação de garantir suportes de museografia acessíveis e bilingues”, realça aquele responsável.

 

 

 

Casa das máquinas abre-se ao público

 

Uma das novidades que tem vindo a ser anunciada passa pela possibilidade de visita à casa das máquinas, o que, até agora, não acontecia. “Era um espaço que não estava visitável no período passado. Foi feita uma limpeza, um trabalho de manutenção, de recuperação e asseguraram-se condições de visita para pessoas individuais e para grupos. É um espaço de trabalho que é interessante quer para o conhecedor, quer para o visitante comum que percebe que ali está o coração do navio e que é preciso uma máquina daquele tamanho para fazer um navio destes navegar”, vinca Nuno Miguel Costa. Outra das diferenças que o público irá encontrar reside no edifício de receção, que será completamente novo.

 

O que não muda é o porão com capacidade de auditório. Segundo repara o diretor do MMI, “este navio serve como espaço de atividades complementares ao Festival do Bacalhau, ao Marolas, a atividades do próprio Museu, entre outras. É um espaço inusitado e que é bastante apreciado nesses momentos por quem atua ou faz a sua performance e pelos visitantes que estão a assistir”.

 

A esta altura, ainda não há previsão para a reabertura do Santo André ao público. Nuno Miguel Costa explica que a pandemia tem limitado muito o desenvolvimento dos trabalhos. “Há materiais que não chegam do estrangeiro. Está tudo muito limitado”, lamenta, argumentando: “Acaba por ser ingrato para todos: para quem quer visitar o navio porque já não está a usufruir do Santo André há bastante tempo, para nós, que queremos dar resposta ao público, e para os nossos fornecedores que também querem dar resposta e não conseguem”.

 

 

Fundos europeus “fundamentais”

 

Fernando Caçoilo, presidente da Câmara Municipal de Ílhavo, realça a importância deste investimento da recuperação e reformulação do Santo André e para o qual a autarquia contou com financiamento da União Europeia. “Os apoios comunitários são fundamentais para os grandes investimentos. Temos também o exemplo das obras em curso no centro de Ílhavo, incluindo o Centro para a Valorização da Religiosidade ligada ao Mar, que se não fosse o apoio comunitário seria impossível a Câmara Municipal ter capacidade financeira para recuperar e transformar o espaço”, sustenta o autarca.

 

No caso concreto do Navio-museu Santo André, a edilidade garantiu apoio através de dois fundos comunitários: a DLBC Costeiro (Desenvolvimento Local de Base Comunitária – componente costeira) e o Intereg Atlantic. Ainda assim, Fernando Caçoilo gostaria que as oportunidades de financiamento para a área marítima fossem mais amplamente aproveitadas. “Num país que tem a cultura marítima e a costa que nós temos, acho que se investe muito pouco na pesca e na economia do mar como um todo”, opina.

 

 


 

 

Navegadores de Palmo e Meio: De pequenino é que se toma o pulso ao leme

 

 

A Ria à qual Aveiro empresta o nome rompe cidade adentro, temperando as ruas, as casas e as vidas dos aveirenses. Mas será que a comunidade ainda tem a ousadia necessária para sair da estreiteza e quietude dos canais urbanos e habitar a laguna autêntica, indomável e imensa?

 

Foi com a ambição de “trazer os aveirenses para fora dos canais da cidade” e, através de desportos náuticos como a vela e a canoagem, “dar-lhes a conhecer a Ria a sério”, que o Sporting Clube de Aveiro criou o projeto Navegadores de Palmo e Meio. Nuno Silva, diretor da secção de vela do clube aveirense, explica que este projeto tem dinamizado uma verdadeira “escola de Ria”, divulgando o desporto náutico nas escolas e possibilitando a centenas de crianças e jovens oportunidades para experimentarem vela e canoagem de forma completamente gratuita.

 

O projeto Navegadores de Palmo e Meio foi cofinanciado pelo Fundo Europeu dos Assuntos Marítimos e das Pescas, através do Programa Operacional Mar2020, tendo contado com um apoio superior a 13 mil euros. Além da componente de vela ligeira, a iniciativa contempla também a vertente da vela adaptada ou, como preferem apelidá-la no clube, “vela inclusiva”. Apesar do nome, o programa está aberto a entusiastas de todas as idades.

 

 

Desde a sua fundação, a 21 de março de 1951, que o Sporting Clube de Aveiro é um clube virado para a Ria e para os desportos náuticos. Na primeira década, a modalidade de maior notoriedade foi a motonáutica, mas rapidamente a vela passaria a assumir lugar de destaque; nos anos de 1970, chega ao clube a secção de natação e, na década seguinte, é a vez da canoagem.

