Joaquim Baptista no Estaleiro Museu da Praia do Monte Branco, na Torreira

O “museu vivo” da construção de moliceiros está maior e mais bonito

Joaquim Baptista no Estaleiro Museu da Praia do Monte Branco, na Torreira

 

 

 

Este mar que a UE nos deu*

 

 

Afonso Ré Lau e Maria José Santana

 

 

 

De vela enfunada ou à força da vara, com o costado esguio, mastro, verga e sugestivos painéis coloridos à proa e à popa, há séculos que os barcos moliceiros deslizam sobre as águas da Ria de Aveiro. Tido por muitos como o berço desta emblemática embarcação, o município da Murtosa criou, há cerca de dez anos, o Estaleiro Museu da Praia do Monte Branco, na Torreira, um espaço de conhecimento e valorização das artes de construção tradicional de moliceiros e bateiras, que se tem assumido como um verdadeiro “museu vivo” daquele património da laguna.

 

O equipamento acaba de ser ampliado e remodelado – está a poucas semanas de reabrir ao público -, contando agora com um novo módulo. Uma intervenção que resulta de um investimento na ordem dos 370 mil euros, tendo sido cofinanciada pela União Europeia através do Fundo Europeu dos Assuntos Marítimos e das Pescas.

 

Joaquim Baptista explica que, “em municípios como a Murtosa”, [os fundos da União Europeia] são fundamentais”. O presidente da câmara municipal, reconhece que, não fosse o financiamento europeu, “projetos como este teriam de arrastar-se no tempo, dado que a nossa capacidade financeira é muito menor do que as nossas ambições de realização”. A edilidade adianta ainda que já há novos investimentos previstos no concelho: a reabilitação do histórico cais da Béstida, por exemplo, ocupa lugar cimeiro na lista de prioridades da autarquia. O município espera poder vir a candidatar o projeto para aquele ancoradouro a programas de financiamento ao abrigo do próximo quadro financeiro plurianual.

 

Quem também agradece o investimento feito no Estaleiro Museu da Praia do Monte Branco é José Rito. O mestre carpinteiro residente, passa, assim, a dispor de um recinto amplo e coberto, com todas as condições necessárias à construção de moliceiros e outras embarcações de maior envergadura.

 

Com a empreitada, todo aquele espaço foi reorganizado. No módulo primitivo que, até agora, albergava todas as valências do Estaleiro Museu, passará a funcionar um inovador centro interpretativo onde os visitantes poderão conhecer as técnicas de construção tradicionais, o papel social e cultural das embarcações e a importância histórica da Ria enquanto via fluvial. Tudo isto, claro, a acrescentar à possibilidade de observar José Rito a trabalhar ao vivo no estaleiro contíguo e de trocar dois dedos de conversa com o mestre.

 

 

 

 

Há quase cem anos, Raúl Brandão descrevia o barco moliceiro como “o encanto da ria”. Numa das crónicas que compõem “Os Pescadores”, o escritor não poupa elogios à versatilidade e elegância da embarcação. “[O moliceiro] tem não sei quê de ave e de composição de teatro. Anima a paisagem. (…) Não conheço outro [barco] mais artístico, mais leve, mais adequado às funções que exerce e à paisagem que o circunda. Esta manhã, a ria está cheia deles que a cruzam em todos os sentidos”. Hoje em dia, já é raro a Ria estar “cheia deles”, exceção feita, talvez, a dois ou três dias por verão, quando as grandes regatas animam as águas, os céus e as gentes.

 

Quando o negócio do moliço desapareceu, a tradição do barco moliceiro parecia ter os dias contados. Muitos vaticinaram-lhe a extinção, mas a vocação turística viria a trazer novo fôlego à embarcação.

