Praça da República: E se assim não for?

Pompílio Souto*

 

 

 

Disse, há tempos, que aproveitarem-se da necessidade de fazer obras no edifício da Escola Homem Cristo para nele instalar serviços da Câmara constituía uma mistificação, uma ameaça e a perda de uma oportunidade. E explicava porquê. O “espaço praça”(da República, onde se localiza tal edifício), pela respetiva natureza, localização, enquadramento arquitetónico e complexo de vivências que tudo isso suscita, seria fortemente prejudicado, ao contrário do que aconteceria se a especificidade e as virtualidades de tudo isso fossem devidamente tomadas em conta.

 

O que era mesmo, mesmo muito interessante, útil e radicalmente inovador, meus caros, era fazer obras no edifício da Homem Cristo para lá instalar a Escola Artística do Conservatório de Música Calouste Gulbenkian – a funcionar em regime de ensino integrado –, com ligações diretas ao Teatro Aveirense e ao Atlas (Biblioteca Municipal), enquanto do lado oposto, à volta do Claustro da Misericórdia, se instalava a Filarmonia das Beiras e um Espaço de Artes Plásticas.

 

O texto suscitou sugestões de desenvolvimentos e apoios – interessantes e muito bem-vindos –, mas também silêncios, o que é compreensível: primeiro, era apenas e só mais um texto de um cidadão que, ainda por cima, reincide em “perorar” sobre coisas destas; depois porque há sempre, em casos destes, os seguidores do bom proverbiar português: “Burro calado torna-se sábio” e “O calado ganha sempre”, que é o q’interessa, n’é…

 

Mas, entretanto, não se sabe quem é que, na Câmara, está de facto apostado em assim dar uma vida nova àquele edifício. E era bom que se soubesse: com “Homem calado, muito cuidado…”. Depois, também não se sabe quais são os estudos que sustentam tal aposta – coisa que o senso comum exigiria que existissem e que fossem públicos. Finalmente, não se sabe nas mãos de quem está a “decisão”. E aqui é que “bate o vinte”!

 

A decisão, seja ela qual for, pressupõe não apenas “obras”, sejam elas aqui ou ali. Pressupõe a (re)criação de espaços e contextos edificados e não edificados decisivos quer para a qualidade de como a eles se acede, quer do que neles e sua envolvente, se ensine, pratique ou goze, quer, ainda, das sinergias que a articulação – física ou não física – de tudo isso podem ou não suscitar.

 

Esta não pode ser, portanto, uma “decisão de só um homem ou mulher”, nem sequer de um só órgão – e muito menos, seja lá de quem for –, uma opção sem estudos, explicações e debate público.

 

Quero crer que é isso que vai acontecer. Quero crer que a Secretária de Estado da Educação Inês Ramires – que apesar de ser de Aveiro e ter relações com a Escola Homem Cristo – não deixará de consultar e ter em conta na sua posição política e decisão político-administrativa, o que sobre o assunto lhe digam os colegas de governo que, de facto, sabem de “cidades”, de “cultura” e de “ambiente & descarbonização”, p. ex.

 

Quero crer que os diretores da Homem Cristo, da Escola de Artes do Conservatório, da Filarmonia das Beiras e do Teatro Aveirense reconhecerão a bondade dos ganhos que resultariam das contiguidades e afinidades físicas e temáticas assim criadas, e da decorrente facilidade de conceber estratégias holísticas e articuladas, tudo isso invocando e valorizando junto das entidades que “possam permitir” ou que “possam fazer” com que tal aconteça.

 

É que, se assim fosse, todos ganhavam: ganhavam eles, nas condições de trabalho e no estatuto que a sociedade lhes conferia; ganhávamos nós, na qualidade e transversalidade do que nos era facultado; ganhavam todos e o planeta com a mais ampla sustentabilidade do que assim, direta e indiretamente, ali era feito e fruído.

 

Quero crer que a Câmara – antes de fazer seja lá o que for – vai estudar, refletir, partilhar e ouvir. Ouvir, por exemplo, os envolvidos na candidatura de “Aveiro a Capital Europeia da Cultura 2027”. Ouvir, nomeadamente, Carlos Martins – que desde há muito, muito sabe de “cidades, cultura e desenvolvimento” e (porque não?) Carlos Moedas que sendo ex-várias coisas (algumas bem feitas), diz agora muito saber (também) de “cidades”.

 

Sim. Eu acredito que ainda vamos ter, um dia, a Praça da República, como “a Praça do Poder das Artes e da Inovação”. É que, se assim não for, mau será. E os “malfeitores” não seremos todos nós.

 

 

* Arquiteto e ex-docente universitário

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1 Comment

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    Paulo Solá
    2 de Agosto, 2021

    Concordo plenamente com a ideia.
    Serviços camarários é que não!

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