 

Hoje em dia, o Sporting de Aveiro conta com dezenas de atletas – velejadores, nadadores e canoístas – que se dedicam ao treino regular destas modalidades e encaram a Ria como trampolim dos seus talentos, fonte de superação física e palco para a realização pessoal. O projeto Navegadores de Palmo e Meio, no entanto, surgiu para quem ainda não faz da Ria o seu habitat natural, em especial, para as crianças e jovens das escolas do município de Aveiro. Ao abrigo deste empreendimento, o clube tem conseguido dar a conhecer o desporto náutico e a cultura de mar que norteia a sua atividade, bem como o plano de água da Ria de Aveiro.

 

Por norma, as atividades começam em ambiente de sala de aula, com sessões de formação teórica, dadas pelos técnicos do clube, sobre as modalidades da vela e da canoagem, bem como a nomenclatura náutica com a qual, a bordo, todos passarão a entender-se. Na sessão seguinte, há que ir para a água! Saber nadar ajuda, claro, ainda que o clube garanta não só o acompanhamento permanente dos monitores, mas também que a utilização de colete de salvação é regra comum a noviços e atletas experientes. Nuno Silva explica que, com a prática da vela, as crianças e jovens trabalham a autonomia e o sentido de responsabilidade sobre si próprios, apercebem-se da necessidade de adquirir resistência física e agilidade e desenvolvem uma certa “capacidade de desenrascanço”. A bordo, “percebem que têm de ultrapassar os seus próprios limites e superar uma série de desafios. Têm de estar completamente alerta, porque recebem uma série de estímulos quando estão numa embarcação”, esclarece. Há que ter em conta também a perspetiva do lazer. É que, contrariando a tendência acelerada dos tempos, “velejar ajuda a relaxar. Não há telemóveis, nem PlayStation, nem Netflix quando estamos na Ria”.

 

Apesar de ser um projeto focado na população mais jovem, e que tem nas escolas importantes parceiros, o clube acolhe pessoas de todas as idades para batismos de vela. “Dos 6 aos 99 [anos], quem quiser experimentar a arte e a sensação de velejar, só tem de aparecer aos sábados”, informa Nuno.

 

A academia do Sporting Clube de Aveiro conta com uma equipa técnica certificada pela Federação Portuguesa de Vela para ensino não só de vela ligeira, mas também de vela adaptada, recursos humanos “essenciais para dar corpo e alma a este projeto”.

 

Foi em 2010, e através de uma iniciativa desenvolvida em parceria com os Serviços de Ação Social da Universidade de Aveiro, que o Sporting Clube de Aveiro abraçou pela primeira vez o desporto náutico inclusivo, passando a promover a prática da vela adaptada a pessoas com mobilidade condicionada ou incapacidades cognitivas. Mais de uma década depois, “os resultados estão à vista”, afiança Nuno Silva. “É uma alegria vê-los a navegar. Na água, são iguais aos outros, as limitações não se fazem sentir”. De acordo com o diretor, o clube aveirense “é o único da região Centro com atividades regulares – e não só pontuais – de vela adaptada”. O Sporting Clube de Aveiro recebe crianças com necessidades educativas especiais das escolas, bem como adultos, membros de instituições como a CerciAv, a APPACDM, a ACAPO ou a Pais em Rede. Há também atletas que treinam regularmente e participam em provas de competição. “Ainda em 2018, tivemos um campeão nacional em vela adaptada”, recorda o dirigente, orgulhoso.

 

 

Outra das mais-valias do projeto Navegadores de Palmo e Meio é ajudar a desmistificar a ideia de que a vela é um desporto elitista, preconceito que, para Nuno, não passa de “uma desculpa para quem não quer praticar desportos náuticos”.

 

Na verdade, ainda que no patamar dos velejadores de alta competição a realidade seja diferente – por norma, cada atleta tem uma embarcação própria e, não raras vezes, tem de arcar sozinho com os custos da sua manutenção –, para aqueles que encaram a vela como uma atividade lúdica e de promoção de uma vida saudável em contacto com a Ria, os “preços da prática da modalidade são perfeitamente acessíveis”. Além disso, no Sporting Clube de Aveiro, “se houver alguém que queira praticar vela e, por dificuldades financeiras, não possa pagar, o clube arranjará solução”, garante Nuno Silva.