 

Os moliceiros começaram a multiplicar-se nos canais urbanos e, aos olhos menos atentos, a prosperidade do novo setor parecia garante de vida e tradição. No entanto, salve-se alguma exceção, aqueles são moliceiros descaracterizados. Os barcos não têm mastro, os lemes são quase sempre amputados e as proas aparadas ou removíveis.

 

Neste momento, é o envelhecimento dos mestres carpinteiros que mais preocupa todos quantos têm lutado teimosamente para que a mais icónica embarcação da Ria de Aveiro e a sua tradicional arte de construção não se percam.

 

O Estaleiro Museu da Praia do Monte Branco, na Torreira, foi criado com essa missão de “preservar a arte de construção tradicional” de moliceiros e bateiras. “Procurámos criar condições para que a construção naval tradicional tivesse o seu espaço. Sentíamos que havia procura, que era um elemento de atratividade turística, e que se não tivéssemos quem trabalhasse esta arte, muito rapidamente as embarcações da nossa Ria seriam descaracterizadas. Se não houver quem as construa e quem as repare, ter-se-ão de encontrar alternativas industriais que vão descaracterizar aquele que é um valor cultural, social e até económico para a região”, explica Joaquim Baptista.

 

Nos últimos anos, reforçando a aposta fundadora pela valorização da identidade e pela preservação da tradição, mas reconhecendo que aquele “espaço já não era suficiente para que se pudesse fazer o trabalho adequado sem estar dependente da sazonalidade e das condições climatéricas”, a autarquia avançou com o projeto de ampliação e remodelação do Estaleiro Museu. “Queríamos melhorar as condições de trabalho para o mestre” e “reforçar a componente museológica”, renovando “as condições de visitação e interação para aqueles que nos visitam”.

 

Quando reabrir ao público – o que deverá acontecer no próximo verão – o Estaleiro Museu vai apresentar um novo centro interpretativo “dinâmico”, “vivo” e “que se construirá constantemente pela interação com quem o visita”, explica o presidente da câmara. “Todo o discurso expositivo será inspirado nas embarcações e teremos uma parede criativa na qual vamos desafiar os visitantes a exercitarem as técnicas de pintura”, avança.

 

O estaleiro, por sua vez, ocupará o novo módulo, contíguo ao edifício inicial, e manter-se-á sob a responsabilidade do mestre José Rito.

 

Rito gosta de receber as escolas, os grupos organizados de visitantes ou até simples curiosos que passam pelo Estaleiro Museu. Aos 65 anos, o mestre nunca se roga a uma boa conversa. À Aveiro Mag, por exemplo, contou o seu longo histórico na carpintaria naval tradicional, ofício ao qual chegou “quase por engano”, há quase 40 anos. O seu “jeito natural” impressionou o velho mestre Manuel Raimundo que o terá convencido a dedicar-se a esta arte.

 

 

À data de abertura do Estaleiro Museu, José Rito era o único na zona da Murtosa a dedicar-se de forma permanente à construção tradicional de moliceiros e bateiras. Entretanto, juntou-se o mestre Marco Silva, mas a preocupação de passar este ofício às novas gerações mantém-se. “Não há gente nova a querer pegar nisto”, lamenta José Rito.

 

O processo de construção tradicional de uma embarcação como o moliceiro é “duro” e “trabalhoso”, mas o mestre é da opinião que uma eventual candidatura a património mundial da UNESCO, iniciativa que, nos últimos tempos, parece ter vindo a reunir apoiantes em municípios como a Murtosa, Estarreja ou Ovar, podia ajudar a alavancar a arte, incentivando jovens construtores a abraçar esta arte.

 

 

 

* Trabalho editorial produzido em colaboração com a Comissão Europeia em Portugal

 

 

A Comissão Europeia em Portugal desenvolve a iniciativa Bolas de Bruxelas para clarificar alguns dos mitos à volta da União Europeia. Não se sabe quanto é, de onde vem e para onde vai o dinheiro da UE? Perceba melhor estas e outras ideias feitas, por vezes erradas, aqui.

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