 

Apesar disso, Nuno reconhece que a vela “é um desporto com muitos custos”, mas explica que, no caso do Sporting de Aveiro, “é o clube a assumir grande parte desses custos de forma a não onerar os praticantes”. Ora, para que tal seja possível, o financiamento da União Europeia tem sido fulcral. “Só ao abrigo de um projeto cofinanciado como o Navegadores de Palmo e Meio é que seria possível manter esta dinâmica de as pessoas virem experimentar fazer vela, com aulas abertas e gratuitas”, assegura.

 

Ao longo dos últimos anos, os fundos europeus permitiram igualmente que o clube de Aveiro se equipasse de forma a proporcionar a todos os interessados experiências náuticas de qualidade e em segurança. Atualmente, aquela academia de vela conta com “uma frota bastante completa”, desde embarcações individuais das classes Optimist e Laser, até embarcações de maior dimensão, como as das classes 420, Raquero ou da clássica Vaurien. O clube possui ainda sete embarcações de vela adaptada – “barcos que não viram”, como os da classe Hansa 303 – e seis semirrígidas a motor para apoio a todas as atividades na água.

 

Ali, no lugar dos Moinhos, de coração na água e olhos postos na Ria, entre as salinas, os estaleiros e o Centro Municipal de Interpretação Ambiental, o Sporting Clube de Aveiro tem um recinto amplo e coberto onde guarda as embarcações, os seus atrelados, os mastros, as velas e restante palamenta. Há também uma rampa de acesso à água, guincho e cais de embarque e, no Pavilhão Vasco Agoas – assim se chama aquela infraestrutura –, instalações para arrumo das canoas e caiaques do clube, bem como balneários, um ginásio, salas de reunião e um bar com esplanada. Apesar de tudo, confessa Nuno, “[aquele espaço] já é pequeno para o que precisamos”. “As secções de vela e canoagem querem crescer”, assume o diretor.

 

 


 

 

O “museu vivo” da construção de moliceiros está maior e mais bonito

 

Joaquim Baptista no Estaleiro Museu da Praia do Monte Branco, na Torreira

 

 

De vela enfunada ou à força da vara, com o costado esguio, mastro, verga e sugestivos painéis coloridos à proa e à popa, há séculos que os barcos moliceiros deslizam sobre as águas da Ria de Aveiro. Tido por muitos como o berço desta emblemática embarcação, o município da Murtosa criou, há cerca de dez anos, o Estaleiro Museu da Praia do Monte Branco, na Torreira, um espaço de conhecimento e valorização das artes de construção tradicional de moliceiros e bateiras, que se tem assumido como um verdadeiro “museu vivo” daquele património da laguna.

 

O equipamento acaba de ser ampliado e remodelado – está a poucas semanas de reabrir ao público -, contando agora com um novo módulo. Uma intervenção que resulta de um investimento na ordem dos 370 mil euros, tendo sido cofinanciada pela União Europeia através do Fundo Europeu dos Assuntos Marítimos e das Pescas.

 

Joaquim Baptista explica que, “em municípios como a Murtosa”, [os fundos da União Europeia] são fundamentais”. O presidente da câmara municipal, reconhece que, não fosse o financiamento europeu, “projetos como este teriam de arrastar-se no tempo, dado que a nossa capacidade financeira é muito menor do que as nossas ambições de realização”. A edilidade adianta ainda que já há novos investimentos previstos no concelho: a reabilitação do histórico cais da Béstida, por exemplo, ocupa lugar cimeiro na lista de prioridades da autarquia. O município espera poder vir a candidatar o projeto para aquele ancoradouro a programas de financiamento ao abrigo do próximo quadro financeiro plurianual.

 

Quem também agradece o investimento feito no Estaleiro Museu da Praia do Monte Branco é José Rito. O mestre carpinteiro residente, passa, assim, a dispor de um recinto amplo e coberto, com todas as condições necessárias à construção de moliceiros e outras embarcações de maior envergadura.

 

Com a empreitada, todo aquele espaço foi reorganizado. No módulo primitivo que, até agora, albergava todas as valências do Estaleiro Museu, passará a funcionar um inovador centro interpretativo onde os visitantes poderão conhecer as técnicas de construção tradicionais, o papel social e cultural das embarcações e a importância histórica da Ria enquanto via fluvial. Tudo isto, claro, a acrescentar à possibilidade de observar José Rito a trabalhar ao vivo no estaleiro contíguo e de trocar dois dedos de conversa com o mestre.

 

 

 

 

Há quase cem anos, Raúl Brandão descrevia o barco moliceiro como “o encanto da ria”. Numa das crónicas que compõem “Os Pescadores”, o escritor não poupa elogios à versatilidade e elegância da embarcação. “[O moliceiro] tem não sei quê de ave e de composição de teatro. Anima a paisagem. (…) Não conheço outro [barco] mais artístico, mais leve, mais adequado às funções que exerce e à paisagem que o circunda. Esta manhã, a ria está cheia deles que a cruzam em todos os sentidos”. Hoje em dia, já é raro a Ria estar “cheia deles”, exceção feita, talvez, a dois ou três dias por verão, quando as grandes regatas animam as águas, os céus e as gentes.

 

Quando o negócio do moliço desapareceu, a tradição do barco moliceiro parecia ter os dias contados. Muitos vaticinaram-lhe a extinção, mas a vocação turística viria a trazer novo fôlego à embarcação.

 

Os moliceiros começaram a multiplicar-se nos canais urbanos e, aos olhos menos atentos, a prosperidade do novo setor parecia garante de vida e tradição. No entanto, salve-se alguma exceção, aqueles são moliceiros descaracterizados. Os barcos não têm mastro, os lemes são quase sempre amputados e as proas aparadas ou removíveis.

 

Neste momento, é o envelhecimento dos mestres carpinteiros que mais preocupa todos quantos têm lutado teimosamente para que a mais icónica embarcação da Ria de Aveiro e a sua tradicional arte de construção não se percam.

 

O Estaleiro Museu da Praia do Monte Branco, na Torreira, foi criado com essa missão de “preservar a arte de construção tradicional” de moliceiros e bateiras. “Procurámos criar condições para que a construção naval tradicional tivesse o seu espaço. Sentíamos que havia procura, que era um elemento de atratividade turística, e que se não tivéssemos quem trabalhasse esta arte, muito rapidamente as embarcações da nossa Ria seriam descaracterizadas. Se não houver quem as construa e quem as repare, ter-se-ão de encontrar alternativas industriais que vão descaracterizar aquele que é um valor cultural, social e até económico para a região”, explica Joaquim Baptista.

 

Nos últimos anos, reforçando a aposta fundadora pela valorização da identidade e pela preservação da tradição, mas reconhecendo que aquele “espaço já não era suficiente para que se pudesse fazer o trabalho adequado sem estar dependente da sazonalidade e das condições climatéricas”, a autarquia avançou com o projeto de ampliação e remodelação do Estaleiro Museu. “Queríamos melhorar as condições de trabalho para o mestre” e “reforçar a componente museológica”, renovando “as condições de visitação e interação para aqueles que nos visitam”.

 

Quando reabrir ao público – o que deverá acontecer no próximo verão – o Estaleiro Museu vai apresentar um novo centro interpretativo “dinâmico”, “vivo” e “que se construirá constantemente pela interação com quem o visita”, explica o presidente da câmara. “Todo o discurso expositivo será inspirado nas embarcações e teremos uma parede criativa na qual vamos desafiar os visitantes a exercitarem as técnicas de pintura”, avança.

 

O estaleiro, por sua vez, ocupará o novo módulo, contíguo ao edifício inicial, e manter-se-á sob a responsabilidade do mestre José Rito.

 

Rito gosta de receber as escolas, os grupos organizados de visitantes ou até simples curiosos que passam pelo Estaleiro Museu. Aos 65 anos, o mestre nunca se roga a uma boa conversa. À Aveiro Mag, por exemplo, contou o seu longo histórico na carpintaria naval tradicional, ofício ao qual chegou “quase por engano”, há quase 40 anos. O seu “jeito natural” impressionou o velho mestre Manuel Raimundo que o terá convencido a dedicar-se a esta arte.

 

 

À data de abertura do Estaleiro Museu, José Rito era o único na zona da Murtosa a dedicar-se de forma permanente à construção tradicional de moliceiros e bateiras. Entretanto, juntou-se o mestre Marco Silva, mas a preocupação de passar este ofício às novas gerações mantém-se. “Não há gente nova a querer pegar nisto”, lamenta José Rito.

 

O processo de construção tradicional de uma embarcação como o moliceiro é “duro” e “trabalhoso”, mas o mestre é da opinião que uma eventual candidatura a património mundial da UNESCO, iniciativa que, nos últimos tempos, parece ter vindo a reunir apoiantes em municípios como a Murtosa, Estarreja ou Ovar, podia ajudar a alavancar a arte, incentivando jovens construtores a abraçar esta arte.

 

 

 

* Trabalho editorial produzido em colaboração com a Comissão Europeia em Portugal

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